5. A PALAVRA TECLADA, A IMAGEM EDITADA
5.2 Os romances e a metaescrita
5.2.7 O escritor nunca dorme : Ribamar
O romance Ribamar, de José Castello, foi vencedor do Prêmio Jabuti 2011. A narrativa se dá em um encontro híbrido, que mistura a mídia romance a modos da mídia música. Além disso, o leitor nunca saberá ao certo onde está pisando – se em uma biografia, um ensaio, um relato de viagens, um romance embalado por uma canção de ninar. Transita, assim, entre vários estilos – sem deixar, contudo, que as fronteiras entre eles se tornem nítidas, como em uma combinação de mídias, com
exceção do ritmo que perpassa a mídia escrita verbal, imiscuindo música e palavra sem que as possamos separar.
Narrado em primeira pessoa, a obra é carregada de elementos autoficcionais:
autor e narrador têm o mesmo nome, profissão, pai e natalidade. A história traz episódios da memória do narrador ao mesmo tempo em que descreve sua viagem que ocorre no presente, assemelhando-se a um diário. O leitor assiste a um processo de escrita, o texto se presentifica na sua frente, num ato performático em que o narrador principal ocupa a posição de escritor da obra (KLINGER, 2008). Como se subisse no palco e construísse o texto “ao vivo” ao seu leitor, a performance se revela no uso do presente do indicativo e na metaficção que dela emana: “ainda não lhe disse, pai:
escrevo um romance. Não sei se chegará a ser isso. O mais correto é falar de notas para o livro que, um dia, escreverei. Ribamar, ele se chamará. Eu o dedicarei a você”
(CASTELLO, 2010, p.12, grifo nosso). Assim, o romance, muitas vezes, parece ser uma biografia do pai do autor – José Ribamar (1906-1982) –, mas não chega a ser, pois alterna algumas histórias reais com muitas outras inventadas, ou, pelo menos, livremente recriadas. A fronteira entre a verdade e a invenção nunca se revela.
Esbarramos na “escrita de si”: o nome do narrador em primeira pessoa coincide com o nome do autor – José e, na dedicatória, o narrador homenageia seu pai, nega ser uma biografia mesmo que não negue que os fatos sejam reais. Ribamar (nome que dá o título) é o nome do pai, a quem o narrador escreve, o nome do pai do autor é José Ribamar Martins Castello Branco. O narrador tem a mesma profissão que o autor, jornalista, um agente da escrita.
Diversas memórias do pai e sua vida se misturam à narrativa. Em parte, o romance é um relato da viagem a Parnaíba, Piauí, cidade onde seu pai passou a infância e a juventude. No outono de 2008, o próprio José Castello fez uma viagem à cidade, experiência que lhe rendeu uma infinidade de notas. Não viajou a Parnaíba, porém, com o desejo de reconstituir a verdade, mas sim para encontrar materiais que lhe servissem para uma ficção. Há um título para cada capítulo com indicativo de lugar (ex: “Parnaíba” indicando o local do capítulo), às vezes os locais se repetem.
Também é, ainda em parte, um ensaio sobre Franz Kafka, em particular sobre
“Carta ao pai” – longa carta que o escritor escreveu a seu pai, Hermann Kafka, com a intenção de fazer um balanço da difícil relação entre os dois. Ao contrário dos ensaístas, porém, o objetivo de Castello não foi refletir a respeito da obra de Kafka, mas usá-la como um instrumento para pensar sua relação com o próprio pai, Ribamar.
Enquanto escrevo, a angústia. A mesma dor sem nome que, em A metamorfose, destrói Gregor Samsa. Fingir que sou Samsa, considerar que isso é verdade, poderá me ajudar a escrever? É sempre assim: os livros que escrevo me esmagam. Assemelham-se às chineladas com que nos livramos das baratas. (p. 31, grifos nosso).
O intertexto, calcado no próprio processo de escrita, poderia ser considerado uma referência intermidiática apenas por gerar uma ilusão de práticas específicas de outra mídia. Além, dos traços autoficcionais e metaficcionais e do intertexto, a metaescrita acontece pois, durante a narrativa, o livro é como a montagem de uma canção que o pai cantava ao filho, que ele transforma pela escrita em palavras. A canção está no início do livro, antes do primeiro capítulo, como uma escrita à mão.
Assim, todos capítulos têm uma nota, marcação de tempo e a sílaba que acompanha aquela nota da canção. A estrutura musical do romance tem como base uma canção de ninar, que Castello batizou de “Cala a boca”, música com que seu pai o embalava quando ele era bebê e o persegue. O protagonista então decide: "o livro que escreverei, Ribamar, terá a estrutura dessa canção". Assim, transformou a partitura desta canção de ninar em uma estrutura rítmica – e sobre ela armou sua narrativa.
Naquele momento, decido: o livro que escreverei, Ribamar, terá a estrutura dessa canção. À frente, em um emaranhado de palavras. Ao fundo, uma música que sopra. [...] (p.92)
A canção de ninar que já não me embala, mas atordoa, se chama Cala a boca.
Eu a batizei assim. talvez seja melhor trocar o nome, o professor Jobi sugere, pois é muito agressivo.
Não farei isso. Preciso sustentar o mandato que você me destinou. A mim, filho inquieto, cabe o silêncio. A literatura não passa do avesso do silêncio;
por isso você não lia. A música que você, meu pai, cantou para me tranquilizar. [...] Decido: essa música, a Cala a boca, é a espinha de meu livro.
Romances devem ter um esqueleto, ou desabam. Pois o livro que escreverei, Ribamar, terá uma melodia como suporte. Não um índice de capítulos ou um
sistema de ideias, tampouco algum evento do real. Nada parecido. Meu livro será o desdobramento de uma música e isso deve bastar.
Tomo notas para um livro que canta. É também um livro que, através dos sonhos, se torna um ditado. Uma ordem - emanada de onde? (p.104)
Figura 34 – Canção em Ribamar.
Transposição da tabladura da música “Cala a boca”, elemento importante para a fábula.
Fonte: digitalizado por nós.
Cada capítulo corresponde a uma das notas musicais da melodia. O tamanho de cada capítulo varia segundo a intensidade de cada nota. A cada nota, ainda, corresponde um tema específico (a viagem a Parnaíba e o livro de Kafka, por exemplo).
Ao fundo de Ribamar, uma melodia inaudível se desenrola. O romance é, na verdade, uma combinação de oito temas, expressos nas sete notas musicais elementares mais a pausa.
Figura 35 – Disposição de notas musicais em Ribamar.
As notas se dividem e estão dispostas em/a cada capítulo.
Fonte: digitalizado por nós.
O livro se constrói como uma herança às avessas para Ribamar, pai do narrador.
Além de ser uma marca na profundidade psicológica da relação dos personagens, a representação da música, pelas inclusão da partitura, pela escrita à mão, pelo ritmo emocional que ela impõe, serve também como um sinal da presença de uma escritura que se realiza, como se o escritor escrevesse embalado pela memória musical, como se uma das mãos regesse sentenças, capítulos. Fazendo parte da construção do sentido do enredo, essas representações da música que são inseridas no topo da página: uma partitura, uma nota, a marcação do tempo e uma palavra ou sílaba correspondente à canção, mostram-se como elementos que exigem o agenciamento de um editor de texto para além daquele que narra, tornando visível a já discutida aqui relação entre o escritor e o editor. Essas representações se articulam ora como uma combinação de mídias (RAJEWSKY, 2012), quando o leitor as percebe em sua modalidade material e espaçotemporal (ELLESTRÖM, 2017), ora em uma mixmídia (CLÜVER, 2006), quando palavra e ritmo são inseparáveis.
Por fim, o escritor se cola ao narrador, mostrando sua narrativa como um processo que, ao mesmo tempo que exige um ser frente ao computador, não prescinde do ser que narra.
Chegarei a escrever meu livro? Vim a Parnaíba não para fazer uma pesquisa, mas para buscar forças. Talvez a viagem me conduza, ao contrário, à impossibilidade de escrever. Ao silêncio, que é o estado extremo das palavras.
De onde vim, antes do primeiro choro. Escrevo em “Windows”, como no computador. Janelas que abrem e fecham, cortinas que se erguem para, logo depois, baixarem, persianas que se movem. Portas que batem, fechaduras, trincos, vedações – uma dança. [...] Sou um intermediário. Usando uma expressão moderna: um atravessador. Não, o escritor não produz. Alguém
mais, um sujeito qualquer, faz isso em seu lugar. O escritor não passa de um balconista mentiroso que apresenta o livro como seu. Um falsário. A ideia me liberta. Volto a tomar notas. (p.176-177)