Capítulo 2 Romantismo e Ciência na experiência moderna de tempo
2.4 O escritor romântico e a sublimidade do mundo
Ao final do século XVIII, o Romantismo surge em oposição às expressões literárias que, entre os séculos XVI e XVIII, procuraram cultuar a tradição greco- romana, aceitar o significado literário da mitologia e da história clássica, a hierar-
193 Ibidem, p. 132. 194 Ibidem, p. 132. 195
FOUCAULT, 1999, p. 463 apud GERALDINI, 2007, p. 133.
quia dos gêneros e, principalmente, a autoridade do verbo literário enquanto cons- trução capaz de apreender o mundo em sua integralidade. 197
O conceito aristotélico de imitação, [destaca-se], foi sempre uma das chaves da teoria poética, dos séculos XVI ao XVIII. Dele decorria a noção de verdade, consequente à correlação en- tre racional e natural. Ao imitar os objetos da natureza, a arte caminha guiada pela razão, [sendo esta capaz de] apreender a forma imanente, ou seja, uma verdade ideal. O belo é o verda- deiro porque este é o natural filtrado pela razão. Quer as teorias acentuassem o aspecto voluntário e intelectual do processo Cri- ador, quer dessem papel mais amplo à imaginação, resultava sempre esta pesquisa da verdade ideal, que justifica o verossí- mil, domínio da arte. 198
Evidenciando novas concepções de arte, natureza e artista ao basear-se em um forte senso de individualismo e relativismo histórico, a atitude romântica contrapõe-se a tais convenções racionalistas e universalistas que, segundo Antonio Candido, são os pilares do chamado Arcadismo ou Neoclassicismo – a forte ex- pressão literária do século XVIII. 199 Dizendo de outro modo, o Romantismo pro- cura o específico a partir de uma perspectiva individualizadora e relativista, ne- gando a universalidade ou a ideia de um absoluto obtido a partir da razão. O nos- so objetivo nos tópicos subsequentes centra-se na tentativa de compreender os pormenores que caracterizam o individualismo romântico, bem como os desdo- bramentos que dele advém nas concepções de natureza, arte e artista.
O individualismo romântico altera o conceito de arte. Na estética neoclás- sica procura-se estabelecer-se um equilíbrio entre a expressão e o objeto da ex- pressão. No Romantismo, tal equilíbrio não é mais possível, pois “a palavra não é mais cooextensiva à natureza nem tendem as duas a igualar-se; torna-se algo me- nor, algo insuficiente para exprimir a nova escala em que o eu se coloca”. Em nova escala, o eu do artista sobrepõe-se à arte: “a arte parece ao espírito romântico uma limitação da expressão, de toda a inexprimível grandeza que o artista pres- sente no mundo e nele próprio, a arte é um termo secundário relativamente ao drama do artista, que tenta em vão encontrar a forma”.200 Isto significa dizer que o
artista romântico pressente a grandeza existente no mundo e nele próprio, contudo vê-se diante da impossibilidade de expressar tal grandiosidade através da arte,
197 CANDIDO, A. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, 1750-1880, 14ª. Ed.
Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2013. p. 341
198 Ibidem, p. 65. 199 Ibidem, p. 341. 200
tomada aqui como insuficiente, como a limitação da expressão do próprio artista. O artista romântico está sempre em dilema criativo, pois nunca consegue encon- trar o melhor registro que dê conta de expressar a grandiosidade dele e do mundo.
Contudo, há nesse conflito ensejado pela impossibilidade de representação integral do mundo a partir da arte, uma ambivalência. Se existe frustração, como vimos, há por outro lado um “sentimento de glória” por parte do artista: a condi- ção do artista “lhe parece suprema exatamente porque o seu eu transcende o ins- trumento imperfeito com que busca aproximar-se do mistério”. Temos, aqui, uma diferenciação clara com a estética setecentista. Nesta, natureza e arte mais impor- tam do que o artista em si. Elas naturalmente se correspondem, de modo que a arte é capaz de expressar a natureza em sua integralidade. Se essa expressão é tomada como certa, o artista torna-se mero intermediário, desaparece no momento mesmo em que a realização da expressão da natureza pela arte acontece; o amor, a contemplação e o pensamento aparecem como objetos do mundo, existem en- quanto coisas presentes nas possibilidades certas de manifestação artística, não sendo apresentados como entes particulares a um indivíduo, a uma pessoa. No Romantismo, a arte passa à posição de intermediária, já que ela é insuficiente en- quanto expressão da grandiosidade com que se apresentam a natureza e o artista.
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Não apenas o conceito de arte se altera com o Romantismo, mas também o conceito de natureza. Se para os árcades a natureza configurava-se enquanto “princípio”, isto é, enquanto a expressão de um encadeamento das coisas, da or- dem estabelecida entre elas e integralmente apreendida pela razão humana, no Romantismo a natureza aparece como o próprio “mundo, o cosmos, a natureza física cheia de graça e imprecisão”. A essa natureza, interpõe-se o homem en- quanto indivíduo, indivíduo particularizado, logo deslocado de um mundo insis- tentemente misterioso. Há aqui um individualismo que, ao forçar o homem sobre o seu próprio destino, fratura o entrosamento que ele possa ter com o mundo natu- ral que o circunda. Da fratura resulta um indivíduo romântico que se sente sozi- nho, potencialmente vulnerável a ponto de cometer rasgos pessoais, agir conforme o ímpeto e o desespero. 202 201 Ibidem, p. 342. 202 Ibidem, p. 342.
A poesia romântica tem como objetivo, pois, a expressão de um sentimen- to pessoal angustiado, advindo de um senso de isolamento, de um estado de soli- dão. Uma oposição clara a extremamente sociável literatura árcade, onde a pre- sença do interlocutor (isto é, do outro) impõe limites à expansão do eu. 203 A “ma- gia romântica”, então, sucede ao simples “encanto dos árcades”, em um movi- mento marcado pela afirmação de forte individualismo. Destarte, a literatura ro-