2.5. O caminho de provas
2.5.1. O espelho de Narciso
A primeira porção sombria que Isabel revisita é a origem do desejo de possuir uma casa. Voltando-se completamente para o passado, a protagonista se vê na sala do Bispo, diante do espelho cujos “dourados lhe invadem a alma com violento poder de bruxaria” (AC, p. 71). Isabel descobre o que Mariana já sabia: “a raiz do destino de Bela fincou-se no desagravo do Bispo” (AC, p. 66).
Ao ver na casa do bispo que “a riqueza explodia em tudo” (AC, p. 72), Isabel sente-se injustiçada: “Que tamanho tem um palácio todo? Só o salão, tão grande! Bispo é sozinho, sem mulher nem filhos. […] Quando respira, abarrota-se de ar novinho, não chupa o sopro do pulmão dos outros” (AC, p. 72). Ela, ao contrário, sentia que “o peito se oprimia como se uma poeira feita da respiração de todos os irmãos, da mãe, do pai e tia Mariota forrasse por dentro, pesando no coração” (AC, p. 72). A opressão que o contraste entre a pobreza e a opulência causava-lhe gera o desejo de ter uma casa “de um grande menor, de paredes altas, janelas rasgadas, cortinas luzes que se acendessem mais de uma, tapete, mesmo simples pedaço que cobrisse o meio do soalho” (AC, p. 72). Isabel lembra ainda que nesse dia não valorizava uma casa oriunda da venda de sua alma ao Satanás, queria uma casa “com a graça de Deus, um Sagrado Coração entronizado na sala, luz votiva noite e dia” (AC, p. 73). Mas recorda também que no mesmo dia, vendo seu rosto penetrar espelho adentro, “dois olhos muito grandes, fundos de cobiça, escuros da riqueza que a cercava, olharam para ela mesma, estrangeira que mede estrangeira” (AC, p. 73).
Nos dias que seguiram a visita à casa do bispo, Isabel ficou confusa: a casa pequena em que morava parecia-lhe ainda menor,
as paredes manchadas do reboco caído, mais sujas e tristonhas. Teve pena do pai, da mãe, de tia Mariota, de cada um dos irmãos que com ela iam comendo, morando, chorando e crescendo. Casa escura porque sobre ela se premia a sombra do palácio, sombra de montanha a acalentar um espelho de bordas de ouro (AC, p. 73).
Essas lembranças permitem que a protagonista chegue a uma conclusão interessante: “O espelho me dobra, não é a reza” (AC, p. 71). Diante dessa constatação, cabe- nos algumas reflexões sobre as implicações simbólicas do espelho dourado capaz de enfeitiçá- la na infância.
Segundo Chevalier e Gheerbrant (1991, p. 393), o espelho reflete “a verdade, a sinceridade, o conteúdo do coração e da consciência”. Esta afirmação nos permite inferir que, olhando para o espelho do bispo, Isabel descobriu a cobiça e a vontade de poder do coração revelados nos olhos negros que viu e não compreendeu a tempo. O espelho do bispo pode ser relacionado também ao espelho mágico dos Ts'in que, comparado ao espelho do Dharma budista, “mostra a causa dos atos passados” (CHEVALIER e GHEEBRANT, 1991, p. 394). Há ainda o registro do Kagami, ou espelho japonês, que provoca a “reflexão de si na consciência” (CHEVALIER e GHEEBRANT, 1991, p. 395), símbolo que se coaduna ao papel do espelho no momento em que Isabel vivencia sua jornada heroica. A imagem do espelho guarda ainda o aspecto numinoso do “terror que inspira o conhecimento de si” (CHEVALIER e GHEEBRANT, 1991, p. 396), resultando da trajetória da protagonista.
A relação de Isabel com espelho desperta também reflexões acerca do mito de Narciso, um jovem belo, mas muito orgulhoso que permanece insensível ao amor. No mito original, uma ninfa ressentida pede a deusa Nêmesis que castigue Narciso fazendo com que ele ame sem jamais possuir o objeto do seu amor. Assim, depois de ver seu reflexo numa fonte, Narciso apaixona-se pela própria imagem e sem saber, deseja a si mesmo. Tomado por uma paixão arrebatadora, esquece de comer e começa a definhar. Quando percebe que ama a própria imagem, morre e torna-se uma flor de miolo arroxeado e pétalas brancas. Nesse contexto, Narciso é punido por ter se recusado a amar.
Na narrativa de Paim, podemos dizer que Isabel se apaixona pela riqueza, pelo poder e pela opulência. Assim consome todas as suas energias e tal qual Narciso definha para o amor e para vida espiritual, pois contrai um casamento sem amor, tem filhos, mas não
dispensa-lhes carinho e ainda prostitui-se, tudo para poder comprar e mobiliar a casa que nasce da espiadela no espelho dourado do Bispo.
Além disso, ao perceber que viveu exclusivamente para casa e acabou sozinha dentro de uma casa-jaula, Isabel deseja fugir e recuperar o tempo perdido em vão: morre apedrejada, “todo o corpo rijo, morto de qualquer ação, pregado na parede, jungido à casa- grande” (AC, p. 230), o que prova que ela não consegue desprender-se do reflexo que o espelho forneceu-lhe. Em A correnteza, Isabel parece ser punida por ter se afastado dos esplendores da vida e por ter se apaixonado pela riqueza e pelo poder. Adorando a casa, Isabel sofre inutilmente e chora por ter de viver na solidão.
Saindo um pouco da esfera mítica, cabe-nos ressaltar que o espelho possui ainda um importante papel ao longo de todo o processo de individuação de Isabel. Em todas as suas aparições, ele representa para protagonista um instrumento de iluminação. Isso se deve ao fato de o espelho guardar em seu simbolismo uma representação da sabedoria, do conhecimento e da palavra celeste que reflete a manifestação criativa, sendo, portanto, um símbolo sélfico. Vimos anteriormente que no episódio da chuva, quando um raio azul ilumina o espelho, Isabel deposita nele a culpa pela sua solidão. Nesta ocasião a protagonista afirma: “foi em você que eu me perdi” (AC, p. 8), frase que talvez não compreenda por completo, mas que ganha força ao longo da análise existencial. Conforme Isabel aprofunda suas reflexões, veremos que a relação entre ela e o espelho se intensificará e que o espelho continuará oferecendo pistas valiosas para sua transformação.
Depois de ter passado a madrugada com as lembranças do espelho, Isabel dá indícios de que essa havia sido apenas a primeira batalha enfrentada, o início de um longo caminho de provas que ela deseja continuar percorrendo mesmo sem saber aonde vai chegar:
Entrei mesmo no fim do credo, na remissão do pecado e na ressurreição da carne? […] minha vista foi atraída pela mesa dos copos, comecei a montar a ponte sobre as águas. Minha vida, um rio? Margem esquerda a casa, margem direita a garagem com a infância. […] E quando a ponte estiver de tráfego, que vai ser de mim? Onde chegarei? (AC, p. 74).
O fato de Isabel reconhecer-se perdida no entre-lugar remete-nos à luta entre ego e sombra, ocasião em que as máscaras do ego – a persona - serão forçadas a cair, pois será „sacrificado‟, visando a atingir a personalidade Total. Segundo Jung, a sombra se representa sempre numa figura do mesmo sexo, talvez por isso, o próximo movimento da protagonista
com relação ao seu passado diga respeito à vingança empreendida contra a irmã Mariana.