do auge ao esvaziamento sócio-cultural e religioso
FONTES ELETRÔNICAS:
3- O ESPERANTO EM SERGIPE
Segundo Zózimo Lima (1958:13), Alcebíades Paes, alagoano de Palmeira dos Índios, mas radicado em Aracaju, foi estudar medicina no Rio de Janeiro no início do século XX e lá entra em contato com o Esperanto, dentro do contexto otimista da época a respeito do pro-gresso da humanidade. Quando volta a Sergipe, em 1906, começa a divulgar a língua com grande entusiasmo. Nomeado por influência do seu futuro sogro, Josino de Menezes, para lecionar inglês no então
Ginásio Sergipense (hoje Ateneu), trabalha para introduzir o Esperanto
no estabelecimento de ensino. Alcebíades usa sua influência para que as gazetas de Aracaju publiquem artigos sobre a língua, fazendo uma forte campanha para sua divulgação no estado.
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Já em 1907 funda com seus alunos o Clube Esperanto de Aracaju, talvez o terceiro ou quarto do gênero no Brasil. Dilma Maria Andrade Oliveira (2004:10) considera esse fato incluído em um processo que denotava o desejo do sergipano se incluir no “processo civilizatório” da modernidade. Entre os fundadores do Clube Esperanto estavam Zizinha Guimarães, Artur Fortes, Zózimo Lima, Leôncio Contreira Fontes, Normas Reis e Cesartina Regis de Amorim.
Artigos de propaganda eram publicados por Alcebíades Paes nas gazetas de Aracaju. Para mais ampla vulgarização do Esperanto, Alcebíades se infiltrava até mesmo nas associações esportivas locais, chegando a ser presidente do Clube Esportivo Sergipe, onde também promoveu aulas do idioma.
Zizinha Guimarães, que em 1904 havia fundado a Escola
Laranjeirense, logo implantou o Esperanto como disciplina regular de seu
educandário, fazendo com que várias gerações de laranjeirenses tivessem contato com a língua. Norma Reis se tornaria, assim que formada, profes-sora de Francês da Escola Normal, onde introduziria o Esperanto. Assim, por volta de 1910, as três mais prestigiosas escolas do estado estavam ensinando Esperanto. Não é de se estranhar que o governo estadual, por um decreto de 21 de outubro de 1918, proposto por pelo deputado Edson Lacerda e assinado pelo presidente do estado Oliveira Valadão, instituísse o ensino do Esperanto nos colégios públicos da capital.
Alcebíades Paes tornou-se também diretor do Colégio Tobias Barreto. Segundo Zózimo Lima (op. cit. 15) “o Esperanto era
conheci-do por toconheci-dos os seus alunos, os quais trocavam saudações, como os conheci-do Ateneu, naquela língua”. Aracaju também recebia tratados e
dicionári-os de Esperanto e eram realizaddicionári-os bailes adicionári-os quais compareciam dicionári-os membros do clube.
Silvio Romero, que em 1907 tinha se posicionado contra o Esperanto, em 1911 aceita ser o representante oficial do estado no 4º Congresso Brasileiro de Esperanto em Juiz de Fora, tendo pronuncia-do seu discurso de abertura.
Esse quadro otimista, porém, pode ser enganoso, se não levar-mos em conta que em 1910, apenas 0,012% da população sergipana
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freqüentava o ensino primário (OLIVEIRA, op. cit, 7). Assim, por mais divulgado que estivesse o Esperanto entre os estudantes, estes não representavam um número muito grande de pessoas, nem em termos absolutos, nem em termos relativos. A escola em Sergipe ainda não havia se estendido às classes populares, a não ser em casos excepcio-nais, não tendo ainda atingido uma capacidade de disseminar o co-nhecimento.
Também, sem seu artigo, Zózimo Lima afirma que as “gazetas” de Sergipe publicavam largamente artigos de Alcebíades Paes em favor do Esperanto, porém, um estudo feito por amostragem para este tra-balho não revelou nenhum desses artigos nas principais coleções de periódicos conservados no acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe referentes ao período 1905-1930. Talvez um estudo com-pleto das coleções possa revelar a publicação de algum texto, porém, a amostragem revela que eles não seriam tão freqüentes quanto faz crer o autor citado.
Assim, a pequena porcentagem de pessoas que realmente fre-qüentavam cursos de Esperanto em relação à população do estado e a repercussão não tão grande na imprensa local, dominada, aliás, por questões de política partidária, indicam uma extensão do movimento esperantista bem menor do que se poderia esperar diante do apoio das autoridades e da intelectualidade local.
3.1- Repercussões
A medida do governo de Sergipe autorizando o ensino do Esperanto tem repercussão nacional e, no ano seguinte, 1919, o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, aprova lei semelhante inspirado ex-plicitamente no exemplo sergipano. Em 1921 a Liga Brasileira de Esperanto faz uma petição à Liga das Nações para que o ensino da língua seja recomendado aos países membros. O exemplo de Sergipe é bem documentado, pois era a mais exitosa experiência do gênero. O pedido foi examinado pelo Vice-Secretário Geral Nitobe Inazo em 1922, mas teve forte oposição do representante da França.
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A posição do delegado francês tinha duas razões, a primeira era o desejo de manter a todo o custo o prestígio da língua francesa como idioma das relações diplomáticas internacionais, o segundo era o de-senvolvimento do Esperanto entre grupos socialistas e anarquistas na Europa.
Durante a Primeira Guerra Mundial e o período entre guerras, o Esperanto tinha deixado de ser, na Europa, uma diversão de burgue-ses como fora na Belle Epóque e voltara a tomar sua característica origi-nal de grupos internacioorigi-nalistas, como anarquistas, judeus e socialistas. Depois da Revolução Russa de 1917, o governo Soviético começara a usar a língua como instrumento de propaganda, de modo que o idioma foi associado ao esquerdismo pelos setores mais conservadores.
Como a petição tinha partido da Liga Brasileira de Esperanto, a posição do representante do Brasil, Raul do Rio Branco, seria de suma importância. Nessa época, porém, a política oficial do governo brasilei-ro era se alinhar à França em qualquer questão internacional. O em-baixador brasileiro, em seu pronunciamento, declarou que o Esperanto era “uma língua de vagabundos e comunistas, sem tradição, literatura
ou valor cultural, no Brasil, o Esperanto só é ensinado na região me-nos civilizada de todas, Sergipe” (LINS, 1988: 124). Em 1923
encer-rou-se a questão, com a Liga das Nações aprovando um texto genéri-co em que apenas agenéri-conselhava o ensino de línguas, sem menção espe-cífica a nenhuma.
4- POSTERIDADE DO MOVIMENTO ESPERANTISTA EM SERGIPE