AO SENHOR ALLAN KARDEC
I- O ESPIRITISMO DO PONTO DE VISTA RELIGIOSO
Vamos começar se quiserem, pelo lado mais difícil, mais delicado da questão; o que mais discussões provoca, excitando suscetibilidades, a saber: Se o Espiritismo é ou não é
uma religião nova. Inicialmente, vamos admitir, em princípio, que o Espiritismo não é
senão a demonstração e a aplicação das relações que existem e sempre existiram entre as almas despojadas do corpo e as que ainda estão nele envoltas. Agora é ou não é uma religião?
No meu ponto de vista pessoal, não hesitaria em responder, consultando o dicionário a respeito da aplicação da palavra religião: sim o Espiritismo é uma religião, porque é a crença pura na Divindade (definição do dicionário).
Sim, o Espiritismo é uma religião, porque é o culto tributado pela inteligência limitada à Inteligência Suprema, que a criou.
Sim, o Espiritismo é uma religião, porque é a sociedade íntima entre o homem e
Deus; a adoração do Criador e a prática da virtude; a filosofia do povo, a única
verdadeira, a única que não pode enganá-lo; a fé nos seres superiores invisíveis, seres que nos guardam, nos mantêm e nos ensinam a ciência de servir a Deus.
Não acabaria nunca, se quisesse repetir aqui todas as definições da palavra religião que se encontram no dicionário e podem aplicar-se ao Espiritismo; limito-me a dizer, apoiando-me nessa autoridade da nossa língua33: Sim, o Espiritismo é uma religião, porque é o resumo, o complemento de todas as que existem; mas religião puramente intelectual, despojada de qualquer culto exterior, livre de qualquer dominação e, conseqüentemente, não deve ter o nome que evoca sempre a idéia de um jugo. Examinemos um pouco como agem todas as religiões que disputam o governo de nossas almas e freqüentemente, dos indivíduos.
Desde que os homens criaram essa palavra, que pode ser interpretada de tantas maneiras, eles a personificam, por assim dizer, em cada um de seus representantes; fizeram dela um regimento; dizemos: católicos, protestantes, judeus, maometanos, como diríamos zuavos, cossacos, hussardos, cipaios. Todos estão preparados para guerrear, com a diferença que os últimos combatem em nome de diversos soberanos, enquanto que os outros, tendo o mesmo Deus, o mesmo mestre, deveriam ter a mesma bandeira! É pois, uma guerra civil que eles travam sem cessar, a mais ímpia de todas! guerra somente moral hoje; mas quanto sangue não fez derramar, ou não faria ainda? ... E quantas vezes Deus, em sua cólera justa34, não teve de dizer a esses exterminadores orgulhosos e vingativos: “Caim que fizestes do teu irmão?”
Para instalar-se religião, do ponto de vista vulgar, o Espiritismo tem uma maneira especial de adorar Deus? Prescreve um culto particular? Procura destruir os cultos estabelecidos? Prega uma moral subversiva? Desvia-se do objetivo que todos os cultos se propõem? ... Não ... O objetivo de todas as religiões, objetivo primitivo e puro, é o melhoramento do homem, a elevação da alma; é enfim o aperfeiçoamento, a reconstrução da máquina humana, o domínio do Espírito sobre o corpo.
33 No original: langue française (língua francesa).
Encarado assim, o Espiritismo poderia ser uma religião: religião universal, resumo e complemento de todas as religiões, admitindo todos os cultos como se devem admitir todas as línguas, um meio de comunicação.
Pela linguagem, os homens se correspondem entre si; pelo culto, tentaram corresponder-se com Deus e cada um tentou isso segundo sua inteligência ou necessidades. Mas, assim como os sábios adotaram o latim35 para se entenderem, seja qual for sua nacionalidade, os homens adotarão o Espiritismo para se aproximarem do Criador, seja qual for seu culto.
No ponto de vista religioso, o Espiritismo não é uma religião na acepção da palavra, porque não tem culto e admite todos36. (Somente esse fato deve isto provar).
Do ponto de vista moral é a maior, a mais perfeita, a mais sublime de todas, porque é a crença que aproxima mais do Criador, levando todas as crenças para o seu ponto de partida, forçando todas as cabeças a se curvarem com respeito sob o estandarte erguido no Gólgota37, há dezenove séculos.
Somos numerosos; entre nós encontram-se muitos cultos diferentes, muitos dogmas opostos e no entanto, não temo dizê-lo, o Espiritismo nos leva a todos, a todos sem exceção, ao pé da cruz, porque, elevando nossos olhares para ela, todos nós vemos nela inscritos estas duas palavras, que são nosso lema: AMOR e CARIDADE38.
Todos ouvimos essa voz eloqüente e suave repetir-nos do alto do Calvário, como último aviso, último penhor de ternura, esta máxima sublime que resume em si todos os deveres, todas as virtudes: Amar a Deus sobre todas as coisas e a seu próximo como a si
mesmo39.40
35 Ontem o latim, hoje (2006) é o inglês; amanhã, quiçá, será o esperanto.
36 O Codificador esclarece sobre isso informando que o Espiritismo não é “uma religião nova, uma seita que
se forma das mais antigas; é uma doutrina puramente moral, que absolutamente não se ocupa dos dogmas e deixa a cada um inteira liberdade de suas crenças, pois não impõe nenhuma. E a prova disso é que tem aderentes em todas, entre os mais fervorosos católicos, como entre os protestantes, os judeus e os mulçumanos” (RS, 1861, FEB, outubro, pp. 436-7).
37 Jesus-Cristo, guia e modelo. O tipo da perfeição moral. O mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é
a expressão mais pura da lei do Senhor. Ele é o mais puro de quantos têm aparecido na Terra. O Espírito Divino o animava (Ver O livro dos espíritos, 1º edição especial, FEB, 2005, Brasília, DF, pergunta 625).
38 “Meus filhos, na máxima: Fora da caridade não há salvação, estão encerrados os destinos dos homens, na
Terra e no céu; na Terra, porque à sombra desse estandarte eles viverão em paz; no céu, porque os que a houverem praticado acharão graças diante do Senhor. Essa divisa é o facho celeste, a luminosa coluna que guia o homem no deserto da vida, encaminhando-o para a Terra da Promissão” (Espírito Paulo, o apóstolo [Paris, 1860], O Evangelho Segundo o Espiritismo, 1ª edição especial, FEB, 2004, Brasília, DF, capítulo XV, pp. 315-6)
39 Mt. 22: 36-40; Mc. 12: 28-34 e Lc. 10: 25-28.