4.3 PARA ENTERRAR O COMPLEXO DE VIRA-LATAS: A POLÍTICA BRASILEIRA 4.3.1 O esporte e as dinâmicas internacional-nacional Com as discussões construídas até o momento a respeito da identidade nacional e a noção de modernidade que foram historicamente incorporadas pelos brasileiros, temos uma base significativa para pensar a introdução e a incorporação de diferentes modalidades esportivas no país. Também são úteis as construções já realizadas sobre o esporte em sua compreensão moderna, que essencialmente considera as práticas europeias, sem obviamente desconsiderar as peculiaridades típicas de qualquer incorporação. Em outras palavras, compreender o esporte no Brasil é analisar o relacionamento entre o internacional e o nacional, em fluxos de influências de duplo sentido, especialmente sobre as dinâmicas migratórias. Podemos demarcar a vinda da família real portuguesa como um ponto de transição significativo. Mesmo que essa presença não tenha se alongado, foi um período de mudanças que, em graus diferentes, prosseguiram durante o processo de independência e ganharam novos contornos, mais voltados a uma relação paradoxal de construção identitária dependente de modelos europeus. Nesses momentos, novas formas de sociabilização e consequente adoção de novos estilos de vidas e práticas distintivas europeias tornaram-se ainda mais perceptíveis nas rotinas nacionais. Entre essas práticas, incluem-se aquelas próximas ao esporte, ou seja, algumas atividades foram seletivamente sendo excluídas no arcabouço de práticas consideradas esportivas, como as touradas, o jogo do bicho e os banhos de mar, enquanto outras passaram por processos de desenvolvimento e consolidação (como o turfe e o remo) ou de adaptação mais vagarosa (como as corridas a pé e de velocípedes, os primórdios do atletismo e do ciclismo) (MELO, 2009). Os brasileiros que viviam nos locais em processo de urbanização buscavam se aproximar dos modelos europeus em diversas instâncias – econômicas e políticas, bem como culturais e sociais – que incluíam os exercícios físicos e os esportes (FRANZINI, 2009). Adotar esses hábitos significava se aproximar das referências europeias e distanciar-se das práticas das classes que não tinham acesso a elas; em outros termos, para aqueles dotados do habitus de determinadas classes, o esporte e outras práticas corporais se enquadravam em propriedades classificáveis que são reconhecidas e apreciadas por seus pares por terem o ethos europeu dominante, diferenciando-se socialmente das classes que não tinham o mesmo acesso. A adoção ou no mínimo familiarização com essas práticas se deu essencialmente por dois processos: a imigração dos europeus e o retorno de emigrantes ao país. O caso do futebol pode ser representativo desse processo. Fontes historiográficas apontam para a realização de partidas por marinheiros e outros funcionários britânicos no país por volta da década de 1880. Mas também é comum, nas histórias repetidas como oficiais que buscam mitificar o fundador, creditar ao brasileiro Charles Miller a importação de instrumentos básicos do futebol (regras, bola, bomba de ar, chuteiras e camisas de times), após seu período de estudos na Inglaterra, em 1894. Em outras cidades, também encontramos figuras “fundadoras” semelhantes como Oscar Cox (Rio de Janeiro, 1897), Zuza Ferreira (Salvador, 1901), Guilherme de Aquino Fonseca (Recife, 1903), Victor Serpa (Belo Horizonte, 1904) e Joaquim Moreira Alves dos Santos (São Luís do Maranhão, 1907) (FRANZINI, 2009). Como salienta Victor Melo (2009), precisamos perceber que esses intercâmbios aconteceram não só pela presença e ação dos imigrantes ao trazerem suas práticas esportivas, mas a partir da predisposição no território brasileiro da adoção de tais práticas pelo simples fato de serem europeias. Mas mesmo com essa predisposição, a incorporação não se deu de forma passiva, homogênea ou garantindo imediato enraizamento, visto que havia a influência de diferentes países e escolas europeias, como também reformulações e apropriações locais que dificilmente conseguem ser mapeadas acerca de suas justificativas e temporalidades. Processo semelhante se passou em outros países da América Latina, cuja noção de modernidade pelas práticas esportivas se aproximava às europeias (posteriormente também as estadunidenses) e se distanciava daquelas indígenas ou locais (TORRES, 2006; ARBENA, 1996). Apesar disso, existe certa concordância acerca dos sentidos observados e, por vezes, adaptados do esporte pelas elites no período de estabelecimento, especialmente nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX. Diferentemente de uma falsa noção simbolizada pelo amadorismo, da “prática pela prática”, com fim em si mesma e sem propósitos específicos, o esporte, também naquele momento, carregava significados e finalidades para os grupos que a ele tinham acesso. Para além da distinção social, iniciava-se uma preocupação com o desenvolvimento físico, aqui incorporado na perspectiva higienista de suposto fortalecimento ou regeneração da “raça”, no esforço de superação dos efeitos tidos como maléficos da miscigenação. Tanto o futebol como a ginástica, mas poderíamos achar discursos semelhantes em outras práticas, acrescentavam ainda, como prática, às qualidades morais de disciplina, solidariedade e unidade nacional, povoando instituições como colégios de elite, clubes de imigrantes e brasileiros e, no caso da ginástica, também as instituições militares (FRANZINI, 2009; SOARES, 2009). Como é sabido, a seletividade dos locais nos quais essas práticas aconteciam não duraria muito. Existe um indicativo que já no início do século XX houve uma incorporação do futebol e a criação de clubes em bairros operários periféricos, cuja inserção no conjunto de práticas de novas classes, por vezes significando a inclusão dos negros, não passou inerte e iniciou a disputa sobre as práticas e praticantes legítimos (FRANZINI, 2009). Quando pensamos que a elite se via como estabelecida – a ortodoxia naquela prática –, as estratégias para colocação ou reconhecimento dos demais sobre sua posição dominante se viam na tentativa de consolidação de ligas com a seletividade dos clubes que fariam parte, isolando outros locais de prática ou manifestações de outros setores sociais, com especial exclusão dos praticantes negros. A exclusão não era explícita, mas utilizava artifícios em estatutos ou na aceitação de membros dos clubes para “selecionar” jogadores – era comum levar em consideração o passado esportivo e social para aceitar ou não um jogador (SANTOS, 2009). Enquanto os campeonatos das ligas de clubes de elite ocupavam as seções esportivas dos jornais, a prática do futebol “de várzea”, nas periferias, eram assunto de páginas policiais ou a inclusão de jogadores de outras classes em clubes de elite era questionada sobre sua “moralidade” em campo (NEGREIROS, 2009; SANTOS, 2009). Esses foram alguns dos desdobramentos da incorporação das práticas internacionais no cenário nacional. Para refletir sobre a circulação e difusão das práticas para o internacional, especialmente nos primeiros indícios da participação de equipes brasileiras, é no futebol que encontramos dados temporalmente mais antigos. Da prática que vinha se popularizando nos clubes, colégios e várzeas, consolidando-se em campeonatos, em 1914 é reconhecida a primeira partida de uma “seleção brasileira” – jogadores de clubes do Rio de Janeiro e de São Paulo jogaram contra uma equipe inglesa da terceira divisão, o Exeter City. No mesmo ano, em Buenos Aires organizou-se uma disputa com a seleção da Argentina (NEGREIROS, 2009). Essa partida parece não ter sido exceção sobre a iniciativa de confrontos entre equipes nacionais, já que apenas dois anos depois, em 1916, iniciava-se o campeonato sul-americano de futebol, naquele momento composto por cinco seleções, e que atualmente é nomeado como Copa América. Sem muito sucesso esportivo no primeiro campeonato e no do ano seguinte, no ano de 1919 o Brasil sediou o evento e o venceu, mobilizando assim um sentimento positivo e até então inédito na perspectiva nacional ao redor do futebol. Fontes indicam uma movimentação significativa de cerca de 25 mil torcedores no Rio de Janeiro, com linhas de bondes em horário e rotas especiais para o estádio das Laranjeiras, do Fluminense Foot Ball Club, além do decreto de ponto facultativo no dia da final pelo presidente em exercício, Delfim Moreira, com a recepção de delegados estrangeiros pelo então ministro do exterior José Manuel de Azevedo Marques (FRANZINI, 2009; GAFFNEY, 2010; NEGREIROS, 2009). A segunda oportunidade em que o país sediou (e pela segunda vez venceu) esse mesmo evento, em 1922, coincidiu com as comemorações do Centenário da Independência, relacionadas com uma exposição internacional do Brasil. Outro evento esportivo foram os Jogos Latino-Americanos, chancelados pelo COI, que descrevemos mais detalhadamente no próximo subitem. Como parte das comemorações, a tentativa de mostrar a modernidade nacional se manifestava em reformas urbanas e construções, incluindo a expansão da capacidade do estádio das Laranjeiras. Com essa exposição, evidenciava-se a tentativa de utilização de eventos internacionais para o desenvolvimento econômico e promoção do país no exterior (GAFFNEY, 2010). Embora esses casos sejam relacionados ao futebol, eles já indicam uma mobilização significativa que passa a envolver não só as instituições privadas (clubes e ligas de elite), mas oportunidades em que o próprio governo brasileiro vislumbra a possibilidade de utilizar eventos esportivos, entre outras ações, para provocar visibilidade e potencialmente atrair investimentos. Nas mobilizações nacionais, não necessariamente orquestradas, as pessoas reuniam-se sob o mesmo desejo e satisfação nas vitórias do selecionado brasileiro em disputas com outros países. Assim, o futebol dá os primeiros indicativos sobre seu potencial em atrair a atenção de um grande número de pessoas e gerar pontos de identificação sobre “ser brasileiro”. Embora significativos para a realidade brasileira, esses dados devem ser vistos com ponderação. Primeiro, ressalta-se que a utilização de eventos, tais como as exposições internacionais, já vinham sendo realizadas há mais de meio século em outros países europeus. Isso acarreta na necessidade de não ver as empreitadas brasileiras como inovações no cenário mundial. Segundo, as interações futebolísticas ainda se davam no cenário regional sul-americano, mesmo que pontuais casos de jogos com clubes ingleses tenham ocorrido. À isso, devemos considerar que existiam muitos obstáculos – financeiro, de transporte, comunicação, entre outros fatores logísticos – que eram limitantes aos intercâmbios mais internacionais naquele período. Terceiro, ao olharmos a inserção efetiva do Brasil nos Jogos Olímpicos modernos, por exemplo, percebemos que a inserção em movimentos esportivos internacionais se deu de forma relativamente tardia em comparação com outros países. Como anteriormente mencionado, o Brasil possuía representação no COI desde 1913. Na não realização dos Jogos de 1916 pela Primeira Guerra Mundial, a primeira delegação brasileira constituída e participante só se efetivou para o evento na Antuérpia, em 1920. Nas cinco edições anteriores, existem alguns indícios históricos que brasileiros representando outros países participaram de competições ou, no mínimo, foram escalados sem terem competido de fato (NEGREIROS, 2009). Comparando os dados, percebemos que por volta dos anos 1915-1920 parece ter existido a mobilização para envio de representantes brasileiros em torneios ou disputas internacionais, tanto no futebol quanto nos Jogos Olímpicos. Esse dado temporal não deve ser visto como uma coincidência, mas a indicação de que existia uma conjuntura favorável para investimento, senão por parte do Estado, de grupos sociais que se articulavam e viam como interessante a possibilidade dessas representações internacionais. Contextualmente, é relevante recordar o momento histórico da Primeira Guerra Mundial, que exalta o sentimento nacionalista e o esporte como um espaço de batalhas miméticas entre países, especialmente na Europa: “A imaginária comunidade de milhões parece mais real na forma de um time de onze pessoas com o nome” (HOBSBAWM, 1990, p. 171). No cenário doméstico, notamos que a criação, até 1920, de aproximadamente 140 clubes de futebol no país, com um número significativo de cidades que iniciavam suas disputas clubísticas locais (SOUZA, 2014), além da preferência por incluir jogadores negros ou de classes populares nos clubes de elite em prol do rendimento esportivo (SANTOS, 2009), estimula hipóteses a respeito do florescimento da lógica competitiva através do esporte, cuja perpetuação no cenário internacional seria uma questão de tempo. As instituições esportivas reguladoras surgem, inicialmente, na tentativa de manutenção da hegemonia e do esporte legítimo, que regeriam a organização das regras, equipes e campeonatos. Com ações locais na primeira década do século XX, foi em 1915, no Rio de Janeiro, que foi criada a primeira instituição nacional, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), numa iniciativa de concentrar os desejos das diferentes ligas e representar o Brasil na FIFA (entidade internacional criada em 1904) (FRANZINI, 2009), o que viria a acontecer no ano de 1923 (NEGREIROS, 2009). O reconhecimento pelo governo brasileiro da CBD, como instituição de utilidade pública, viria pelo presidente Epitácio Pessôa através do Decreto n. 3.895, quatro anos depois de sua criação (BRASIL, 1919). A CBD, por todo o período de concretização das práticas esportivas no país, teve um papel dominante. Por vezes, as lideranças da instituição abriram mão de convocar e levar para campeonatos internacionais os melhores jogadores para não ceder às pressões de ligas locais e manter sua posição. Esse foi o caso da Copa do Mundo de 1930, quando a Associação Paulista de Esportes Atléticos não liberou seus jogadores porque a CBD não havia chamado nenhum componente paulista para a comissão técnica. Mesmo os paulistas representando 15 dos 23 jogadores convocados, a CBD preferiu não levar esses jogadores e teve resultados muito ruins na competição (DRUMOND, 2009). Essas disputas foram acentuadas na década de 1930 e 1940, quando o relevante êxodo de jogadores brasileiros para o exterior provocou uma discussão ideológica sobre a manutenção ou fim do amadorismo no futebol. A CBD recusava-se à essa incorporação, enquanto alguns clubes lutavam pelo profissionalismo – nessa dissidência, os clubes criavam ligas alternativas e organizavam campeonatos nacionais com qualidade superior àqueles da CBD. Para além das disputas entre amadores e profissionais, estava em jogo a disputa entre dirigentes esportivos que eram influentes também na política e entre a elite econômica (DRUMOND, 2009). À parte da disputa entre profissionalismo e amadorismo, outro ponto de disputa no cenário esportivo brasileiro se deu na década de 1930, quando alguns grupos começaram a criar as chamadas federações estaduais especializadas, que visavam administrar uma única modalidade. Essa postura colidia com a CBD, que possuía federações associadas para múltiplos esportes. Assim, novos grupos passaram a surgir, inclusive tentando conquistar o monopólio pela liderança do futebol. Pela aproximação pessoal entre o então presidente da CBD, Luiz Aranha, com o presidente da república Getúlio Vargas, o governo passa a intervir no futebol através de uma legislação feita para o teatro, estabelecendo regras e controlando o esporte conforme os interesses da CBD (DRUMOND, 2009). Ao se expandir para além dos ambientes da elite, o esporte começa a sofrer intervenções do Estado. Se nos primeiros momentos essas intervenções eram pontuais, como a mobilização de setores do governo para o Campeonato Sul-Americano de futebol no Rio de Janeiro em 1919, no decorrer do século XX elas passam a ser maiores e mais frequentes. Sob a administração de um Estado centralizador como o governo de Vargas, as disputas típicas de um campo em construção, como era o esportivo naquele momento, passam a sofrer uma influência significativa do campo político. Num primeiro cenário, mais que os interesses do próprio Estado, foram as relações pessoais que passaram a preponderar sobre as posições dominantes e dominadas. Posteriormente, com a consolidação do futebol como prática cultural no Brasil, outros contornos e influências passam a ser observadas. Além da intervenção sobre a organização e função das instituições esportivas, destaca-se os incentivos e a associação de imagem dos presidentes em especial às destaca-seleções brasileiras que representam o país na Copa do Mundo de futebol. Em 1938, para a Copa do Mundo na França, Getúlio Vargas recebeu os jogadores brasileiros antes da partida, financiou significativamente as despesas e sua filha foi a “madrinha” do selecionado. Considerando que o Estado Novo havia sido estabelecido em 1937 por Vargas, com alto investimento na unidade nacional e centralização política, a popularidade do futebol e a representatividade da seleção servia aos seus propósitos – como um extra, a miscigenação racial dos jogadores seria a ilustração da harmonia da suposta democracia racial e combinavam com o ufanismo nacionalista mobilizado naquele período (DRUMOND, 2009). Em outro regime político autoritário, como os anos da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985), é bastante conhecido o uso político do esporte, e em especial da seleção brasileira de futebol. Para além do futebol, nesse período o esporte em si foi visto como uma questão de Estado por vários motivos, em que se soma a possibilidade de dar visibilidade política internacional às ações nacionais, especialmente considerando o crescimento econômico e a “necessidade” de “incluir” o Brasil entre os países desenvolvidos. Podemos considerar ainda a possibilidade de aproximação e sensibilização da população ao regime e, ainda, a importância política, econômica e simbólica que o esporte passava a ter entre as potências mundiais nos anos da Guerra Fria (OLIVEIRA, 2009). Embora a construção e consolidação do campo esportivo brasileiro tenha sido visto aqui com os subsídios dados pelas pesquisas relacionadas ao futebol, que indubitavelmente tem um papel protagonista nesse campo desde seu início até os dias atuais, não podemos perder de vista a presença de outras práticas esportivas e dos movimentos relacionados aos Jogos Olímpicos. Nesse sentido, as instituições esportivas e as ações – em alguns casos interferências – governamentais já descritas se inter-relacionam com o desenvolvimento do movimento olímpico no país, motivo pelo qual sua descrição foi realizada. A seguir, delineamos como se deram essas inter-relações, bem como os procedimentos mais específicos de institucionalização e relacionamento com o Estado brasileiro, culminando na leitura do campo esportivo brasileiro e a posição das instituições relacionadas ao movimento olímpico no período da candidatura aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. No documento ALTIUS, CITIUS, FORTIUS... DITIUS? LÓGICAS E ESTRATÉGIAS DO COMITÊ OLÍMPICO INTERNACIONAL, COMITÊ DE CANDIDATURA E GOVERNO BRASILEIRO NA CANDIDATURA E ESCOLHA DOS JOGOS OLÍMPICOS E PARALÍMPICOS RIO 2016 (páginas 192-199)