CAPÍTULO 02 – TEORIA DA FORMAÇÃO PLANEJADA POR ETAPAS DAS
2. P Ya Galperin e o contexto da Teoria da Formação Planejada por Etapas das Ações
2.3 O Esquema da Base Orientadora Completa da Ação (EBOCA) na
De acordo com Núñez e Ramalho (2016), Galperin (1992) introduz também o termo de Esquema da Base de Orientação Completa da Ação (EBOCA). Assim, enquanto a BOA é a orientação real do estudante, subjetiva, o EBOCA é a base de orientação desejada, que contém as condições essenciais para a adequada execução da ação. O Esquema da Base Orientadora Completa da Ação (EBOCA) é elaborado pelo professor ou disponibilizado nos conteúdos das disciplinas. Trata-se da representação esquemática da BOA tipo III. Esses tipos de esquemas são orientações, tanto dos professores como dos estudantes em relação aos conteúdos das disciplinas.
O EBOCA fornece aos estudantes uma ferramenta cultural para a generalização teórica, que consente a compreensão de um conjunto de situações ou de um dado domínio. Essa é uma condição essencial para a formação de conceitos gerais e de ações mentais com alta possibilidade de transferência da aprendizagem (NÚÑEZ e RAMALHO, 2016).
As ações desenvolvidas e apoiadas nos EBOCAs possibilitam comparar, de forma consciente, os esquemas mentais dos estudantes e de suas bases de orientação com os esquemas que representam o modelo pedagógico e didático, que deve ser a referência de diretriz da aprendizagem.
Sendo assim, o EBOCA é a representação materializada da invariante do conteúdo na forma do que Galperin (1992) chamou de mapa da atividade. Ao referir-se ao uso do mapa da atividade, Galperin afirma:
É necessário assinalar que a presença do mapa da atividade muda amplamente a atitude do sujeito diante da tarefa. Em sua ausência, observa-se o sujeito, indiferente, com necessidade de estímulos externos. Uma vez que esse sujeito recebe o mapa da atividade, muda totalmente e se torna ativo. O estudante recebe a ferramenta “nas suas próprias mãos” e se transforma em dono da situação, enquanto, sem o mapa, é um executor passivo que depende das orientações alheias (2001a, p. 37).
Vários autores como Reshetova (2004), Sálmina e Reshetova (1985), têm discutido fundamentos e formas de representação do EBOCA. Na opinião de Núñez e Ramalho (2016) não existem EBOCAs universais, mas a estrutura do modelo do EBOCA é independente da natureza dos conteúdos e dos tipos das ações. Pode ser usada em todas as disciplinas, uma vez que reflete uma estrutura geral do pensamento.
O EBOCA pode ser de diferentes tipos, mas deve ser, preferencialmente, de natureza heurística e não um algoritmo fechado, embora, em casos excepcionais, possa ser desse último tipo. A elaboração da EBOCA implica na determinação da invariante da habilidade, a qual é retratada como um esquema.
Essas considerações anteriores consentem afirmar que na etapa de reelaboração das BOAs dos licenciandos, atinente à habilidade da modelagem científica, de fenômenos e processos em Química, há a atividade central e a negociação de sentidos (o EBOCA) com os significados (as BOAs dos estudantes) para se chegar a orientações desejadas e compartilhadas. Consequentemente, essa é uma etapa da aprendizagem que se tem na representação mental adequada à ação, e dessa forma se tem uma compreensão também adequada à atividade em questão.
A aprendizagem é também a estruturação ou reestruturação da BOA, uma vez que ela dirige a ação, e considera as relações entre pensamento e ação. Uma reorganização da ação provoca a reorganização da orientação, enquanto esquema mental. O quadro 04 mostra essas relações:
Quadro 04: Mudança de orientação e da ação Modificada em
Ação A Ação A1
Orientação A Orientação A1
Fonte: da pesquisa, 2017.
O EBOCA, enquanto esquema de orientação, orienta a reconstrução das BOAs, as quais podem ser materializadas (representação externas), necessárias a ser usadas nas etapas materializadas da ação.
Nuñez e Pacheco (1998) consideram os mapas da atividade um recurso externo importante, por propiciar a aquisição de uma bagagem de conhecimento muito grande, além de facilitar sua compreensão e apropriação pela sua utilização. Dentre as suas características, destacam-se: a eficiência ao se iniciar pela materializada; a garantia do
estudo compartilhado, porém sem perder a individualidade na fase seguinte; possibilidade de redução da ação com inclusão de outros materiais; a obtenção de um nível maior de independência, pelos alunos, por redução e eliminação.
O mapa de atividade é o meio de ensino em forma de modelo ou matriz, no qual se esquematiza a BOA, com conteúdo, forma e nível de complexidade. Medina (2000 apud Núñez, 2009) agrupa do seguinte modo:
a) segundo o conteúdo, mapas das habilidades que:
- refletem os traços ou relações essenciais do objeto de estudo. - apresentam a ordem das operações da ação.
- contêm os traços ou relações essenciais do objeto de estudo e a estrutura operacional da ação.
b) segundo a forma:
- de uma, duas ou três sessões;
- de texto escrito, desenho, esquema, diagrama, símbolo etc. c) Segundo a complexidade:
- detalhamento e reduzidas; - preparada pelo professor;
- criada pelo aluno em colaboração com o professor.
Entretanto, o modelo do mapa de atividade (ou cartão de estudo) deve apresentar proximidades com o conteúdo, para que o estudante tenha condições de observar o conteúdo de estudo de maneira compreensível. Ao mesmo tempo, não deve conter elementos que possam desviar a atenção ou permitir a distração, isto é, é necessário primar pelo princípio da evidência. Em outras palavras, deve apresentar características abstratas e simples, peculiares ao objeto de estudo e em conformidade com a idade escolar dos estudantes. Podem assumir formas diferenciadas, desde que atenda às especificidades do objeto de estudo, como: modelos, analogias, gráficos, ilustrações, figuras, entre outros.
A revisão da literatura realizada no capítulo 03 possibilitou definir a invariante da habilidade, o que representa o EBOCA da ação. Esse esquema se constitui referência para o diagnóstico do conhecimento da B.O.A desejada, tida como adequada na pesquisa. Assim se define o EBOCA retratado na quadro 05.
Quadro 5: EBOCA da ação modelagem científica
Modelo do objeto Modelo da ação
Modelos Modelagem Ação da modelagem
Representação parcial de um objeto, um evento, uma ideia entre várias possíveis, construída e validada pela ciência com a finalidade de visualizar o objeto ou um de seus aspectos, favorecer o entendimento, explicar, prever e elaborar novas ideias, passível de modificações.
É o processo contínuo e dinâmico de criar, testar, validar e comunicar modelos científicos no contexto da comunidade cientifica. • Definir os objetivos segundo a situação- problema. • Precisar o objeto e suas características. • Construir um modelo mental provisório. • Representar o modelo provisório. • Testar o modelo provisório. • Definir o modelo científico. • Comunicar o modelo científico. Fonte: da pesquisa, 2017.
Dessa forma, foi feita uma abordagem acerca dos fundamentos da teoria da formação planejada por etapas das ações mentais e dos conceitos de P. Ya. Galperin, como estratégia para a formação de habilidades; nesse caso, com destaque no papel da orientação para investigar os conhecimentos que terão os licenciandos em Química, sobre os modelos e a modelagem científica no contexto escolar, visto que tais conceitos potencializam o conhecimento profissional e um melhor desempenho no ensino e na educação científica do estudante.
NA
Modelos e modelagem científica: considerações conceituais – traz o processo de constituição histórica do conceito de modelos e modelagem. Tem como intenção o
entendimento das ideias gerais e de seus nexos conceituais para contemplá-las na elaboração da proposta de organização de seu ensino.