2. CAPÍTULO REFERENCIAL TEÓRICO
2.2 CONCEITO DE FORMAÇÃO E O PAPEL DO ESTÁGIO
2.2.3 O estágio supervisionado identidade, saberes e a cultura da
O estágio supervisionado inaugura importante etapa na formação do futuro professor, sendo, inclusive, uma etapa decisiva na constituição da identidade profissional desse sujeito. O processo de construção identitária é muito complexo e envolve pelo menos quatro condições: a) uma primeira que diz respeito à relação do licenciando com o próprio fazer profissional (se tem prazer e alguma destreza com o ferramental da profissão); b) relação entre este sujeito e seus pares no ambiente do trabalho (colegas, alunos, dirigentes); c) relação entre o sujeito e a cultura organizacional (se esta organização apoia e incentiva as ações pedagógicas, por exemplo, isto vai se constituir em um fator de estímulo ou desestímulo na construção da identidade profissional); d) uma relação estabelecida entre o sujeito e o contexto social - em amplo espectro, trata-se de compreender a realidade social do entorno em que se inserem os professores - se é um contexto que valoriza a profissão docente ou que desvaloriza essa profissão, o que incide fortemente sobre a construção da identidade profissional. (D'ÁVILA e ABREU, 2014, p. 19).
Nesse aspecto, o estágio ocupa lugar privilegiado pois inicia o sujeito na cultura da profissão. A partir do momento em que o aluno se dirige à escola para o estágio de observação, ele já se envolve com a cultura organizacional e desencadeia um processo de identificação ou não com a profissão. É o lócus onde deve mobilizar os saberes da profissão, sobretudo os saberes pedagógicos e didáticos.
A construção e mobilização de saberes didático-pedagógicos é fundamental no processo de constituição das identidades. Saber planejar, estabelecer formas de mediação didática, saber avaliar, interagir com os alunos, gerir uma classe, fazem parte de um rol de saberes didáticos fundamentais à atuação no campo de estágio. A construção desses saberes dá-se no curso de formação inicial e a sua mobilização, no contexto da prática profissional. É lá que esses saberes serão reconstruídos, redirecionados, aperfeiçoados.
O autor que deslanchou os estudos sobre os saberes da docência e se tornou uma referência no mundo acadêmico foi Maurice Tardif (2002). Segundo este autor, a epistemologia da prática é a teoria que sustenta a ideia de que a prática profissional é um manancial onde se produzem os saberes da profissão, principalmente aqueles que representam a síntese de todos os saberes: os saberes da experiência. Esses saberes evoluem desde a formação inicial, na qual o estágio chega ao ápice.
É neste momento do estágio que o licenciando pode descobrir-se identificado com a profissão docente, e a identificação precede a constituição de uma identidade profissional – este sentimento de pertença que leva ao desenvolvimento de um perfil profissional singular, próprio, mas construído de modo relacional e contínuo ao longo da carreira.
O estágio curricular supervisionado significa um tempo/espaço privilegiado para o desenvolvimento de competências e saberes, assim como de constituição da identidade profissional docente. Estando presente nos cursos de formação de professores, desde seu início pode funcionar como um poderoso estímulo para o desenvolvimento profissional dos futuros professores.
O problema muitas vezes é a concepção e o espaço concedido à docência nos cursos de licenciatura. Muito impregnados do antigo modelo 3 + 1 (3 anos de formação inicial bacharelesca + um ano de formação pedagógica) a formação inicial nas licenciaturas, mesmo com as diretrizes curriculares de 20158, ainda persiste um modelo com forte acento na formação do bacharel. As disciplinas pedagógicas, principalmente, as atividades dos estágios (as 400 horas de estágio) só se apresentam a partir da segunda metade do curso, ou seja, do 5° semestre em diante. Esta visão instrumentalizadora ainda é muito presente nas licenciaturas, vigorando a ideia de estágio como aplicação de fundamentos estudados ao longo do curso. A carga horária do curso de licenciatura deve ser distribuída de modo a salvaguardar a dialética entre teoria e prática, não obstante toda a formação "prática pedagógica", se somadas as disciplinas e componentes curriculares, não chegam a um terço do currículo do curso, como pôde-se verificar da breve análise que apresentamos no começo deste tópico. Segundo a Resolução 02/2015, ainda em vigor, a carga horária dos cursos de licenciatura deve ser distribuída da seguinte maneira (Art. 13, P. 1°):
§ 1º Os cursos de que trata o caput terão, no mínimo, 3.200 (três mil e duzentas) horas de efetivo trabalho acadêmico, em cursos com duração de, no mínimo, 8 (oito) semestres ou 4 (quatro) anos, compreendendo: I - 400 (quatrocentas) horas de prática como componente
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Resolução n° 2 de 2015. Dispõe no seu Art. 1° Ficam instituídas, por meio da presente Resolução, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial e Continuada em Nível Superior de Profissionais do Magistério para a Educação Básica, definindo princípios, fundamentos, dinâmica formativa e procedimentos a serem observados nas políticas, na gestão e nos 3 programas e cursos de formação, bem como no planejamento, nos processos de avaliação e de regulação das instituições de educação que as ofertam.
curricular, distribuídas ao longo do processo formativo; II - 400 (quatrocentas) horas dedicadas ao estágio supervisionado, na área de formação e atuação na educação básica, contemplando também outras áreas específicas, se for o caso, conforme o projeto de curso da instituição; III - pelo menos 2.200 (duas mil e duzentas) horas dedicadas às atividades formativas estruturadas pelos núcleos definidos nos incisos I e II do artigo 12 desta Resolução, conforme o projeto de curso da instituição; IV - 200 (duzentas) horas de atividades teórico-práticas de aprofundamento em áreas específicas de interesse dos estudantes, conforme núcleo definido no inciso III do artigo 12 desta Resolução, por meio da iniciação científica, da iniciação à docência, da extensão e da monitoria, entre outras, consoante o projeto de curso da instituição.
A carga horária de prática que chama à atenção a Resolução n° 02 tem sido dedicada à prática das áreas específicas de cada curso, muito pouco ou nada se garante desta carga horária para as chamadas disciplinas pedagógicas. Ainda no Art. 13, o 6° parágrafo que trata do componente Estágio supervisionado:
§ 6º O estágio curricular supervisionado é componente obrigatório da organização curricular das licenciaturas, sendo uma atividade específica intrinsecamente articulada com a prática e com as demais atividades de trabalho acadêmico.
O Art. 12. traz à tona os núcleos (três núcleos) que constituirão os cursos de Licenciatura:
I - núcleo de estudos de formação geral, das áreas específicas e interdisciplinares, e do campo educacional, seus fundamentos e metodologias, e das diversas realidades educacionais;
II - núcleo de aprofundamento e diversificação de estudos das áreas de atuação profissional, incluindo os conteúdos específicos e pedagógicos, priorizadas pelo projeto pedagógico das instituições, em sintonia com os sistemas de ensino, que, atendendo às demandas sociais, oportunizará, entre outras possibilidades: a) investigações sobre processos educativos, organizacionais e de gestão na área educacional; b) avaliação, criação e uso de textos, materiais didáticos, procedimentos e processos de aprendizagem que contemplem a diversidade social e cultural da sociedade brasileira; c) pesquisa e estudo dos conhecimentos pedagógicos e fundamentos da educação, didáticas e práticas de ensino, teorias da educação, legislação educacional, políticas de financiamento, avaliação e currículo. d) Aplicação ao campo da educação de contribuições e conhecimentos, como o pedagógico, o filosófico, o histórico, o antropológico, o ambiental-ecológico, o psicológico, o linguístico, o sociológico, o político, o econômico, o cultural;
III - núcleo de estudos integradores para enriquecimento curricular, compreendendo a participação em: a) seminários e estudos curriculares, em projetos de iniciação científica, iniciação à docência, residência docente, monitoria e extensão, entre outros.
É o núcleo II o que, efetivamente, traz as áreas e conteúdos específicos e pedagógicos que devem ser prioridade do currículo. O núcleo III ressalta a iniciação à docência.
Essa resolução está em voga e os diversos cursos de licenciatura têm até o final de 2017 o tempo máximo necessário a sua adequação. A organização curricular é de responsabilidade dos institutos que oferecem os cursos de graduação, devendo-se obedecer as disposições elencadas pelas diretrizes. Os estágios supervisionados só poderão ser oferecidos depois da primeira metade do curso. O problema é que em muitos cursos de licenciatura, a exemplo do curso de Música que mostramos anteriormente, os componentes que perfazem o núcleo duro do currículo em suas matérias e disciplinas específicas não dialogam com as disciplinas pedagógicas. E estas últimas, em relação as primeiras, tem uma carga horária diminuta. São 12 num total de 45 disciplinas, o que consideramos muito pouco para a formação de professores.
A ótica academicista está também muito presente nos cursos de licenciatura (a ênfase em conteúdos abstratos e desconectados do contexto em que vai ensinar o licenciando). Nessa visão paira a ideia de que o que conta são os conteúdos a serem ensinados. Este é o problema da maioria das disciplinas técnicas ou específicas de campos disciplinares do currículo. No caso de Música são as disciplinas voltadas ao estudo de Instrumentos, de Composição, de Arranjos, de Apreciação musical, de Práticas e Seminários musicais que não dialogam com a formação pedagógica. A concepção epistemológica dentro dessa perspectiva está voltada à ideia de que o conhecimento é algo pronto, são informações a serem consumidas pelos alunos. Nos momentos de estágio, como esses conteúdos não foram estudados, tomando como escopo a realidade escolar do ensino fundamental ou médio, muitos estudantes sofrem um choque e se desestimulam com a docência, muitas vezes abandonando o objetivo de tornar-se professor ou professora.
De acordo com Pimenta e Lima (2004), o estágio não deve obedecer à lógica pragmatista – apoiada nas técnicas e no como fazer – nem academicista - apoiada sobre a transmissão de conteúdos dos campos disciplinares específicos e desconectados da realidade escolar da educação básica. Como referem as autoras citadas, acredita-se que o estágio deva oportunizar a elaboração de pesquisas sobre o próprio desempenho dos estudantes. Estágio com pesquisa, é o que propõem as autoras e concordamos com isso.
No que se refere ao objeto desta tese, nos deparamos com o problema da falta de estudos específicos sobre linguagem tão presente e marcante na infância - a linguagem lúdica: seus artefatos, sua cultura. Muito embora os licenciandos tenham aprendidos jogos e brincadeiras a serem trabalhados no estágio, a ótica instrumentalizadora ainda é muito forte na fala e na prática dos sujeitos.
O olhar apurado sobre o desempenho no estágio e sobre o contexto da escola, seu cotidiano e sua cultura, foi expediente de nossa pesquisa. Mas percebemos o quanto o estágio deva integrar, desde o início do curso, o corpo de conhecimentos do curso de formação de professores. Acredita-se fundamental, também, possibilitar um maior intercâmbio os institutos de formação específica e a faculdade de educação, assim como entre universidades e escolas-campo, desenvolvendo-se projetos em parceria, formação dos futuros professores e formação continuada dos professores das escolas básica.
No próximo capítulo adentraremos nas questões das práticas observadas no campo empírico, buscando subsídios para responder as nossas questões orientadoras e objetivos de pesquisa.