1 REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA, NEOLIBERALISMO E PÓS-MODERNIDADE: O
1.1 O ESTABELECIMENTO DA HEGEMONIA CAPITALISTA
A história da passagem de um modo de produção para outro é sempre longa, heterogênea, cheia de percalços, lutas de interesses diversos e divergentes. As limitações do presente trabalho não comportam o detalhamento da estruturação do capitalismo, processo este bem registrado de maneira bastante minuciosa e crítica em diversas obras, especialmente nos escritos marxistas em O Capital (1980), na obra de Michel Beaud (1987), História do Capitalismo, e nos escritos de Eric Hobsbawm, voltados à compreensão crítica do sistema capitalista10. Contudo, uma passagem mesmo que muito breve por esses caminhos, se mostra imprescindível.
O advento do capitalismo conduziu a mudanças significativas nas relações do homem com o mundo. Da lenta passagem do feudalismo medieval à consolidação das relações de produção capitalistas modernas (já iniciadas no interior das relações feudais), observou-se uma gradual transformação de diversos aspectos econômicos e sociais. A produção material estática, destinada à autossuficiência e hierarquicamente organizada, sem possibilidade de mobilidade de classe, se desenvolve na forma de produção em alta escala, com o objetivo primeiro de gerar lucro, ou seja, gerar mais valor por meio da extração da mais valia. O homem, antes preso em determinada classe social, passa a ser
10 Principalmente em A era das revoluções - 1789-1848 (2009), A era do capital - 1848-1875 (2009), A era dos impérios - 1875-1914 (2009) e A era dos extremos - O breve século XX: 1914-1991 (2008).
dito livre para conquistar melhores condições de vida, por meio da venda de sua força de trabalho. Enquanto poucos elementos da sociedade feudalista gozavam de liberdade, hoje se convive com uma imagem generalizada de homem autônomo. (FIGUEIREDO; SANTI, 2000). O privilégio, que antes vinha do nascimento, foi substituído pelo privilégio do dinheiro, da propriedade dos meios de produção, acompanhado da ideia de que todos podem possuí-los, dependendo apenas de seus esforços. O antropocentrismo moderno coloca o teocentrismo medieval em segundo plano; o homem é o novo centro de interesse. Abrem-se os caminhos para o desenvolvimento da ciência, com apoio no pensamento iluminista, que reforça a ideia da universalidade da razão como fonte de conhecimento do mundo, ao invés da contemplação.
Foi ainda no período feudal que se iniciou a acumulação de riquezas, a troca de dinheiro por maiores quantidades de dinheiro, ao invés da simples troca de mercadorias.
Nesta primeira fase (entre os séculos XIII e XIV), ainda pré-capitalista, a produção material era artesanal, sendo os artesãos donos dos meios de produção. Mas parte do lucro deste artesão já ficava com comerciantes “atravessadores”, que negociavam as mercadorias.
Desenvolveu-se nessa época uma nova classe social, pioneira nas negociações visando lucro: a burguesia, tipicamente comerciante.
A burguesia se fortaleceu com o enriquecimento das nações, por meio das conquistas de territórios, saques e lucros do período mercantilista (séculos XVI e XVII), momento das grandes navegações europeias, colonização e comércio entre continentes.
Contudo, até o momento da ascensão capitalista movida pela Revolução Industrial no século XVIII, o presente modo de produção coexistiu com a organização feudal. (BEAUD, 1987).
A Revolução Industrial é, portanto, considerada como o momento de consolidação do capitalismo, pela aplicação do capital nas fábricas. Até então, o trabalho havia sido sempre manufatureiro, e usualmente todo seu processo, da obtenção de matéria-prima à comercialização, era conhecido e dominado pelos trabalhadores. Mas quando desapropriados dos meios de produção, obrigaram-se a vender sua força de trabalho em
troca de dinheiro. Inicialmente, ocorreu apenas uma mudança quantitativa em relação à manufatura, ou seja, a produção passou a dar-se em grandes oficinas, com mais trabalhadores produzindo uma mesma mercadoria, só que em maior escala, sob o comando de um mesmo capitalista. Com isso aumentava-se a força produtiva por meio da cooperação entre os trabalhadores. Gradativamente, com o desenvolvimento de ferramentas e máquinas mais avançadas, permitido pela criação do motor a vapor inicialmente, e depois com o advento da energia elétrica, o modo de produção mudou. Com as máquinas substituindo as mãos humanas e com a divisão do trabalho em pequenas operações, aumentou-se a exploração do trabalho humano, a produção e, consequentemente, os lucros. Portanto, a manufatura e o trabalho domiciliar sofreram a transição para o domínio do sistema fabril.
(MARX, 1980).
Este movimento de industrialização iniciou-se na Inglaterra, cuja burguesia tinha o capital necessário para o maquinário, matéria-prima e pagamento dos trabalhadores, além de seu contingente de mão-de-obra, concentrado a partir de então na zona urbana. Mas com rapidez, espalhou-se pela Europa, Estados Unidos e Japão, finalizando sua expansão no século XX. (BEAUD, 1987). Apesar de cada país ter seu ritmo econômico e determinadas condições sociais, pode-se afirmar que mesmo que presente em culturas diferentes, o capitalismo não se descaracteriza.
As mudanças que o capitalismo trouxe para a produção mudaram também as relações sociais. As ideias feudais de lucro como sinônimo de pecado (para quem não pertencesse ao clero ou a nobreza) e de pertença social por determinação divina não poderiam mais explicar a realidade. Com as indústrias crescentes e o aumento de poder da burguesia, reis e deuses tornaram-se dispensáveis. Abriu-se espaço para um novo período.
Nessa era moderna, de estabelecimento capitalista, incidiu o desenvolvimento das cidades, da produção industrializada, da comunicação, e, juntamente a isto, do homem moderno. Este se constitui sob uma nova ideologia. A ascensão burguesa não poderia ser explicada à maneira feudal, que não considerava a possibilidade da mobilidade social. Ela se tornou possível de ser elucidada devido à divulgação de ideias liberais, defensoras da
igualdade e liberdade humanas. Os homens seriam, supostamente, livres e iguais, capazes de buscarem sua promoção social e financeira. Essas ideias liberais, impossibilitadas na Idade Média, que sustentam o estabelecimento do capitalismo, permitindo a noção de liberdade e igualdade necessária para legitimar o domínio burguês11.
O liberalismo apontou durante a Revolução Francesa (fim do século XVIII), como oposição ao absolutismo, em que os indivíduos eram totalmente subordinados ao Estado, subordinação esta não mais cabível em tempos de formação de uma nova classe social, até então revolucionária. Funcionou como ideologia de suporte ao capitalismo durante um longo período de prosperidade, marcada por décadas de intenso crescimento econômico e pelos primeiros sinais de internacionalização dos mercados entre os séculos XVIII e XIX. Mas no início do século XX, tanto a prosperidade capitalista quanto o sucesso da ideologia liberal entraram em crise.
Hobsbawm (2008) denomina o período de 1914 a 1945 de “Era da Catástrofe”, marcada por guerras, com destaque às duas Grandes Guerras, e crise econômica, como na Grande Depressão de 1929. Neste momento, as crenças na liberdade e igualdade são abaladas. Desconfia-se da ideia de progresso, frente a uma realidade que mostra o oposto.
Este não é um período de guerras entre nações, apenas, mas também de guerras civis, revoluções e movimentos do proletariado contra a burguesia. É a crise do liberalismo e a primeira grande crise do capitalismo.
Na tentativa de superar a crise, o chamado keynesianismo, ou a proposta de Estado do bem-estar social, trouxe como estratégia a intervenção estatal massiva na economia, visando à reorganização capitalista. Época de pleno emprego, bons salários, proteção dos direitos trabalhistas e investimento em seguridade social, resultou de acordo entre países ocidentais de direita e esquerda, visando evitar que reivindicações trabalhistas e baixa circulação de mercadorias afetassem a obtenção de lucro nas empresas. (HOBSBAWM, 2008). É a “Era de Ouro”, segundo o mesmo autor, que se estendeu do final da Segunda
11 O liberalismo suporta, contraditoriamente, o estabelecimento de um modo de produção que necessita da desigualdade para existir: de um lado, os donos dos meios de produção, de outro, homens desapropriados desses meios, obrigados, portanto, a vender sua mão-de-obra.
Guerra Mundial até a década de 70 do século XX, com crescimento contínuo do capital e da industrialização. Contudo, uma nova crise econômica, ainda mais ameaçadora que a da década de 30, mais uma vez travou o desenvolvimento e caracterizou a transição dos anos dourados para o que Hobsbawm (2008) vai chamar de “Desmoronamento” 12.
1.2 REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA DO CAPITAL: O ADVENTO DO MODELO