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O estabelecimento do modelo definitivo e a conjuntura de 1524

Capítulo II: A origem das vias de sucessão no Estado da Índia

II. 4. O estabelecimento do modelo definitivo e a conjuntura de 1524

Chegando a Chaúl em Setembro de 1524, D. Vasco da Gama assumiu de imediato o título de vice-rei, como estava estipulado no seu regimento174. Acto contíguo, logo começou a entender em assuntos de governo sem D. Duarte de Meneses lhe ter ainda entregue o poder oficialmente, mudando, por exemplo, o capitão de Chaúl175.

No entanto, Gama adoeceu muito rapidamente, delegando os seus poderes em Lopo Vaz de Sampaio, Capitão de Cochim, e em Afonso Mexia, vedor da fazenda, à medida que piorava176, pedindo-lhes que “ (...) falecendo elle, e aberta’ socessão, o

Gouernador que n’ella achassem tudo em suas mãos entregassem (...) ”177.

Ao que sabemos, a existência das vias de sucessão nunca foi tornada pública até à própria cerimónia de aberta das mesmas, onde Lopo Vaz de Sampaio informou os presentes deste facto178. Neste sentido, apenas, possivelmente, este fidalgo, Afonso Mexia

e D. Estevão da Gama (quem, segundo Francisco de Andrada, tinha as vias em sua posse179) saberiam da existência das mesmas. Deste modo, D. Duarte, que ainda não tinha entregado formalmente o poder ao vice-rei, mostrou-se sempre resistente em fazê-lo, uma vez que, na sua óptica, era nas mãos dele que o poder deveria continuar caso Gama falecesse.180.

de Albergaria. O rei acrescentava ainda que caso o governador tivesse falecido, Albuquerque deveria ocupar o seu lugar. Cf. CAA, Tomo III, pp. 238-241.

174 Cf. Sanjay Subrahmanyam, Op. Cit., p. 364.

175 Cf. João Paulo Oliveira e Costa & Vítor Luís Gaspar Rodrigues, Op. Cit., p. 185. 176 Cf. Sanjay Subrahmanyam, Op. Cit., pp. 373, 384-385.

177 Cf. Lendas, Tomo II, parte II, pp. 844-845. 178 Cf. Lendas, Tomo II, parte II, pp. 846-847. 179 Cf. Crónica de D. João III, IV, lxiv e lxv.

180 Cf.História, VI, lxxvii; João de Barros, Ásia, III, ix, 2; Lendas, Tomo II, parte II, pp. 843-844; Crónica de D. João III, I, lxiii.

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D. Duarte de Meneses não era o único a pensar deste modo. Também o seu irmão D. Luís de Meneses181 defendia a mesma tese, contra D. Estevão da Gama, filho do vice-

rei e capitão-mor do mar da Índia. Castanheda ilustrou bem este disputa no seio da nobreza portuguesa presente na Índia, afirmando que “sobreisto auia ajuntamĕntos & persias, a que Lopo vaz de sam payo [sic] acodia corrĕndo a cidade de dia, & de noyte: & impedia não auer brigas.”182.

Cremos, pois, que o sistema das vias de sucessão era realmente novo em 1524, não sendo do conhecimento da nobreza portuguesa no território, o que causou estas pequenas quezílias, até à morte do vice-rei, uma vez que D. Duarte e os seus partidários não compreendiam por que motivo o vice-rei, e os seus apoiantes, continuavam a insistir que o poder lhe fosse entregue. Na sua perspectiva, não deveriam fazê-lo, pois o vice-rei encontrava-se cada vez pior e, caso falecesse, o poder deveria continuar nas mãos do governador cessante, pelo que este não o deveria estar a entregar.

D. Duarte de Meneses acabou por entregar oficialmente o poder a Gama183 apenas a 4 de Dezembro, vinte dias antes de este falecer. Esta atitude de D. Duarte, e dos seus apoiantes, leva-nos a considerar que, de facto, segundo as ordens anteriores de D. Manuel I, a sucessão deveria ser assegurada, em primeiro lugar, pelo antigo governador ou, caso já tivesse falecido, por alguém nomeado pelo mesmo. Não tendo ainda conhecimento do sistema das vias de sucessão, D. Duarte de Meneses parecia estar à espera que se aplicasse o sistema previsto pelo rei em 1515. Acreditamos, pois, poder concluir que em uma fase muito precoce do Estado Português da Índia – pelo menos durante o governo de Afonso de Albuquerque - os governadores tinham poder para nomear o seu sucessor, caso julgassem que iriam morrer.

Neste, como noutros assuntos relacionados com o modelo de organização política do Estado Português da Índia184, percebe-se que o rei não estabeleceu soluções definitivas logo à partida, antes foi adaptando as suas decisões face à evolução das circunstâncias e das conjunturas. O Estado da Índia herdado por D. João III constituía uma grande e

181 D. Luís considerava, inclusivamente, que, terminado o triénio do seu irmão, o cargo de governador deveria ter sido ocupado por ele próprio e não concedido a D. Vasco da Gama, escrevendo ao rei que “ (...) se agraua muyto dos agrauos que lhe fez o Viso Rey e muyto mais de Vosa alteza não lhe mandar ha gouvernança da India (...) ”. Cf. “Sumário das cartas que vieram da Índia e respostas que tiveram”, s.l., s.d., ANTT, Colecção de cartas, N. A. 875, fl. 23V.

182 Cf.História, VI, lxxv.

183 Nas mãos de Sampaio, em quem Gama tinha delegado temporariamente o seu poder até melhorar ou até falecer e ser aberta a primeira sucessão. Cf.História, VI, lxxvii.

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complexa entidade, dotado de lógicas de funcionamento assaz consolidadas. Terá sido a fim de reforçar a estabilidade da respectiva estrutura de governo que D. João III se decidiu a introduzir um novo modelo – as vias de sucessão – significando isto não uma novidade absoluta, mas a recuperação de uma preocupação manuelina e uma adaptação das fórmulas antes ensaiadas. A nomeação de mais do que um possível sucessor, dever-se-ia à percepção de que, ao nomear só uma pessoa, caso esta voltasse para o reino ou falecesse, o problema persistiria, enquanto o secretismo do sistema, impedindo a divulgação prévia das escolhas para o cargo, acautelaria o choque entre facções nobiliárquicas. Foi neste sentido que se entregaram a Gama três alvarás de sucessão que só deveriam ser abertos, pela ordem constante nos seus envelopes, caso o mesmo falecesse.

Segundo Francisco de Andrada, o rei tomou esta decisão, uma vez que não queria que, caso o vice-rei falecesse, a sucessão do mesmo ficasse nas mãos dos nobres presentes na Índia, uma vez que as suas redes familiares e clientelares – os “bandos”, nas palavras de Andrada – fariam com que não se entendessem sobre qual deveria ser o sucessor185. Assim, o rei terá iniciado o sistema das vias de sucessão que “ (...) não tinha mais efeito que querer Sua Alteza que aquele lugar [de governador], não estivesse vago, pela distância que há (...) ”186.