O NASCIMENTO DIVINO DE HATCHEPSUT: ELEMENTOS DE UM MITO POLÍTICO
Cena 15: O estabelecimento do tempo de vida da criança pelos deuses 81
A cena 15 está claramente dividida: à esquerda, Khnum, o deus com cabeça de carneiro, é seguido por Anúbis que rebola/ empurra um disco. Khnum participa provavelmente nesta cena pela sua relação com a Casa da Vida. Na inscrição, ele é chamado «O primeiro da Casa da Vida». Sechat está do lado oposto da cena e atrás dela surge um deus-assistente desco- nhecido.
O disco empurrado por Anúbis é interpretado como sendo o disco lunar, a Lua cheia, símbolo cósmico do renascimento e da imortalidade e sím- bolo da contagem dos meses da criança in utero ou como número infinito de meses de existência82. O próprio Anúbis, como deus funerário, tem um conhecido simbolismo lunar e daí que seja ele a divindade convocada para esta acção.
O texto associado à parte esquerda de cena refere:
«Anúbis, aquele que está na sua montanha, aquele que preside ao embalsama- mento, o Senhor da necrópole, dá toda a vida, saúde, alegria, anos, alimentos, libações, todas as planícies e todas as mon-tanhas, todos os povos, os habitantes das ilhas, os Heliopolitanos, os Nobres, que ela realize milhões de numerosas 81 Cf. Ibid., Plate LV.
festas-sed83, que ela se erga no trono de Hórus, que ela conduza todos os vivos, como Ré!»
A área central da cena é formada por dois grupos duplos, num total de 6 divindades, representados um sobre o outro: o de baixo tem um céu estrelado por cima. Em ambos os registos, estão sentadas duas divindades do lado esquerdo, que seguram duas crianças (Hatchepsut e o seu ka). No registo superior, as crianças estão acocoradas; no registo inferior estão de pé, como se pode observar melhor na cena similar de Luxor (Fig. 14).
Fig. 14. Cena similar da Teogamia de Amenhotep III, em Luxor, onde se observa melhor a posição do faraó e do seu ka.
Em ambos os registos de Deir el-Bahari, à direita, em frente das crian- ças, está uma figura ajoelhada; na cena superior é uma figura masculina que surge ajoelhada (deus-Nilo? O mesmo da Cena 13?), pronta a proceder à «circuncisão»; na de baixo, é uma figura feminina desconhecida.
Todas as figuras e inscrições foram destruídas. O restaurador preferiu restaurar as figuras dos deuses, sendo que as crianças só são reconhecíveis pelos contornos de figuras destruídas. No entanto, em ambas as versões (Deir el-Bahari e Luxor) o significado desta cena não é já reconhecível.
À direita, Sechat, prazenteiramente, com o seu típico emblema sobre a cabeça (estrela de sete pontas e arco recortado), de cálamo em punho e paramentada a rigor com a pele de leopardo como «Arquivista divina», apresta-se a registar os numerosos anos de reinado atribuídos a Hatchepsut e «fecha» assim a cena e o ciclo.
No Egipto, Hatchepsut foi o primeiro soberano a decidir solenemente representar nas paredes de um templo a sequência das cenas do nascimento 83 A festa-sed está essencialmente liga à função vivificante do rei. Hatchepsut celebrou a sua festa-sed no ano 15 do seu reinado (Cf. Ibid., III, Plates LXV e LXVI; S. Ratié, Ob. Cit., p. 200).
divino. A ênfase foi colocada na teogamia e na procriação carnal que faz dela uma «filha do corpo de Amon». A colocação das cenas num lugar importante do templo de Deir el-Bahari, as directas ou indirectas alusões à tradição literário-política anterior e os ecos futuros alcançados por esta construção ideológica84, conferem um excepcional valor à ficção política então formulada.
Partidários e coadjuvantes
O exercício do poder egípcio pelo «rei-rainha», como lhe chamava Champollion, não teria, todavia, sido possível sem a ajuda de uma série de competentes e grados oficiais da administração egípcia, onde se destacam, pelo apoio às suas pretensões, o vizir Ahmés (que ocupou o vizirato no Alto Egipto), Djehuti (o encarregado dos fornecimentos de metais para as grandes construções de Karnak e de Deir el-Bahari, bem como da pesagem e medida dos produtos trazidos pelas expedições comerciais, com o TT 110), Senemiah (entre muitos outros títulos e ocupações, «escriba real e
das contas, intendente do domínio de Montu em Hermontis, escriba das contas do gado de Amon, chanceler do reino do Baixo Egipto, intendente do tesouro»), Hapuseneb («Primeiro profeta Amon», ou seja, sumo sacer-
dote, e «Tesoureiro real», supervisor de muitos dos projectos de constru- ção do reinado de Hatchepsut85) e Senenmut («Segundo Profeta de Amon» e genial arquitecto oriundo de uma família de modestas origens de Armant (antiga Iuni)86, dotado de inúmeros títulos honoríficos como «Amigo úni-
co, Intendente da casa de Amon, dos seus jardins, servidores e domínios», «Intendente dos rebanhos de Amon», «Director dos celeiros», «Director dos campos», «Servidor da barca Userhat de Amon», «Servidor de Montu em Hermontis», «Sacerdote da deusa Maet», «Director dos domínios pes-
84 Sobre a presença do nascimento divino nos mammisi ptolomaicos de Filae, Dendera, Kom Ombo, Edfu e Armant e sobre as suas reminiscências tardias (lenda de Alexandre Magno, mistérios helenísticos e medievais), vide Ibid., pp. 106-108.
85 Hapuseneb possuía ainda os significativos títulos de: «Amigo Único, Grande Compa- nheiro, Amado Carregador do Selo Real, Confidente do Rei na Terra Inteira, Governador do Sul, Vizir e Director de todos os Trabalhos do Rei, Primeiro Pai Divino, Chefe dos Profetas do Alto e do Baixo Egipto, Chefe dos Templos, Sacerdote-sem de Heliópolis». Chegaram-nos várias estátuas que testemunham a sua aparência física (Cf. Ibid, p. 273). 86 Os pais de Senenmut parecem, porém, ter caído nos favores da Corte. O seu pai cha- mava-se Ramosis. A sua mãe, Hatnefer, chamada Tiatia, esteve provavelmente ao serviço da Esposa Real de Tutmés I, Ahmés, a mãe de Hatchepsut (Cf. Ibid., pp. 64, 243, 244). Senenmut tinha como irmãos Amenemhat, Minhotep e Pairi, além de duas irmãs: Ah- hotep e Nofret-Hor (Cf. J. Tyldesley, Ob. Cit., p. 181).
soais da família real», «Intendente da Dupla Casa do Ouro e da Prata»,
«Director de todos os trabalhos do rei»)87. A partir do ano 5, destaca-se também o vizir Useramon (filho de Ahmés)88.
Devido à sua competência técnica, Senenmut, o mais representativo dos fiéis cortesãos, ficaria associado justamente à construção, a partir do 8º ano de reinado da faraó, isto é, logo depois da sua coroação, do «templo dos milhões de anos» de Hatchepsut, em Deir el-Bahari, um hemi-speos, dedicado a Amon, construído em calcário e desenvolvido em três terraços precedidos por colunatas, significativamente conhecido, como referimos atrás, como Dsr Dsrw, djeser djseru, «o sublime dos sublimes»89, e ao transporte e levantamento do primeiro par de obeliscos de granito rosa de Assuão da rainha-faraó no templo de Karnak, talvez para a festa da coroa- ção, de que hoje apenas restam escassos fragmentos90.
Senenmut foi, sem dúvida, um poderosíssimo personagem da corte de Hatchepsut. É, aliás, admitido que Senenmut gozou de uma relação de in- timidade com a faraó que transcendia as meras relações oficiais... Embora as provas desta «proximidade» sejam escassas e frágeis, Pascal Vernus e Jean Yoyotte são explícitos: ele «fut le favori et peut-être l’amant» de 87 Cf. J. C. Sales, A ideologia real acádica e egípcia, pp. 186, 187.
88 Entre os partidários e coadjuvantes de Hatchepsut podem ainda arrolar-se: Amen- hotep, Governador da Casa Grande; Antef, o governador dos oásis; Nebunai, sumo-sacer- dote de Abidos; Nakhtmin, intendente dos celeiros; Minmose, Turi, Puiemré, Tuty, Uadj- -renput, Djehuti-Renput e Inebseni (Cf. C.Desroches-Noblecourt, Ob. Cit., pp. 180, 181). A lista praticamente completa dos cortesãos de Hatchepsut pode ser consultada, com uma rica descrição dos seus títulos civis e religiosos, das suas ocupações socio-administrativas e das suas relações familiares, em S. Ratié, Ob. Cit., capítulos XIX – XXI, pp. 243-289. 89 Ao lado de Senenmut participaram na edificação de Deir el-Bahari numerosos arqui- tectos e altos funcionários: Tuty e Puiemré, os directores dos trabalhos Hapuseneb, Nehe- si, Minmose, Uadjrenput, Pahekamon, Nebamon, Amenemhat, Peniaty e Duauineheh (Cf. C. Desroches-Noblecourt, Ob. Cit., p. 187; S. Ratié, Ob. Cit., p. 165).
90 Este par de obeliscos é figurado em relevos pintados do templo funerário de Deir el-Bahari, quando Hatchepsut já era faraó e devem, por isso, ser datados do início do seu reinado. Por estes relevos de Deir el-Bahari sabe-se que para transportar os obeliscos de Assuão para Karnak foi por Senenmut usada uma gigantesca embarcação de madeira de sicómoro com 90 metros, puxada por 27 barcos e 864 remadores (Cf. E. Naville, Ob. Cit., VI, Plates CLIII-CLVI). Os outros dois obeliscos de Hatchepsut, em Karnak, cujo granito proveio da ilha de Sehel, em Assuão, foram erguidos por Amenhotep (TT 73), no ano 15, por ocasião do festival-sedque a faraó celebrou. Como referimos, destes, ainda se encontra de pé um, entre o IV e o V pilones de Karnak, com 29,56 metros de altura e cerca de 323 toneladas de peso. A parte superior do outro jaz tombada, junto do ângulo noroeste do lago sagrado de Karnak. Este par de obeliscos aparece representado no TT 73 (Cf. Labib Habachi, The obelisks of Egypt. Skycrapers of the past, Cairo, American University in Cairo Press, 1988, pp. 60, 61, 67-70. Vide também Miriam Lichteim, An- cient Egyptian Literature. A book of readings. Volume II. The New Kingdom, Berkeley/ Los Angeles/ London, University of Califronia Press, 1976, pp. 25-29, e C. Lalouette, Ob. Cit., pp. 27-30; 279, 280).
Hatchepsut91. Também Christiane Desroches-Noblecourt aceita que ele foi «probablement son amant!»92. Já Nicolas Grimal parece rejeitar tal ideia, quando escreve : «Les mauvaises langues suggéraient déjà à son époque qu’il devait sa faveur aux relations intimes qu’il entretenait avec la reine. En réalité, il semble que son audience venait du rôle qu’il joua dans l’édu- cation de la fille unique d’Hatchepsout, Néférourê (…)»93
Sobre a «proximidade» das relações entre Hatchepsut e Senenmut, que, entre outras distinções, como enfatiza Nicolas Grimal, se associava tam- bém estreitamente à família real, como preceptor/ tutor de Neferuré (filha de Tutmés II e de Hatchepsut)94 e como responsável pelos paramentos e insígnias da rainha-faraó, Christiane Desroches-Noblecourt diz-nos: «il apparut comme le second personnage du pays. Sa fidélité semble avoir été totale. Attaché à toutes ses réalisations, il lui témoigna visiblement un respect et une quasi-dévotion»95.
Figs. 15-18. Várias estátuas mostrando Senenmut como tutor de Neferuré.
91 Pascal Vernus, Jean Yoyotte, «Senenmout» in Les pharaons, Paris, MA Editions, 1988, p. 135.
92 C. Desroches-Noblecourt, La femme au temps des pharaons, p. 164. Christiane Des- roches-Noblecourt sugere mesmo que Hatchepsut teria tido um filho com o seu dignitário, de nome Maiherpré, «flabelífero à direita do rei», mas nenhum índice sério sustenta esta hipótese (Cf. Christiane Desroches-Noblecourt, Hatshepsout. La reine mystérieuse: Pa- ris, Flammarion, 2008, pp. 176-178).
93 N. Grimal, Ob. Cit., p. 252.
94 Das 25 estátuas conhecidas de Senenemut, 9 mostram-no na companhia de Neferuré, como «Pai dos Alimentos» da princesa.
Fig. 19. Óstracon representando Senenmut. The Metropolitan Museum of Art de New York.
Roger Fund, 1936 (36.3.252).
Fig. 20. Dupla representação de Senenmut com traços que alguns autores (ex.: Christiane Desroches-Noblecourt) associam aos Núbios do Sul. The Metropolitan Museum of Art de New York. Doação Anónima, 1931 (31.4.2).
É claro que Hatchepsut só pôde alcançar o desiderato real porque bene- ficiou do decisivo apoio destes importantes dignitários, alguns deles mem- bros do alto clero de Amon, uma verdadeira potência económica, adminis- trativa e ideológica na sua época. Como dizia Sir Alan Gardiner: «It is not to be imagined (...) that even a woman of the most virile character could have attained such a pinnacle of power without masculine support»96.
Foi com a empenhada ajuda e com o aval destes altos funcionários de uma sociedade altamente conservadora e dominada por homens que a rai- nha e depois faraó desenvolveu a consistente teoria política do seu nasci-
mento divino que, para justificar a sua pretensão ao trono real, fazia dela uma filha carnal – e não meramente espiritual – do grande deus do Império Novo, Amon, concebida de forma milagrosa.
Não obstante a ficção política e o facto de não se conhecerem grandes conquistas ou acontecimentos político-miliatres durante o seu reinado97, o período em que Hatchepsut esteve politicamente à frente do Egipto foi próspero e pacífico e destacou-se por extraordinárias proezas, designada- mente no campo das relações comerciais e da exploração mineira (sobretu- do no Sinai, no Uadi Maghara e em Serabit el-Khadim)98. A rainha enviou numerosas expedições ao exterior (África e Arábia) em busca de matérias- -primas e produtos exóticos99.
A mais célebre das suas expedições comerciais, sob o comando de Nehesi (sem dúvida, um núbio100), o portador do selo real, dirigiu-se, no ano 9 do seu reinado, ao chamado «país de Punt» (provavelmente a Somá- lia ocidental ou Djibuti101). Foi o mais espectacular acontecimento do seu reinado.
Dentro da mundividência da época e do aproveitamento político que a faraó podia dela retirar, a expedição ao Punt do ano 9 é apresentada como sendo uma «decisão económica» do próprio deus Amon, que a faraó, como executora da vontade e ordem divina, assumiu como missão:
«Assim disse Amon, o Senhor dos Tronos das Duas Terras: «Vem, vem em paz minha filha, graciosa, que estás no meu coração, rei Maatkaré... Dar-te-ei o Punt, na sua totalidade... Guiarei os teus soldados por água e por terra, por costas misteriosas onde existem portos de incenso, territórios sagrados da terra divina, minha casa de prazer... Eles trarão tanto incenso quanto quiserem. Carregarão os seus navios para a satisfação dos seus corações com árvores de incenso verde [fresco] e com todas as coisas boas da terra”.»102
97 Em termos militares, conhecem-se apenas duas campanhas: uma na Núbia e outra na Siro-Palestina.
98 A partir do 13º ano do seu reinado, Hatchepsut reabriu a exploração das minas dos maciços montanhosos do Sinai, onde se extraiam cobre e pedras preciosas (turquesa, malaquite ou carbonato de cobre, feldspato verde, calcedónia).
99 Cf. S. Ratié, Ob. Cit., pp. 218-228.
100 Cf. C. Desroches-Noblecourt, Ob. Cit., p. 194.
101 O debate quanto à exacta localização do «país de Punt» não está fechado, e as hipóte- ses são variadas: Corno de África, Iémen, regiões limitrofes do mar Vermelho, não muito longe do Egipto, a sudeste. No entanto, a fauna e a flora representadas nos baixos-relevos parecem indicar um país africano, provavelmente situado na costa da Eritreia, entre as latitudes 17º e 12º N (Cf. J. Tyldesley, Ob. Cit., pp. 145, 149).
Nos relevos de Deir el-Bahari figuram igualmente baixos-relevos que mostram os 210 homens mobilizados para a empresa e os 5 navios egíp- cios de 30 remadores cada um nela envolvidos, carregados de mercado- rias trazidas deste centro comercial: resinas, gomas aromáticas, incenso (boswellia carterii), mirra (commiphora myrrha), canela, árvores raras, plumas de avestruz, peles de felinos, animais selvagens, ébano, marfim, ouro, electrum, etc.103
103 As expedições ao Punt haviam já marcado vários reinados do Império Médio (Mentu- hotep III, Senuseret I e Amenemhat II) e continuaram durante os reinados posteriores a Hatchepsut (Tutmés III e Amenhotep III).
Figs. 21-25. Relevos de Deir el-Bahari (Pórtico sudeste do segundo terraço):
Árvores de incenso e de mirra trazidas de Punt chegam ao Egipto no reinado de Hatchepsut (ano 9). Uma outra representação curiosa de Deir el-Bahari mostra precisamen- te a rainha de Punt, Eti, de volumosas formas (a rainha tem o aspecto de quem sofre de esteatopigia ou lipodistrofia, uma enfermidade que afecta- va algumas das populações africanas, acompanhada de lordose)104, o seu marido Perehu e numerosos servidores levando presentes à soberana do Egipto.
Fig. 26. Baixo-relevo do templo funerário de Hatchepsut em Deir el-Bahari, mostrando a rainha de Punt, Eti, e o seu marido Perehu.
104 Há alguns autores que classificam a obesidade anormal de Eti como uma afecção patológica, a Doença ou Sindrome de Dercum (ou Adiposis Dolorosa): uma doença meta- bólica associada à nutrição, que se caracteriza pela acumulação de tecido adiposo ao nível dos membros e do abdómen (Cf. S. Ratié, Ob. Cit., p. 152).
Hatchepsut morreu por volta de 1483 a.C., tendo o seu túmulo sido construído, sob orientação do vizir e sumo sacerdote de Amon Hapuseneb, no Vale dos Reis (KV 20), a uma profundidade de 97 m, seguindo um percurso semicircular ao longo de cerca de 124 m. O inusitado da situação (uma mulher enterrada como faraó no Vale destinado aos faraós masculi- nos egípcios) constituiu um sinal do êxito dos seus intentos.
Fig. 27. O túmulo de Hatchepsut no Vale dos Reis (KV 20).
À morte da sua tia e madrasta, Tutmés III, durante cerca de 22 anos afastado do poder105, sobe então, por fim, ao trono do Egipto, vindo a tor- nar-se, nos 33 anos de reinado que se seguiram, num dos maiores faraós da história egípcia, talvez mesmo o maior faraó do Império Novo.
Forças poderosas, eventualmente o sacerdócio de Amon em Karnak, Tebas — para quem, mais tarde, foi particularmente generoso —, acaba- ram por defender a sua ascensão ao trono a que tinha direito. Assim, se- gundo a inscrição esculpida no grande templo de Amon-Ré em Karnak, na sala situada a sul do santuário, parede exterior do muro ocidental, Tutmés, ainda um jovem e modesto sacerdote, foi escolhido oracularmente pelo próprio deus Amon, quando ainda reinava Tutmés II, no decurso duma procissão da estátua do deus na sala hipostila. Amon manda parar o prín- cipe e designa-o como rei do Egipto (reinado efectivo: 1483-1450 a.C.). Estamos perante uma legitimação da ascensão ao trono de um príncipe pela intervenção e favor divino. O relato mandado efectuar pelo próprio Tutmés III, cerca de 42 anos depois, visava agradecer a Amon de Tebas a sua miraculosa nomeação106.
105 A morte de Hatchepsut ocorre no ano 22 de Tutmés III. 106 Veja-se o texto por nós traduzido no final deste capítulo.
Para alguns egiptólogos, durante o reinado do «Napoleão da Antigui- dade», como lhe chamou a historiografia francesa, em alusão à sua intensa e vitoriosa acção militar de conquista e expansão imperial, ocorre uma operação de apagamento da memória de sua tia, verdadeira damnatio me-
moriae, que foi, talvez, a maior humilhação feita a Hatchepsut, cuja cartela
real foi sistematicamente apagada e cujo nome, em consequência, foi omi- tido das listas reais oficiais egípcias107, bem como dos túmulos de Cheikh Abd el-Gurna, Deir el-Medina ou Dra Abu el-Naga, por exemplo108. Mui- tas das suas imagens em baixos-relevos e em estátuas (suportes vivos do
ka, a emanação da força criativa através da qual o soberano exerce o seu
poder sobre o mundo) foram igualmente destruídas. Mesma sorte conhe- ceria o seu «amigo» Senenmut, cujas imagens e nome foram martelados e raspados dos seus monumentos109.
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Os baixos-relevos pintados do templo funerário de Hatchepsut, em Deir el-Bahari, são a mais antiga representação do tema da teogamia que, no futuro, outros faraós (Tutmés IV, em Karnak; Amenhotep III, em Luxor, e Ramsés II, no Ramesseum) recuperarão. Fazendo relegar para segundo plano o papel do verdadeiro pai de Hatchepsut, Aakheperkaré Tutmés I, a teogamia faz intervir materialmente o deus Amon como seu genitor.
Se bem que não seja no antigo Egipto o primeiro mito político a assu- mir estes contornos da filiação divina (o exemplo mais antigo, constante num dos contos do Papiro Westcar, actualmente no Museu de Berlim110, data do Império Médio/ XII Dinastia e aplica-se aos três primeiros reis da 107 A martelagem do nome de Hatchepsut foi, porém, parcial, ou seja, o que se apagou foram as referências concretas ao «faraó Hatchepsut», e não à regência ou à acção de Hatchepsut como rainha. O nome da faraó Hatchepsut não surge, de facto, na Tabela de Sakara, nas Listas de Abidos e do Ramesseum, nem no Papiro de Turim, nem na Câmara dos Antepassados de Karnak/ Paris, nem na Lista de Medinet Habu. Se a acção de «apa- gamento» da imagem e memória de Hatchepsut tivesse sido completa não teríamos tantas imagens dela. Além disso, as acções de apagamento são, por vezes, contraditórias e ambi- valentes: martelaram-se imagens e nomes em lugares invisíveis e obscuros e deixaram-se outros lugares visíveis e acessíveis sem qualquer intervenção.
108 Cf. S. Ratié, Ob. Cit., p. 12.
109 Desconhecem-se as circunstâncias precisas e a data exacta da morte de Senenmut e a sua múmia não foi encontrada. Sabe-se, todavia, que lhe foram estranhamente atribuídos