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Mapa 2 Expansão da Eucaliptocultura no estado da Bahia (1970-

2. ORIGEM E EXPANSÃO DO CAPITAL NO CAMPO BRASILEIRO:

2.2. O ESTADO BRASILEIRO E O FOMENTO AO SETOR FLORESTAL

Para se compreender como o capital que controla a eucaliptocultura se relaciona com o modelo econômico brasileiro, denominado por alguns autores de desenvolvimentismo, recorre-se às análises de Caio Prado Jr. (1970) e Florestan Fernandes (2005), nas quais estes autores convergem em relação ao caráter excludente que determinadas classes sociais impuseram na formação do capitalismo brasileiro. Caio Prado (1970) mostra que desde a invasão dos portugueses ao Brasil, toda riqueza extraída era para atender o mercado internacional. O papel do Brasil de país periférico na ordem política e econômica mundial condiciona a formação social e política brasileira. A exportação de cana-de-açúcar, café, mineração (ouro, diamante), borracha e outros produtos, não só na era Colonial, tem como “sentido” favorecer a acumulação de capitais nos países avançados, fornecendo-lhes produtos baratos, mas com alto potencial de agregação de valor. É no final do século XVIII que o sistema Colonial, em declínio, entra em crise, ocasionando uma mudança de personagens na condução política brasileira, mas não na sua estrutura de dominação, que tinha nos segmentos da oligarquia agrária emergente, o status de classe dominante.

É no período de 1950 até 1964, que o desenvolvimentismo se expressa de forma pujante, onde entra o Estado como provedor social, estimulando a industrialização. No entanto, os resquícios da era colonial dificultaram a implantação de uma indústria moderna, já presente em diversos países centrais da época. Configura-se o caráter do Estado brasileiro e sua articulação com o capital financeiro internacional e a continuação de uma economia nos moldes coloniais, e não nacional como alguns autores do pensamento econômico- desenvolvimentista insistiam em defender (CAIO PRADO, 1970).

Florestan Fernandes (2005) vai observar que, com o golpe de 1964, a burguesia e os aparelhos de repressão do Estado reprimem com violência as organizações populares e revolucionárias contrárias ao regime, e assim, encontra um ambiente livre para associar-se e ampliar sua aliança com o capital internacional. É no novo ciclo desenvolvimentista de regime autoritário que o Estado brasileiro assume e coloca em prática “a chamada modernização conservadora”, coordenando os projetos de desenvolvimento, ancorados no modelo de substituição de importações. Na formulação desse projeto, a teoria keynesiana encontra a sua expressão concreta: uma economia de complementação entre o Estado e o mercado. Para Goldenstein (1994), a classe dominante, na estrutura do Estado, fomentou um “novo” desenvolvimento nacional baseado no financiamento do capital estrangeiro. Portanto,

segundo a autora, este ciclo econômico do país foi basicamente financiado pelo capital internacional para satisfazer os projetos dos capitalistas no Brasil.

Já no início da década de 1980, com a crise econômica já instalada no país - devido, dentre vários fatores, às dívidas contraídas com o capital internacional -, que a agricultura “modernizada” passa a gerar saldos no comércio exterior, contribuindo para o cumprimento do superávit primário (DELGADO, 2010). Desde essa época, observa-se uma crise estrutural no modelo industrial brasileiro, fazendo com que o balanço de pagamentos do país mantivesse a dependência das exportações do setor primário.

A eucaliptocultura e as suas exportações respondem a essas necessidades decorrentes do endividamento externo, além de incidir diretamente no processo modernizador do campo estimulado pelas políticas estatais desde a década de 1960. Em meio à crise econômica e política de meados da década de 80, o fim da ditadura e a redemocratização, a resposta à crise veio com a adoção do paradigma neoliberal.

Chauí (2013, p.127) caracteriza o modelo neoliberal instaurado no Brasil na década de 1990 da seguinte forma:

Por sua vez, a ideologia neoliberal afirma que o espaço público deve ser encolhido ao mínimo enquanto o espaço privado dos interesses de mercado deve ser alargado, pois considera o mercado portador de racionalidade para o funcionamento da sociedade. Ela se consolidou no Brasil com o discurso da modernização, no qual modernidade significava apenas três coisas: enxugar o Estado (entenda-se: redução dos gastos públicos com os direitos sociais), importar tecnologias de ponta e gerir os interesses da finança nacional e internacional.

Filgueiras (2012) corrobora a visão de Chauí afirmando que esse processo reflete uma regressividade na economia brasileira, relacionado às políticas macroeconômicas implementadas desde a década de 1990.

Os preceitos neoliberais perduram até hoje. E uma de suas consequências mais negativas para o país está evidenciada no ambiente de contínua reprimarização da economia brasileira, conforme Oliveira (2010) e diversos outros autores vêm sustentando. Por trás desse processo pode se perceber a demanda externa dos países de capitalismo avançado, no qual três fatores contribuem decisivamente para este cenário: a) a entrada no país de grandes empresas estrangeiras ligadas ao agronegócio; b) a elevada concentração do setor, a partir de fusões e consórcios; c) um crescente aumento das exportações. Esses três fatores tiveram influência direta nas multinacionais ligadas ao agronegócio que, consequentemente,

obtiveram maior domínio de toda a cadeia produtiva, desde a produção até a comercialização, estimulando assim, o deslocamento de multinacionais para o Brasil, principalmente em meados da década de 1990, encontrando um campo propício para a reprodução ampliada deste segmento do capital agrícola nas terras “tupiniquins”.

Decorre desses fatores o crescimento das importações de alguns produtos essenciais à dieta alimentar dos brasileiros, a exemplo do trigo. Neste caso, vale destacar que somente as compras externas de trigo, em 2013, somaram US$2,5 bilhões, valor 380% maior que o total aplicado pelo crédito rural no financiamento dessa cultura, no ano de 2012, situação que continua em 2014.

O bom desempenho e crescimento da produção agropecuária brasileira, que passou de 83 milhões de toneladas, em 2000, para uma estimativa de 200 milhões de toneladas, em 2014, não evita que a economia nacional registre déficit nas transações correntes nos primeiros quatro meses do ano em curso, de mais de US$33 bilhões, o maior da série histórica do Banco Central. Assim como a balança comercial, no mesmo período, aponte resultado negativo de US$5,57 bilhões (ABRA, 2013). Esse crescimento de exportação do agronegócio brasileiro teve um estímulo a mais, a partir da edição da denominada Lei Kandir (Lei Complementar 87/96), que desonerou completamente os produtos exportados.

No caso dos plantios industriais de árvores, a reprodução ampliada desse segmento do capital no século XXI continua em ritmo crescente e com o apoio decisivo das agências públicas de crédito, que desde a década de 1970 foram sustentáculos da ampliação do setor. Entre os anos de 2006 e 2013, o BNDES investiu R$22.577.483.595 distribuídos para 11 empresas do setor de papel e celulose (GARZON, 2010 apud PERPETUA; THOMAZ JÚNIOR, 2014). Enquanto que entre 2003 e 2012, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), que tem como uma das finalidades, a comercialização de produtos da agricultura camponesa, direcionou para cerca de 1,5 milhões de camponeses o valor de R$2,8 bilhões (OLIVEIRA; PINHEIRO, 2015), ou seja, quase oito vezes menos do que foi destinado para 11 empresas do setor agroflorestal. Os números demonstram e expressam o caráter prioritário das políticas de Estado, quando se trata de direcionamento do orçamento público para atendimento à determinada classe.

Esses dados demonstram a pertinência da conceituação do caráter de classe do Estado sob a sociedade capitalista (LENIN, 2007). Concretamente, os segmentos controladores do capital vinculado à eucaliptocultura e à produção de celulose não arrebatariam tantos fundos públicos caso não possuíssem os requisitos políticos de controle das decisões da máquina

pública estatal quanto à definição dos segmentos agrícolas e agrários a serem privilegiados pelas políticas públicas.