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O Estado Capitalista e o campo da luta de classes

No documento raissacristinaarantes (páginas 47-50)

I CAPÍTULO: PODER POLÍTICO E CLASSES SOCIAIS

1.2.4 O Estado Capitalista e o campo da luta de classes

Como já observado, um estudo dos movimentos operários não pode se dar de forma isolada ou sem antes se analisar a relação do Estado Capitalista inserido na luta de classes. Esta é uma das principais contribuições do autor para uma futura análise do atual movimento da classe trabalhadora. Apresentam-se neste momento as principais temáticas abordadas pelo autor na obra Poder Político e Classes Sociais acerca do Estado Capitalista e o campo da luta de classes na qual ele se insere.

O Estado, enquanto representante do interesse geral da nação e da “unidade política do povo” (POULANTZAS, 1977, p. 273), é analisado por Poulantzas através do conceito de soberania popular, que, de acordo com o autor, está diretamente ligado à “unidade própria do poder político institucionalizado” (POULANTZAS, 1977, p. 273). Soberania popular

24 Nestas análises das concepções acerca da autonomia relativa do Estado e da luta de classes, são analisadas em diferentes momentos ou periodizações históricas, em diferentes formações sociais. Por isso, em especial na formação do Estado Capitalista, estas concepções são analisadas pelo autor enquanto equivocadas ou enquanto teorias insuficientes.

constitui como fonte de legitimidade do Estado as pessoas políticas representantes dos indivíduos.

Contudo, o que mais importa aqui, é que a soberania do Estado e a soberania popular se superpõem: esse povo de cidadãos não é considerado como adquirindo a sua existência de corpo político, fonte de legitimidade, senão na medida em que assume uma unidade diretamente encarnada pela unidade do poder de Estado. (POULANTZAS, 1977, p. 273)

A soberania popular está ligada à soberania do Estado, pois, é só através da representação que o “povo” aparece ligado ao Estado. Essa representação visa construir o “corpo político”, segundo Poulantzas (1977) dos interesses ou vontade de “querer pela nação” da sociedade. “O poder de Estado constitui uma unidade própria, na medida em que as suas instituições são organizadas como constitutivas da unidade do povo e da nação” (POULANTZAS, 1977, p. 274). Desta forma, o Estado não se apresenta apenas como representante de interesses individuais, como representante e papel da unidade, buscando os interesses em conjunto do povo-nação.

Assim, as instituições que compõem o Estado têm como representantes do “corpo político”, membros eleitos tidos como representantes do povo-nação. Estes membros estão inseridos dentro das estruturas institucionais do Estado, dando legitimidade a essa unidade característica do Estado.

Esta característica de unidade do Estado capitalista rege a sua organização centralizada: o declínio dos poderes locais refere-se diretamente à organização unitária do Estado baseado sobre este ponto central que é a instituição da soberania popular. A unidade do Estado encontra-se, além disso, sob outras formas, no sistema jurídico moderno em sentido estrito: esse conjunto normativo específico, constituído a partir dos “sujeitos do direito” declarados sobre a imagem dos cidadãos, apresenta, no mais alto grau, uma unidade sistemática na medida em que regulamenta por meio de lei, a unidade desses “sujeitos”.(POULANTZAS, 1977, p. 275)

Poulantzas (1977) analisa as concepções com base nas obras de Marx acerca da autonomia relativa do Estado frente à classe ou fração hegemônica e na sua relação com a luta política de classes. Para esta análise do Estado Capitalista, Marx exemplifica com o modelo do bonapartismo francês, mas que no momento não enunciaremos este exemplo, apenas os conceitos e relações desta autonomia relativa do Estado.

Para o autor, esse Estado relaciona-se aos “interesses políticos, à organização propriamente política das classes ou frações dominantes na sua luta política de classe com as classes dominadas” (POULANTZAS, 1977, p. 279). O Estado busca sempre favorecer os interesses da classe hegemônica, tanto na esfera da luta política, como na luta econômica, de acordo com seus interesses. Porém, uma classe, para se tornar hegemônica, ou para manter a

sua hegemonia política com base na autonomia, só pode realmente dominar se “erigir os seus interesses econômicos em interesses políticos” (POULANTZAS, 1977, p. 279).

A classe hegemônica só detém de fato o poder através da esfera política e ideológica, onde aparentemente se apresenta enquanto representante do interesse geral do povo-nação. “Trata-se aí do papel do Estado Capitalista em relação às classes dominadas, o que estabelece, aliás, a relação específica entre esse Estado e os interesses políticos das classes e frações dominantes” (POULANTZAS, 1977, p. 280).

Contudo, essa relação do Estado com a luta política de classes só pode se dar referente à sua autonomia relativa entre as mesmas. Segundo o autor, parafraseando sobre as análises de Marx e Engels, a burguesia, ou a classe dominante, é incapaz, “de se erigir, através dos seus próprios partidos políticos, ao nível hegemônico de organização” (POULANTZAS, 1977, p. 280). A classe hegemônica transforma os interesses políticos gerais em interesses particulares de classe. A burguesia, ainda segundo Poulantzas (1977), é impotente de realizar sua própria unidade interna, além da sua luta contra as classes dominadas, se tornando impossível a ideia de estabelecer uma hegemonia com a classe operária a fim de estabelecer uma unidade de representação do interesse do povo nação. É neste momento que o Estado capitalista intervém e demonstra sua autonomia relativa à luta política de classes. Entretanto isto não quer dizer que o Estado deixa de representar os interesses desta classe hegemônica, mas para isso, ele precisa intervir frente à sua autonomia de classes, e em especial com a classe dominada.

Essa autonomia relativa permite-lhe precisamente intervir, não somente com vista a realizar compromissos em relação às classes dominadas, que, a longo prazo, se mostram úteis para os próprios interesses econômicos das classes e frações dominantes, mas também intervir, de acordo com a conjuntura concreta, contra os interesses a longo prazo desta ou daquela fração da classe dominante: compromissos e sacrifícios por vezes necessários para a realização do seu interesse político de classe. Basta mencionar o exemplo das chamadas “funções sociais” do estado, que atualmente assumem uma importância crescente. Se é verdade que, atualmente, elas são conformes à política de investimentos estatais, visando a absorção da superprodução da produção monopolista, e, portanto, conformes aos interesses econômicos dos monopólios, não é apenas verdade que elas foram impostas às classes dominantes pelo Estado, sob a pressão da luta das classes dominadas; isto traduziu-se frequentemente, por uma hostilidade entre o Estado e as classes dominantes. Elas foram mesmo, por vezes, impostas por governos social- democratas, o que em rigor, nada adianta para o caso. (POULANTZAS, 1977, p. 281)

A outra forma do Estado manter sua autonomia é realizar alianças com algumas classes ou frações de classes dominadas, através de um “apoio ideológico”, que na verdade se reveste em benefícios para os interesses da classe hegemônica, sobre a roupagem de “conformidade ao seu interesse político” (POULANTZAS, 1977, p. 282). Ou seja, mesmo

representando sua autonomia frente à luta de classes, o Estado nãodeixa de se apresentar enquanto representante maior, ou não se afasta da classe dominante. Outro fator importante que deve ser levado em consideração, é que o Estado, em sua autonomia relativa, não dá espaço para uma “participação efetiva das classes dominadas no poder político” (POULANTZAS, 1977, p. 285).

No documento raissacristinaarantes (páginas 47-50)