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2 ABORDAGEM TEÓRICA DA SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL

3 O PAPEL DO ESTADO NO SISTEMA CAPITALISTA: COMPREENDENDO A TRAJETÓRIA BRASILEIRA DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL

3.2 O ESTADO CAPITALISTA E AS CLASSES DOMINADAS

Para Poulantzas (1977), o Estado apresenta a função especifica de coesão social, que visa assegurar a ordem do Sistema. Essa função se refere tanto a manutenção das relações de produção, como a formação social com direção hegemônica de classe.

No que se refere à formação social, o Estado é analisado como um representante do interesse político das classes dominantes e apresenta um papel importante no âmbito das lutas de classe, especificamente no que se refere em assegurar a hegemonia da classe dominante.

Nesse contexto, o autor utiliza o conceito de autonomia relativa do Estado para analisar que mesmo o Estado representando o interesse político de uma fração da classe dominante, este apresenta uma certa autonomia política. Deste modo, o Estado pode assegurar algumas garantias econômicas às classes dominadas:

[...] o Estado capitalista comporta, inscrito nas suas próprias estruturas, um jogo que permite, dentro dos limites do sistema, uma certa garantia de interesses econômicos de certas classes dominadas. Isto faz parte da sua própria função, na medida em que essa garantia é conforme a dominação hegemônica das classes dominantes, quer dizer, à constituição política das classes dominantes, na relação com esse Estado, como representativas de um interesse geral do povo. (POULANTZAS, 1977, p.185).

Essas garantias estão associadas tanto ao papel do Estado como representante do interesse da nação, como aos interesses políticos das classes dominantes em garantir sua hegemonia. Deste modo, o Estado pode conceder algumas garantias econômicas as classes dominadas que sejam divergentes do interesse econômico das classes dominantes, entretanto essas estão alinhadas com seus interesses políticos.

Para Mollo (2001) essa autonomia relativa13 contribui para o distanciamento do Estado como instrumento de uma fração da classe dominante, tendo em vista que essas garantias contribuem para ocultar as questões relativas à lógica da sociedade de classe capitalista.

13Essa concepção de Poulantzas representa uma contribuição teórica importante na análise do Estado e as questões

relacionadas às lutas de classe, entretanto existem alguns teóricos como Miliband que criticam a dificuldade de se analisar o nível de autonomia do Estado nesse cenário de lutas de classe, considerando a analise um tanto abstrata (MOLLO, 2001).

A autonomia relativa do Estado tem uma relação direta com as lutas de classe, estando em função da capacidade da classe dominada de se organizar politicamente. Quanto maior a capacidade das classes dominadas se organizarem politicamente, maior a capacidade destas de lutarem pelos interesses da classe. Nesse sentido, Poulantzas (1977) considera que as garantias concedidas para as classes dominadas têm como objetivo a própria desorganização desta classe.

No que se refere ao poder político do Estado, nota-se que este não se realiza apenas pela repressão ou pela força física, mas sim pela ideologia dominante e a forma como esse Estado se apresenta. É baseado nessa ideologia que o Estado consegue reproduzir o domínio político e atender o interesse de uma parte da classe dominante como se fosse de interesse da nação.

A ideologia dominante é reproduzida pelo Aparelho de Estado, que representa mecanismos necessários para o Estado realizar suas ações. Segundo Poulantzas (1977), o Aparelho de Estado representa a principal forma de perpetuar essa ideologia no capitalismo:

[...] a ideologia invade os aparelhos de Estado, os quais igualmente têm por função elaborar, apregoar e reproduzir esta ideologia, fato que é importante na constituição e reprodução da divisão social do trabalho, das classes sociais e do domínio de classe. Esse é por excelência o papel de certos aparelhos oriundos da esfera do estado, designados aparelhos ideológicos do Estado. (POULANTZAS, 1977. Destaque da autora).

Nessa perspectiva, Althusser (1970) teoriza sobre o papel do Aparelho Ideológico de Estado na reprodução do modo de produção capitalista e apresenta a distinção entre o Aparelho de Estado (AE) e o Aparelho Ideológico do Estado (AIE). O Primeiro, também denominado como Aparelho Repressivo de Estado, representa as instituições e os mecanismos repressivos, como a Administração, as leis, as normas, o Exército, a Polícia e etc. A principal característica deste é o uso da violência, seja ela física ou não. Enquanto o AIE tem como principal característica a ideologia, sendo analisada por distintas instituições, como: o AIE Religioso (sistema das diferentes igrejas), Escolar (sistema das diferentes escolas públicas e privadas), Político (partidos políticos distintos), Jurídico, Cultura entre outros.

O autor ressalta que a análise dos AE e AIE não devem ser realizadas de forma dicotômica, pois ambos são influenciados pela ideologia e apresentam características repressivas. Dessa forma, o que realmente distingue essas duas categorias de análise é a característica dominante. No caso do AIE, a característica dominante é a ideologia, mas funcionam também pela

repressão. De forma semelhante, o AE funciona pela repressão e também funciona pela ideologia, que apresenta um papel importante no próprio processo de coesão social.

Considera-se que o AE e o AIE podem ser analisados como instrumentos que uma fração da classe dominante, no Poder, utiliza para garantir os seus interesses políticos. Notavelmente, a análise da intervenção da classe dominante sobre o AE é mais fácil de ser identificada, sendo analisada a partir das instituições, do marco legal (leis, decretos, regulamentos), do corpo de funcionários dessas instituições (classe reinante). Entretanto, nota-se que “nenhuma classe pode duravelmente deter o poder de Estado sem exercer simultaneamente sua hegemonia sobre e no Aparelho Ideológico de Estado”. (ALTHUSSER, 1970, p. 49).

Nesse contexto, a dominação do AE e AIE representa para as classes dominantes o principal objetivo das lutas de classe. Essa dominação garantirá a classe dominante condições necessárias para alcançarem seus projetos políticos com o consentimento da classe dominada. Ou seja, as classes dominantes precisam exercer a hegemonia nos Aparelhos do Estado para garantir que seus projetos se realizem e sejam socialmente aceito.

Com o objetivo de ampliar a análise do Estado e as relações de dominação que se estabelecem no modo de produção capitalista, apresenta-se na próxima seção aspectos importantes referentes a concepção do Estado como representante do Interesse de uma fração da classe dominante no centro do Bloco do poder, apresentada por Poulantzas (1977). Além disso, parte- se das seguintes perguntas norteadoras: De que forma os Aparelhos do Estado possibilitam que os interesses das classes dominantes sejam garantidos? Como as classes dominantes chegam ao Poder? Quais as especificidades dos regimes democráticos?

3.3 O PODER POLÍTICO

Para Poulantzas (1977, p. 100) o poder político representa “a capacidade de uma classe social de realizar os seus interesses objetivos específicos”. Essa definição tem como referência as práticas das classes sociais no contexto da luta de classes.

O autor desenvolve o conceito de poder político com base na análise apresentada por Marx e Engels. Apesar desses autores não terem desenvolvido uma teoria especifica sobre o poder