8.1 O equilíbrio contratual, a função social do contrato e a boa-fé objetiva
8.1.5 O estado de perigo, a lesão e as cláusulas abusivas
Outras situações em que se verifica ter relevância jurídica a motivação subjetiva do contratante é no estado de perigo e na lesão, que têm relação com o assunto ora tratado justamente porque encontram fundamento no princípio do equilíbrio contratual.674 É que o desequilíbrio entre as prestações contratuais – o qual deve ser aferido objetivamente, como acima se assentou – pode vir a configurar uma ou ambas das situações previstas nos artigos 156 e 157 do Código Civil brasileiro. O verbo poder é aqui utilizado porque o requisito objetivo da desproporção entre a prestação e a contraprestação não é o único que se exige para a configuração do estado de perigo ou da lesão, que dependem, também, de requisitos subjetivos: no estado de perigo, o contratante favorecido deve necessariamente ter conhecimento do grave dano a que exposto o outro, que, por isso, contrai obrigação excessivamente onerosa; e, na lesão, é do ponto de vista da vítima que se exige o requisito subjetivo de estar “sob premente necessidade, ou seja, sob necessidade de contratar, a chamada necessidade contratual, leviandade, a falta de reflexão, (...) ou inexperiência, desconhecimento dos negócios”.675 É certo, porém, que, para Claudio Godoy, os requisitos subjetivos da lesão servem apenas para tornar mais claros e certos os aspectos objetivos de prejuízo e lucro exagerado, não constituindo elementos principais para determinar a ocorrência da lesão, até porque “não se está a tratar de vício da vontade mas, antes, de correção de situação de desequilíbrio contratual”.676 Não se entende, por isso, todavia, possam ser desprezados os aspectos subjetivos exigidos para a configuração da lesão; apenas não são eles os elementos principais para a caracterização do instituto.
673 TJRS, 17ª C. C., Ap. Cív. 70001739374, rel. Ney Wiedemann Neto, j. 11.12.2001. Julgado citado por
Gustavo Tepedino, Heloisa Helena Barboza e Maria Celina Bodin de Moraes (Código Civil interpretado
conforme a Constituição da República, v. 1, p. 226).
674 GODOY, Claudio Luiz Bueno de. Função social do contrato, p. 42 e 46. 675 Ibidem, p. 46-47.
O que se pretende, enfim, com a menção a essas duas figuras, é demonstrar que, para a invalidade da cláusula de não indenizar, basta que objetivamente se verifique uma ausência de equilíbrio entre ela e a respectiva vantagem auferida pelo credor – tarefa que deve ser feita, como antes já se esclareceu, a partir da presunção da justiça substancial da divisão que as próprias partes fizeram de suas vantagens e desvantagens –, não sendo necessário qualquer elemento subjetivo: nem o que, do ponto de vista da vítima, é exigido para a lesão, nem o dolo de aproveitamento que deverá estar presente na conduta do favorecido no estado de perigo. Em outras palavras: o regime a ser adotado para o controle de validade das cláusulas limitativas e exoneratórias do dever de indenizar deve ser o mesmo que orienta a vedação das cláusulas abusivas nas relações de consumo (artigo 51 do Código de Defesa do Consumidor), que exige, tão somente, “a objetividade do resultado inequitativo do ajuste, desimportando a malícia com que se tenha havido a parte forte na relação”.677
A esse respeito, Cláudia Lima Marques, Antônio Herman V. Benjamin e Bruno Miragem ressaltam que “a lei brasileira não exige que a cláusula abusiva tenha sido incluída no contrato por ‘abuso do poderio econômico’ do fornecedor (...), o CDC sanciona e afasta apenas o resultado, o desequilíbrio, não exige um ato reprovável do fornecedor”. Da mesma forma, a cláusula pode ter sido aceita conscientemente pelo consumidor, mas, se trouxer vantagem excessiva para o fornecedor, será abusiva, ou seja, “o resultado é contrário à ordem pública, contrário às normas de ordem pública de proteção do CDC, e a autonomia da vontade não prevalecerá”.678 Ainda para os autores, a própria definição de abusividade, se adotada “uma aproximação subjetiva, que conecta abusividade mais com a figura do abuso do direito”, reflete a tendência do direito contemporâneo, que é a de, justamente, impor limites à liberdade de contratar, de forma a proteger a parte hipossuficiente da relação contratual:
Só pode ser abusivo o que excedeu os limites, e, na visão tradicional de plena liberdade contratual, os limites na fixação das cláusulas contratuais praticamente inexistem. Denominar, portanto, uma cláusula do contrato como abusiva é pressupor a reação do direito contratual, é aceitar a imposição de novos limites ao exercício de um direito subjetivo, no caso, o da livre determinação do conteúdo do contrato. A intervenção do Estado nos negócios privados e a imposição de limites ao dogma da autonomia da vontade vão caracterizar a atual concepção do contrato. Sendo assim, a identificação de algumas cláusulas presentes nas relações contratuais massificadas como abusivas é fenômeno moderno, oriundo da mudança de valores e de interesses protegidos pelo direito.679
677 Ibidem, p. 48.
678 Comentários ao Código de Defesa do Consumidor: arts. 1º a 74, p. 623. 679 Ibidem, p. 625.
Na mesma esteira é a posição de Giselda Hironaka e Flávio Tartuce, para quem o artigo 187 do Código Civil brasileiro consagra a função de controle da boa-fé objetiva: “aquele que viola ou desrespeita boa-fé objetiva em sede de autonomia privada comete abuso de direito, conclusão que pode ser retirada da experiência com as cláusulas abusivas nos contratos de consumo”.680 Gustavo Tepedino e Anderson Schreiber, igualmente, entendem que uma das funções da boa-fé objetiva seria a função restritiva do exercício abusivo de direitos contratuais, afigurando-se como “critério para diferenciação entre o exercício regular e o exercício irregular ou abusivo – e, portanto, vedado – de direitos frente à outra parte na relação contratual”. Daí que, para esses autores, tal função teria sido incorporada no artigo 187 do Código Civil, “que definiu de forma eclética a figura do abuso de direito”.681 Claudio Godoy, por seu turno, sustenta que o fundamento da cláusula abusiva “hoje, menos que no abuso de direito e na explicitude da lei, está ligado à exigência de que as contratações decorram de um comportamento leal e de cooperação entre os contraentes”. Cuida-se, no entender do autor, e nesse ponto aproximando-se dos doutrinadores supracitados, de agir em conformidade com os princípios da boa-fé objetiva e da justiça contratual “de tal arte que o comportamento solidário seja o pressuposto necessário para uma contratação justa”.682
Esse também, ainda, o entendimento de Junqueira de Azevedo, que, no já comentado parecer sobre o tema da cláusula de não indenizar, referiu-se aos princípios do equilíbrio contratual e da boa-fé objetiva, para assentar que, atualmente, “são consideradas abusivas as cláusulas que colocam uma das partes em desvantagem exagerada em relação a outra, quer atribuindo a essas direitos, negados à primeira, quer, inversamente, criando obrigações, para um contratante, que não existem para o outro”.683 O autor não restringe – como de fato não se entende deva se restringir – o controle das cláusulas abusivas às relações de consumo. Embora o mecanismo encontre previsão expressa no Código Consumerista, o seu fundamento “não está na explicitude da lei, apenas, mas em princípios
680 O princípio da autonomia privada e o direito contratual brasileiro, p. 69.
681 TEPEDINO, Gustavo; SCHREIBER, Anderson. Os efeitos da Constituição em relação à cláusula da boa-
fé no Código de Defesa do Consumidor e no Código Civil. Revista da EMERJ, Rio de Janeiro, v. 6, n. 23, 2003, p. 6. Para os autores, a tríplice função da boa-fé seria composta das funções interpretativa, restritiva do exercício abusivo de direitos contratuais e criadora de deveres anexos ou acessórios à prestação principal. Junqueira de Azevedo também faz alusão à tríplice função da boa-fé objetiva, mas em termos um pouco diversos, conforme será visto adiante, ainda neste item.
682 Função social do contrato, p. 49.
683 Cláusula cruzada de não indenizar (cross-waiver of liability), ou cláusula de não indenizar com eficácia
para ambos os contratantes. Renúncia ao direito de indenização. Promessa de fato de terceiro. Estipulação em favor de terceiro, p. 200.
que lhe são superiores, como o da justiça contratual e o da boa-fé objetiva”.684 Não é por outra razão, aliás, que o Código Civil proíbe as condições puramente potestativas (artigo 122) e fulmina de nulidade as cláusulas inseridas em contratos de adesão que estipulem a renúncia antecipada do aderente a direito resultante da natureza do negócio (artigo 424).685 Mas não apenas nos contratos de adesão cogita-se de cláusulas abusivas: acede-se, também nesse particular, à posição de Claudio Godoy, para quem, “se a justiça contratual é um novo princípio dos contratos, de direta inspiração constitucional, não há por que restringi- lo, quando se trate de afastar cláusulas abusivas, aos contratos de massa e de adesão”. Reconhece-se, é claro, que nesse campo as cláusulas ditas abusivas são mais frequentes e até mais comuns, o que não significa que estarão ausentes dos contratos paritários e negociados, seara em que, todavia, a análise da abusividade da cláusula deve ser feita com maior rigor.686
Imperioso esclarecer que, em princípio, a cláusula de não indenizar pactuada em contrato negociado, no bojo de relações paritárias intercivis e interempresariais, não será, por si só, abusiva. Aguiar Dias chega inclusive a admitir a “quebra do equilíbrio” decorrente do dano infligido ao credor em razão do descumprimento de obrigações contratuais pelo devedor. Entretanto, a seu ver, tratando-se de interesses apenas patrimoniais, o equilíbrio do contrato “pode ser restabelecido instantaneamente, porque o interesse que sofreu o desfalque teve compensação legítima, que foi o que induziu o contratante a aceitar a cláusula”.687 Daí a conclusão de que apenas será abusiva a cláusula de não indenizar se não for conferida ao credor vantagem suficiente que compense, legitimamente, a renúncia ao direito de receber indenização, pois aí sim haverá desequilíbrio entre as prestações contratuais. De outra parte, a ausência de compensação legítima à cláusula de não indenizar é o bastante para justificar a sua inadmissibilidade – trata-se de elemento objetivo que caracteriza a abusividade da cláusula e, portanto, acarreta a invalidade. Não se desprezará, por isso, evidentemente, o comportamento doloso ou gravemente culposo que o devedor venha a ter no caso concreto, porquanto justamente dessa conduta do devedor – no caso específico da cláusula de não indenizar – poderá decorrer o desequilíbrio contratual que não é tolerado pela ordem jurídica. É evidente, da mesma forma, que a atitude dolosa, praticada com real intenção de prejudicar o outro,
684 GODOY, Claudio Luiz Bueno de. Função social do contrato, p. 50. 685 Ibidem, p. 49-50.
686 Ibidem, p. 50.
constitui conduta flagrantemente contrária ao padrão de correção, retidão moral, lealdade e cooperação exigido pela boa-fé objetiva, havendo, portanto, indissociável relação entre os assuntos.688 Contudo, por ter desdobramentos específicos no campo da cláusula de não indenizar, sendo hipótese costumeiramente invocada de invalidade da convenção, optou-se por cuidar do dolo e da culpa grave do devedor em um item próprio (item 8.2).