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O Estado do Conhecimento Científico das Drogas

No documento ENcomissao.pdf (páginas 101-104)

INVESTIGAÇÃO E FORMAÇÃO

A- Investigação sobre Drogas e Toxicodependências

1. O Estado do Conhecimento Científico das Drogas

A "guerra da droga" é o paradigma daqueles combates, cujos actores,

dominados pelas emoções, crêem poder vencer sem pensar. Resultado: nem o fenómeno das drogas foi vencido nem dele dispomos conhecimento

solidamente fundado pelo método científico. Estranho paradoxo: as sociedades que tanto se orgulham do desenvolvimento e do progresso, recusam a um problema que tanto as aflige o tipo de conhecimento humano, a ciência, que presidiu à sua evolução.

O pouco conhecimento que a partir do final da década de 70 e início da década de 80 se foi produzindo caracteriza-se, em termos gerais, pela escassez,

dispersão e inconsistência.

As Universidades só muito secundariamente se têm interessado pelo fenómeno, e quando o fazem limitam-se à investigação que pode conduzir a graus

académicos (mestrados ou doutoramentos) ou à que é encomendada por instâncias governamentais. Terminada a tese ou o relatório de investigação, os investigadores procuram outros objectos de estudo, inscritos nos seus domínios e paradigmas científicos. Estudos com alguma sistematização são conduzidos, regra geral, pelos dispositivos governamentais de "combate à droga".

Poderíamos caracterizá-los pela noção de investigação administrativa: elaboração das estatísticas dos serviços sócio-sanitários, das polícias, dos tribunais, das prisões; aplicação de inquéritos epidemiológicos.

Dispomos, assim, de um amontoado de dados, pouco consistentes por não serem sujeitos a sistemáticas provas científicas e dispersos em razão de nulos ou lacunares quadros teóricos, designadamente interdisciplinares. A ausência de uma comunidade científica estável no domínio das drogas explica o pouco conhecimento que dispomos sobre este problema social: raríssimos são os cientistas que lhe consagram a sua carreira universitária e o fazem criando sistemas de comunicação entre diferentes disciplinas. E não se trata, nesta leitura do estado do conhecimento científico do fenómeno das drogas, de um olhar dirigido à experiência portuguesa, explicável pelo habitual refrão do "atraso em relação aos outros países". Não. Nesta matéria, em termos gerais, todos os países estão atrasados, até os mais desenvolvidos. A vontade de poder, tendo dominado a vontade de saber, entregou o problema das drogas a um agir compulsivo que tem tido por aliados o pensamento mítico e o obscurantismo científico.

Este estado de coisas não parece, no entanto, irreversível. Com efeito, durante os últimos anos têm surgido sinais que anunciam a emergência de um campo estável de produção e consolidação de conhecimentos sobre as drogas.

Já em 1987 a conferência de Viena recomendava aos países da ONU um esquema multidisciplinar articulador de múltiplas iniciativas e entre elas: "institutos de estudos superiores, centros de investigação dos grandes

estabelecimentos escolares". E quanto à prevenção, dizia-se claramente: "seria preciso intensificar a investigação científica".

O Governo Francês criou, no mesmo ano, o "Instituto Nacional do Ensino, da Investigação, da Informação e da Prevenção sobre os Toxicómanos". Não tendo funcionado, o relatório da Comissão de reflexão sobre a Droga e a Toxicomania, de 1995, propunha que um novo organismo independente levasse por diante os fins do Instituto, de molde a "reunir as forças de reflexão, de imaginação e de acção muito frequentemente dispersas". O mesmo relatório recomendava a necessidade de investigação científica a vários níveis: em epidemiologia, em neurobiologia e em ciências humanas.

De igual modo o relatório sobre "a estratégia das drogas na Holanda", de 1995, lembrava que este país se tem norteado por critérios científicos. Tal orientação de fundo, que repousa na distinção entre drogas leves e drogas duras, permitiu, conforme se lê no mesmo relatório, demonstrar como a teoria da escalada é mais um dos muitos mitos que circulam acerca do uso das drogas. Defendendo a continuidade duma política baseada mais no conhecimento do que nos

preconceitos, o mesmo relatório governamental estimulava o desenvolvimento de programas científicos, designadamente sobre a observação do fenómeno, os padrões de consumo, as drogas sintéticas, a redução de danos, a avaliação (dos

coffee- shops e das medidas preventivas).

Também a estratégia nacional definida em 1988 para os EUA previa um importante investimento em programas de investigação e desenvolvimento, quer ao nível da investigação fundamental (neurociências, farmacologia, ciências do comportamento), quer ao nível da intervenção (prevenção,

formação, tratamento e reinserção, estudos sobre os custos sociais). Defendia o referido relatório uma estratégia abrangente e integrada.

Mas não são apenas as estratégias nacionais que, nos últimos anos, fazem apelo à investigação científica. A Comissão das Comunidades Europeias, desde o início da presente década, tem vindo a tomar iniciativas de relevo em matéria de ciência das drogas. Iniciou o programa COST em 1991, apoiou programas de sistematização da investigação científica sobre drogas na Europa (ex. o directory

of drug problem research in Europe do Institute for the Study of Drug Dependence, 1992); organizou, através do EMCDDA., um seminário de sistematização das iniciativas de investigação na União Europeia em 1996 (Drugs: Research Related

Initiatives in the European Union), e levou a cabo vários seminários de

de avaliação da prevalência do problema do uso das drogas na Europa. Este último seminário, organizado em cooperação com o Grupo Pompidou do Conselho da Europa, deu início à publicação conjunta de monografias científicas, as EMCDDA Scientific Monograph Series.

Do lado das Universidades, verifica-se um interesse crescente pelas questões da drogas. Tal interesse emerge mais do lado das ciências sociais e humanas do que das ciências biomédicas. A Holanda é sem dúvida o país em que os

departamentos universitários mais estudos têm desenvolvidos sobre as drogas: institutos de criminologia, de psicologia, de educação e desenvolvimento humano, de antropologia social, de ciência política. Salvo raríssimas excepções (Áustria, Alemanha, Portugal, Espanha), as Universidades não criaram ainda centros de investigação especialmente vocacionados para o uso desviante das drogas e problemas conexos. Predominam as unidades de investigação dependentes dos governos (conselhos de ministros, ministérios da saúde, dispositivos do "combate à droga"). Nos EUA é o NIDA que tem comandado a investigação. Existem ainda alguns institutos independentes (ex. o TRIMBOS -

Netherlands Institute of Mental Health and Addiction, na Holanda; o ISDD -

Institute for the Study of Drug Dependence na Grã-Bretanha; o IREP - Institut de

Recherche en Epidémiologie de la Pharmacodépendance em França). Tendências de investigação:

A ter em conta os dados do relatório da Comissão Europeia sobre este tópico (1996) a investigação sobre as drogas nos países que integram a Comunidade Europeia incidiu, durante os últimos dez anos, sobretudo em áreas como a prevalência, a incidência, os padrões de uso, os factores e os efeitos do uso das drogas, e a dependência. A prevenção primária, o tratamento, as políticas e estratégias de controlo mereceram uma incidência média; temas de baixa incidência investigatória foram os serviços socio-sanitários e a relação drogas- crime. O mesmo relatório refere as seguintes necessidades de investigação sentidas pelos diferentes países: instrumentos metodológicos e de avaliação ao serviço do estudo da prevalência, da incidência e padrões de uso (importantes); políticas de controlo, tratamento e serviço, etiologia e factores de risco,

consequências sociais e sanitárias (relativamente importantes). Quanto às disciplinas científicas, cujo contributo se afigura necessário, são citadas: policy

science, sociologia, economia, investigação clínica, saúde pública, psicologia, investigação organizacional, criminologia. Como necessidades específicas de investigação são mencionadas: a qualidade da investigação e suas

metodologias; a interdisciplinaridade; os estudos longitudinais e meta- analíticos.

Justificação da criação de dispositivos de investigação sobre drogas:

Três razões fundamentais justificam a constituição de dispositivos estáveis de investigação sobre drogas:

- Em primeiro lugar, por imperativo racional e moral: temos o dever de conhecer para bem agir. O incumprimento sistemático deste princípio

elementar tem constituído a falha mortal das estratégias de luta contra a drogas; - Em segundo lugar, a vontade de saber que tem vindo a ganhar força durante estes últimos anos precisa consolidar-se numa verdadeira praxis do

conhecimento;

- Em terceiro lugar, esta mesma praxis não existe fora das condições materiais que estruturam toda a acção humana. Neste caso, a que visa combater a ignorância, a dispersão e a má qualidade do conhecimento existente sobre as drogas.

Natureza e fins da investigação científica sobre drogas:

O conhecimento científico em geral não é neutro. E menos neutro se torna quando se aplica a fenómenos humanos e problemas sociais como os das drogas, mais do que outros povoados de mitos, poderes e interesses (incluindo alguns pseudo-científicos). Por outro lado, implicando a própria natureza do fenómeno das drogas, ao mesmo tempo factos e valores, a dimensão empírica e a dimensão normativa, mais complexas se tornaram as operações de produção de conhecimento objectivo. A passagem entre o facto e o valor, entre o empírico e a norma é muito estreita. Mas nela têm, forçosamente, de habitar os

dispositivos de investigação científica sobre as drogas, em estado de permanente vigilância crítica, permitindo evitar duas práticas opostas: a investigação acrítica e a investigação hipercrítica. A primeira, incapaz de distância criadora e permeável à ideologia, está sempre disposta a legitimar empiricamente as normatividades dos diferentes interesses, poderes e crenças; a segunda, incapaz de construir modelos explicativos e interpretativos ancorados em sólida evidência empírica, deixa a decisão normativa prisioneira, na crónica angústia de eternas incertezas e de infindáveis debates.

O conhecimento científico das drogas tem por fins o estabelecimento de relações objectivas e o significado histórico-social das drogas. Ele é necessário para nos ajudar nas decisões sobre como devemos viver com as drogas, mas não é suficiente, ou sequer determinante. A defesa que fazemos de uma ciência das drogas recusa ao mesmo tempo o cientismo e o moralismo. As sábias

estratégias da gestão social do uso das drogas constituem-se na interpenetração das esferas culturais: na abertura da ciência para a ética e a justiça; na abertura da justiça e da ética para a ciência. Aí, nessa sinergia, se engendra a

intersubjectividade que pensa e age sobre as drogas.

No documento ENcomissao.pdf (páginas 101-104)