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2 A INTERVENÇÃO DO ESTADO NA ECONOMIA: REFERÊNCIAS

2.3 O ESTADO E AS PERSPECTIVAS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL

Após a segunda guerra mundial, quando a economia européia e a japonesa iniciaram o processo de reconstrução de suas economias, a partir dos investimentos de

capitais norte-americanos, ocorreu uma internacionalização das forças produtivas, ao mesmo tempo em que também ocorreu (de forma associada) uma internacionalização do controle do capital, através de um novo tipo de empresa que passou a operar a nível internacional, sob uma direção centralizada – as empresas transnacionais.

Esta nova fase do processo de internacionalização do capital se restringiu, no período pós-guerra até meados da década de sessenta, às economias européias, e somente após a recuperação econômica da Europa e reestruturação dos seus capitais, é que se voltou para as economias subdesenvolvidas do Sudeste Asiático e da América Latina, mais precisamente para aqueles países que já tinham iniciado ou estruturado um processo interno de industrialização, mesmo que nos moldes da substituição de importações industriais, como é o caso do Brasil (COSTA, 1986).

Se, antes, a dinâmica da internacionalização do capital produtivo foi decisiva para possibilitar a reconstrução das economias européia e japonesa, não deixou de ter importância estratégica na industrialização dessas economias subdesenvolvidas, visto que propiciou a consecução da continuidade da industrialização por substituição de importações, e também na estruturação da nova divisão internacional do trabalho, que passou a inserir a participação de alguns desses países no comércio exterior de produtos industrializados.

Essa ascensão do capital produtivo na internacionalização do circuito capitalista subordinou, entretanto, de forma mais contundente, as economias subdesenvolvidas ao mercado internacional, mas não mais se limitando ao fluxo de produtos manufaturados versus produtos primários, e sim, sobretudo, o de inversões de capital estrangeiro no setor manufatureiro dos mercados internos desses países.

Com isto, a base produtiva nacional se tornou basicamente internacional, configurando-se assim em um novo sistema econômico mundial (MICHALET, 1985), em que deixou de predominar a transferência de mais-valia no circuito mundial para um novo

processo de criação descentralizada do valor. Isto propiciou, por sua vez, o desenvolvimento das forças produtivas globais, provocando transformações nos países para onde se transferiram esses capitais e, evidentemente, na sua estrutura setorial de produção, acelerando o crescimento econômico interno de forma nunca antes visto (CARVALHO, 1997b, p. 14).

Esse processo tem sido denominado de globalização do desenvolvimento das forças produtivas econômicas, não divergindo ou contrariando, todavia, o pressuposto da internacionalização, mas apenas o substituindo em uma nova forma de análise, já que ambas as concepções tão somente traduzem as dificuldades de apreensão do fenômeno da transição do capitalismo durante esse momento histórico (CARVALHO, 1998).

Na verdade, diria-se que o que ocorreu foi uma interação e superação contraditória do desenvolvimento do capital, como se fosse parte de um movimento dialético, visto que a eclosão da globalização, como um novo período de transição do capitalismo contemporâneo, iniciou-se justamente no momento em que se processava, no âmbito do mercado mundial, uma nova fase do processo de internacionalização do capital produtivo.

E esse momento se dá justamente quando ocorre a recuperação da economia européia, devido à eficácia do Plano Marshall e da concorrência exercida pelas empresas transnacionais norte-americanas. Só que este momento foi caracterizado por um acirramento dessa concorrência no espaço mundial, forçada pela ação das empresas européias que, em resposta ao capital norte-americano, projetaram seus investimentos em direção aos países subdesenvolvidos, inclusive para a América Latina.

Portanto, esse momento que decorreu a inclusão dos países periféricos no circuito seletivo da produção industrial no âmbito do mercado mundial é marcante do ponto de vista do processo de desenvolvimento do sistema capitalista, pois determinou uma assimetria entre os países avançados e periféricos (CARVALHO, 1998), ao mesmo tempo em que propiciou a

superação tecnológica de um padrão de produção até então liderado pelos capitais norte- americanos.

Isto posto, ao se caracterizar essa superação tecnológica – que deve ser vista como uma nova etapa de desenvolvimento tecnológico na produção industrial capitalista – alterou- se o equilíbrio até então mantido pela hegemonia norte-americana e inaugurou-se um novo ciclo de concorrência capitalista, só que em condições estruturais completamente diferentes do momento anterior, mesmo considerando o momento do pós-guerra11.

Conseqüentemente, a internacionalização capitalista se transformou em globalização, ou então, a globalização da economia mundial se constituiu em um novo processo de internacionalização do capital produtivo e do financeiro articulado ao sistema monetário internacional. Em suma, uma nova etapa do processo de mundialização do capital em geral (CARVALHO, 1997b; 1994).

Mas a globalização não se constituiu numa simples continuidade ou prolongamento da internacionalização do capital, e sim em um novo processo em que passou a predominar uma nova forma de organização da produção e comercialização de mercadorias em escala mundial, onde a tendência é uniformizar as características dos processos produtivos das economias partícipes do mercado mundial e dos inúmeros mercados de consumo, ocasionando com que o mesmo tipo de produto seja comercializado simultaneamente nos quatro cantos do planeta, ao mesmo custo de produção, portanto, incorrendo com que o consumidor mundial seja influenciado para adquirir um produto made in world.

Na globalização também ocorre o predomínio do capital sobre o mercado mundial através de um sistema de rede interligada de intra e inter-firmas, que opera em diferentes estruturas de mercado, produzindo distintas linhas de produto e atuando ao mesmo tempo em diferentes órbitas de valorização do capital – comercial, industrial e financeira, não importan-

11 Não se deve pensar, entretanto, que este fato por si só foi capaz de estruturar de forma autônoma esse novo

momento de manifestação do capitalismo monopolista. Para tanto, foi também imprescindível a crise do padrão monetário internacional que se apoiava na política do dólar como moeda universal.

do se a valorização dos seus ativos irá ocorrer através da realização do capital produtivo ou por meio de inúmeras formas de capitalização financeira.

As grandes corporações capitalistas – em substituição às antigas empresas transnacionais ou multinacionais autônomas – congregam capitais centralizados sob novas formas de concentração, onde as decisões de investimento interagem globalmente e estão subordinadas à lógica do conjunto da organização e, portanto, tomam suas decisões por uma espécie de centro de comando financeiro mundial (BRAGA, 2000).

Por fim, na globalização, ocorre um novo paradigma tecnológico baseado em tecnologias da informação, que incorpora conhecimentos e informação em todos os processos de produção material e distribuição, e que por conta disso possibilita o desenvolvimento permanente de novos produtos e processos de caráter global, e também em um avanço gigantesco em alcance e escopo da esfera da circulação (CASTELLS, 2000), assim como uma lógica de exploração econômica que possibilita a incorporação dos espaços econômicos no contexto da economia global, classificando-os em blocos distintos conforme o seu grau de desenvolvimento e de contribuição para o processo de valorização do capital, da seguinte forma: espaços centrais, semiperiferia e países ou regiões periféricas (BECK, 1999).

Todavia, como assinala Chenais (1996, p. 33), o movimento da mundialização é excludente, isto é, com exceção daqueles países em desenvolvimento que já possuíam um certo grau de desenvolvimento industrial e por conta disso já conseguiram um lugar ao sol no âmbito do mercado mundial, os demais países em desenvolvimento estão sendo literalmente marginalizados, não suscitando e nem merecendo atenção por parte dos investimentos estrangeiros.

De qualquer forma, o mercado mundial está globalizado, e esse processo de integração econômica a nível mundial ocorre em grau sem precedentes. Isto gera movimentos

de interdependência entre as diversas economias nacionais e permite com que se afirme que mesmo a despeito da existência e autonomia das economias nacionais, a globalização ainda se sustenta e se reproduz em torno das economias nacionais. Aliás, este processo faz com que o espaço nacional se torne globalizado, constituindo-se como um sub-espaço global.

A competição desses sub-espaços pelo capital global acirra a concorrência entre os capitais centralizados, sujeitando-se os estados nacionais a aceitarem tanto o capital oriundo de aplicações financeiras quanto o capital direcionado para investimentos produtivos, muito embora o interesse maior, do ponto de vista da estratégia de desenvolvimento das economias nacionais, é captar recursos financeiros que se transformem em criação de produção social, pois esta forma internaliza benefícios fixos e potencialmente duradouros.

Todavia, o problema é que, em contraste, a lógica das corporações capitalistas transnacionais é garantir sob qualquer forma de conversibilidade a sua lucratividade, possuindo, portanto, elevada possibilidade de mobilização para investimentos, seja na esfera do comércio seja na esfera da indústria ou das finanças. Na verdade, em face da perspectiva de liquidez dos seus ativos, operam indistintamente como um capital em geral, não se fixando mais, de forma imobilizada, neste ou naquele setor, ramo, produto, mercado, ou então nesta ou naquela fronteira nacional ou regional (BRAGA, 2000; SAMPAIO, 1999).

O centro de comando financeiro opta por direcionar os investimentos pertencentes ao conjunto da corporação à perspectiva e à garantia de rentabilidade do seu capital oferecida ou propiciada por esta ou aquela economia nacional, vinculada a esta ou aquela órbita de valorização do capital no espaço nacional. Tanto faz para o capital a ser internalizado se o tipo de investimento a ser realizado se localize em quaisquer dos sub-espaços regionais internos.

O mais importante é que essa localização possua interligações estratégicas com o mercado mundial, portanto, que se constitua e assuma o caráter de sub-espacos regionais externos, ou então que, mesmo se restringindo ao mercado interno, constitua-se como uma

parte substancial do mercado mundial. Os investimentos dirigem-se para onde existem boas oportunidades de lucro a médio e longo prazos.

Portanto, no mundo globalizado qualquer região do mundo em desenvolvimento que propicie condições de rentabilidade mais elevada para as corporações capitalistas que operam a nível global, tende a receber investimentos dessas empresas, em magnitude e diversidade que nenhum espaço nacional está em condições de criar individualmente. Com isto, de forma contraditória e dialética, o global acaba se tornando negação do local, do regional e do nacional (FURTADO, 1999; SALLUM JÚNIOR, 1998).

Essas estratégias de desenvolvimento definidas globalmente pelas grandes corporações capitalistas subordinam não somente os estados nacionais enquanto nações como também os governos nacionais enquanto Estado na sua forma de regime político. As políticas econômicas implementadas pelas economias nacionais não podem mais se ater especificamente às estratégias de desenvolvimento nacional, mas têm que se compatibilizar com as demandas e as perspectivas de atração dos investimentos das corporações transnacionais.

Como são essas e não as nações que, em primeira instância, conduzem o processo de globalização (SAMPAIO, 1999, p. 955), o resultado é que as políticas econômicas nacionais acabam se tornando uma segmentação da política econômica global, e isto restringe a atuação e a forma de intervenção do Estado na economia nacional.

O Estado perde parte de sua capacidade de controle e comando sobre as atividades produtivas existentes na economia nacional, independente do seu caráter nacional ou transnacional, assim como sobre os fatores que afetam e influenciam o desenvolvimento e a própria manutenção dessas atividades no mercado nacional. Como forma de garantir as estratégias de desenvolvimento interno, as economias nacionais se lançam no mercado mundial competindo por um maior espaço, por uma maior fatia das disponibilidades

financeiras globais, sujeitando-se assim às regras e exigências das grandes corporações capitalistas (SALLUM JÚNIOR, 1998, p. 255).

Isto resulta com que qualquer setor, ramo ou produto que possa ser concebido como de “origem” nacional, independente da sua forma de constituição ou de produção, possa ser beneficiado por esses investimentos, não sendo mais deixado à vontade e aos interesses do Estado em conceber exclusivamente a sua própria estratégia de desenvolvimento nos moldes nacionais.

Em termos espaciais, resulta também com que quaisquer dos sub-espaços regionais se configurem no espaço adequado para internalização dos investimentos de capital, desestruturando-se assim a política interna de diferenciação dos espaços regionais. Com isto, é penalizado aquele sub-espaço regional que não apresenta as mesmas condições estruturais para uma melhor valorização do capital em relação ao(s) sub-espaço(s) mais desenvolvido(s). Esta realidade é mais crítica quando o espaço nacional está inserido em um processo de regionalização macroeconômica, pois os sub-espaços regionais internos agora se constituem em sub-espaços regionais externos, no âmbito da regionalização estabelecida. Nesta situação, a política interna de desenvolvimento está subordinada à política macroregional de desenvolvimento e, com isto, a competição pela localização dos investimentos ocorre simultaneamente nos âmbitos inter e intra-regionais, enquanto ainda sub-espaço da economia global.

Em função disso, práticas de incentivos especiais ou exclusivos para o desenvolvimento dos sub-espaços regionais internos não são mais aceitas no âmbito da regionalização em que as economias nacionais estão inseridas, pois se confrontam com as determinações impostas para os demais sub-espaços regionais externos. Em síntese, vão de encontro à lógica que sustenta a política macroregional de desenvolvimento e, principalmente, às determinações da globalização econômica.

Isto posto, o Estado, em uma economia inserida no mercado global, agora tem sobre si a responsabilidade de conduzir e criar as condições necessárias para a reprodução do capital em escala internacional, independente desse capital ser considerado nacional ou transnacional. Não cabe mais uma estratégia de desenvolvimento pensada para a construção ou reafirmação de um capitalismo nacional, como outrora ocorreu, mas sim uma estratégia de desenvolvimento global, no âmbito do mercado mundial. O Estado, portanto, ao redefinir a sua forma de atuação e ao assumir um novo papel do contexto do capitalismo contemporâneo, se internacionaliza, tornando-se também um ator global.

3 A POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL NO