Segundo Dalmo de Abreu Dallari, os elementos que integram o Estado Moderno são os seguintes: povo, território, soberania e finalidade. Neste particular, José Afonso da Silva (2007, p.97-98) define Estado e caracteriza os elementos que o integram da seguinte forma:
Estado é, na justa definição de Balladore Pallieri, uma ordenação que tem por fim específico e essencial a regulamentação global das relações sociais entre os membros de uma dada população sobre um dado território, na qual a palavra ordenação expressa a idéia de poder soberano, institucionalizado. O Estado, como se nota, constitui-se de quatro elementos essenciais: um poder soberano de um povo situado num território com certas finalidades. E a constituição, como dissemos
1 Dalmo de Abreu Dallari (2003, p.52-53), resume as várias teorias existentes acerca da origem do Estado em
três posições específicas: a) para muitos autores o Estado e a sociedade sempre existiram desde que o homem vive na Terra e nela passou a viver de forma integrada e socialmente, dotada de poder e com autoridade para estabelecer o comportamento de todo o grupo. Cita com defensores dessa tese Eduard Meyer (historiador) e Wilhelm Koppers (etnólogo). b) outros autores admitem que a sociedade humana existiu sem o Estado durante muito tempo, entretanto, o aparecimento do Estado deu-se de forma e em lugares diferentes de acordo com as peculiaridades concretas de cada lugar. c) a de autores que só admitem o aparecimento do Estado, desde que represente a sociedade política dotada de certas características marcantes. Entre os autores estrangeiros que defendem esta tese, cita Karl Schmidt e Balladore Pallieri e, entre os brasileiros, Ataliba Nogueira.
antes, é o conjunto de normas que organizam estes elementos constitutivos do Estado: povo, território, poder e fins.2
Dalmo de Abreu Dallari (2003, p.72), por sua vez, dá a seguinte definição de Estado Moderno:
Em face dessa variedade de posições, sem descer aos pormenores de cada teoria, vamos proceder à análise de quatro notas características - a soberania, o território, o povo e a finalidade -, cuja síntese nos conduzirá a um conceito de Estado que nos parece realista, porque considera todas as peculiaridades verificáveis no plano da realidade social.
O referido autor complementa:
[...] parece-nos que se poderá conceituar o Estado como a ordem jurídica soberana que tem por fim o bem comum de um povo situado em determinado território. Nesse conceito se acham presentes todos os elementos que compõem o Estado, e só esses elementos. A noção de poder está implícita na de soberania, que, no entanto, é referida como característica da própria ordem jurídica. A politicidade do Estado é afirmada na referência expressa ao bem comum, com a vinculação deste a um certo povo e, finalmente, a territorialidade, limitadora da ação jurídica e política do Estado, está presente na menção a determinado território. (DALLARI, 2003, p. 118).
1.1.1
Os elementos integrantes do Estado Moderno
O Estado Moderno caracteriza-se pela existência dos seguintes elementos constitutivos:
a) Povo - parte integrante do Estado Moderno eis que sem esse elemento não é possível
existir o Estado, pois é para o povo que o Estado é constituído, segundo acentua Dallari (2003, p.95)3. Sua relevância como elemento do Estado se dá também em face de residir no povo a soberania popular e a condição de cidadão para efeito de participar nas decisões do Estado, conforme acentua o referido autor:
Deve-se compreender como povo o conjunto dos indivíduos que, através de um momento jurídico, se unem para constituir o Estado, estabelecendo com este um vínculo jurídico de caráter permanente, participando da formação da vontade do Estado e do exercício do poder soberano. Essa participação a este exercício podem ser subordinados, por motivos de ordem prática, ao atendimento de certas condições objetivas, que asseguram a plena aptidão do indivíduo. Todos os que se integram no Estado, através da vinculação jurídica permanente, fixada no momento jurídico da unificação e da constituição do Estado, adquirem a condição de cidadãos, podendo- se, assim, conceituar o povo como o conjunto dos cidadãos do Estado. (DALLARI, 2003, p.99-100).
2 O Estado moderno segundo o jurista Dalmo de Abreu Dallari (2003), compõe-se de quatro elementos: povo,
território, soberania e finalidade.
3 “É unânime a aceitação da necessidade do elemento pessoal para a constituição e a existência do Estado, uma
vez que sem ele não é possível haver Estado e é para ele que o Estado se forma. Há, todavia, quem designe como população esse elemento pessoal. Ora, população é mera expressão numérica, demográfica, ou econômica, segundo Marcello Caetano, que abrange o conjunto das pessoas que vivam no território de um Estado ou mesmo que se achem nele temporariamente.” (DALLARI, 2003, p.95).
b) Território - constitui-se na base física, na extensão territorial sobre a qual o Estado
exerce sua jurisdição ou soberania. Sem a caracterização desse elemento é impossível conceber a existência do Estado, como bem salienta Darcy Azambuja (1994, p.36), nos seguintes termos:
O segundo elemento essencial à existência do Estado é o território, a base física, a porção do globo por ele ocupada, que serve de limite à sua jurisdição e lhe fornece recursos materiais. O território é o país propriamente dito, e portanto país não se confunde com povo ou nação, e não é sinônimo de Estado, do qual constitui apenas um elemento.
Sem território não pode haver Estado. Os judeus são uma nação, mas não formavam um Estado, ainda quando estivessem organizados sob uma autoridade única, porque não possuíam território.4
c) Soberania - a soberania é poder supremo ou incontrastável do Estado, que se
manifesta de duas formas: externa e internamente. No plano externo a soberania se expressa quando o Estado, em suas relações internacionais, põe-se em pé de igualdade com os demais Estados, não só do ponto de vista político, mas também jurídico e econômico. No plano interno a soberania se apresenta como o poder que tem o Estado de infligir sobre as pessoas ou cidadãos que habitam seu território o ordenamento jurídico ao qual todos devem obediência. Neste particular, Darcy Azambuja (1994, p.50) define a soberania do Estado da seguinte forma:
A soberania do Estado é considerada geralmente sob dois aspectos:
A soberania interna quer dizer que o poder do Estado, nas leis e ordens que edita para todos os indivíduos que habitam seu território e as sociedades formadas por esses indivíduos, predomina sem contraste, não pode ser limitado por nenhum outro poder. O termo soberania significa, portanto, que o poder do Estado é o mais alto existente dentro do Estado, é a summa potestas, a potestade.
A soberania externa significa que, nas relações recíprocas entre os Estados, não há subordinação nem dependência, e sim igualdade.
Esses dois aspectos não constituem duas soberanias; a soberania é uma só e se resume em que, do ponto de vista jurídico unicamente, é um poder independente em relação aos demais Estados e supremo dentro do próprio Estado.
A soberania sob o ponto de vista apenas político, expressando a plena eficácia do poder e conceituada como o poder incontrastável de querer coercitivamente e de fixar as competências, conforme acentua Dalmo de Abreu Dallari (2003, p.79-80), baseada no poder do mais forte, estimulou o egoísmo entre grandes Estados, na medida em que se afirmavam soberanos somente aqueles Estados que tinham força para exercer a soberania nesses moldes, com a prevalência da força, portanto.
4 Apesar dos conflitos que ainda hoje se travam entre judeus e palestinos no Oriente Médio o Estado de Israel foi
Acentua ainda o referido autor que a soberania não pode ser entendida apenas sob o ponto de vista político, mas também sob o enfoque jurídico, pois uma concepção de soberania sob o aspecto jurídico entendida como o poder de decidir em última instância sobre a atributividade das normas diz respeito à própria eficácia do direito. E conclui:
Como fica evidente, embora continuando a ser uma expressão de poder, a soberania é poder jurídico utilizado para fins jurídicos. Partindo do pressuposto de que todos os atos dos Estados são passíveis de enquadramento jurídico, tem-se como soberano o poder que decide qual a regra jurídica aplicável em cada caso, podendo, inclusive, negar a juridicidade da norma. Segundo essa concepção não há Estados mais fortes ou mais fracos, uma vez que para todos a noção de direito é a mesma. A grande vantagem dessa conceituação jurídica é que mesmo os atos praticados pelos Estados mais fortes podem ser qualificados como antijurídicos, permitindo e favorecendo a reação de todos os demais Estados. (DALLARI, 2003, p.80) (grifou- se).
d) Finalidade - a finalidade constitui-se no objetivo maior do Estado, que é, sem dúvida,
prestar o bem público.
Na lição de Dalmo de Abreu Dallari (2003, p.107), a finalidade do Estado é definida como:
[...] Assim, pois, pode-se concluir que o fim do Estado é o bem comum, entendido este como o conceituou o Papa JOÃO XXIII, ou seja, o conjunto de todas as condições de vida social que consitam e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana. Mas se essa mesma finalidade foi atribuída à sociedade humana no seu todo, não há diferença entre ela e o Estado? Na verdade, existe uma diferença fundamental, que qualifica a finalidade do Estado: este busca o bem comum de um povo, situado em determinado território. Assim, pois, o desenvolvimento integral da personalidade dos integrantes desse povo é que deve ser o seu objetivo, o que determina uma concepção particular de bem comum para cada Estado, em função das peculiaridades de cada povo.
Procedida, assim, a análise do Estado Moderno e seus elementos constitutivos, resta agora enquadrar o Estado brasileiro dentro desse paradigma.