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5 A CRIAÇÃO DA ESCOLA NACIONAL E A EMERGÊNCIA DO

5.4 O ESTADO NACIONAL E A CONSTITUIÇÃO DE 1937

A condição de aparecimento de um documento educacional como a Reforma Francisco Campos é explicitada pelo ministro em sua obra O Estado Nacional: sua estrutura, seu

conteúdo ideológico (1940). Com o Estado Novo, o Brasil inaugura uma nova forma de governo

pela força, com punições severas para aqueles que não aceitam o processo de escolarização. E abre espaço para um novo horizonte de manipulação das massas pelo direcionamento fascista que dá à educação do país com a escolha de Francisco Campos para os Ministérios da Educação, Saúde e Justiça.

Francisco Campos, investido de todo o poder que o controle desses três ministérios lhe puderam dar, escreve uma nova Constituição em 1937, de orientação fascista e inspirada na constituição polonesa, por isso ela fica conhecida no país como a “polaca”. No entanto o documento que interessa a esse estudo é a obra O Estado Nacional, na qual Campos discorre sobre a educação das massas. Campos colocar-se-á não apenas como um dos principais seguidores das políticas de Vargas, mas como mentor das reformas educativas a serem implementadas. Nessa prerrogativa, utiliza-se de o Estado Nacional, para tentar convencer seus leitores da legitimidade do então presidente Getúlio Vargas. Apesar de se haver instalado um regime ditatorial no país, segundo Campos isto só se fez possível em consonância com a vontade do povo, pois o presidente, “só poderá exercer as enormes prerrogativas da presidência se contar com o apoio e o prestígio do povo, precisando, para isto, de apelar freqüentemente para a opinião, e tendo, assim, o seu mandato um caráter eminentemente democrático e popular155”.

Ao discorrer sobre a educação pública156 reconhecia a necessidade de se fazer compatibilizar o fortalecimento da nação com os interesses individuais do Estado. Isto posto, faz duras críticas às atividades educativas em vigor no país até então, afirmando que a educação brasileira existente não conseguia cumprir nenhum dos objetivos considerados por ele como finalidades da educação: transmissão de conhecimentos; treinamento profissional; educação moral e cívica.

155 CAMPOS, 2001, p.60.

156

Nesse projeto de educação nacional, Campos considera três termos-chave, educação, ensino e escola, e define sua concepção de cada um. Por educação, o ministro entende o conjunto de normas que balizam as ações educativas. A escola “integra-se no sentido orgânico e construtivo da coletividade, não se limitando ao simples fornecimento de conceitos e noções, mas abrangendo a formação dos novos cidadãos, de acordo com os verdadeiros interesses nacionais”. E o ensino é o instrumento que garante “a continuidade da Pátria e dos conceitos cívicos e morais. Ao mesmo tempo, prepara as novas gerações, pelo treinamento físico, para uma vida sã, e cuida ainda de dar-lhes as possibilidades de prover a essa vida com as aptidões de trabalho, desenvolvidas pelo ensino profissional” (CAMPOS, 2001, p.66).

O que chamamos de educação tem-se limitado à transmissão de processos e de técnicas intelectuais e, em escala ainda muito reduzida, ao treinamento para determinadas profissões. A educação moral e cívica tem sido antes uma ocasião para retórica, reduzindo-se a dissertações relativas à formação do caráter, sem, contudo precisar o que se entende de modo definido por essa expressão de contornos indeterminados. Se há alguma finalidade além da aquisição de conhecimentos e de técnicas, é uma questão a que o nosso sistema educativo não responde, porque não a julga incluída no seu syllabus. (CAMPOS, 2001, p.65).

A defesa do Ministro se concentra no que ele chama de uma “educação para o que der e vier157”, pois devido à configuração político-administrativa conflitante em que o país se encontra, a solução seria investir em uma educação que adaptasse os indivíduos às necessidades que surgissem pelo caminho e que não podiam ser previstas. Para Campos, a “educação não tem o seu fim em si mesma; é um processo destinado a servir a certos valores e pressupõe, portanto, a existência de valores sobre alguns dos quais a discussão não pode ser admitida158”.

Para o ministro, o ensino deveria abarcar essa ‘liberdade’ que a incerteza do futuro traz, sem com isso perder a funcionalidade de uma educação proposta para o desenvolvimento nacional, pois seria necessário rigor metodológico e disciplinar para preparar os indivíduos ao maior número de situações possíveis. “A liberdade de pensamento e de ensino não pode ser confundida com a ausência de fins sociais postulados à educação a não ser que a sociedade humana fosse confundida com uma academia de anarquistas, reduzidos a uma vida puramente intelectual e discursiva159”.

Os fins sociais de que Campos fala acima referem-se à Educação Popular, porque, segundo ele, seria uma obrigação do Estado preparar as classes menos favorecidas por meio da obrigatoriedade do ensino para a inserção no mercado de trabalho. A educação das classes populares representaria a justiça do Estado para com os menos favorecidos, que seriam equiparados aos demais por meio da padronização do ensino, fator que garantiria a igualdade de oportunidades a todos os cidadãos. E, também solidário a esta classe, fornecendo ensino gratuito para o que não possuíam condições de arcar com as despesas escolares.

A todos os brasileiros oferece as mesmas oportunidades e a todos assegura instrução adequada às suas faculdades, aptidões e tendências vocacionais. A igualdade de educação não é apenas proclamada, mas garantida pelo Estado, que toma a seu cargo, como dever essencial, o ensino, em todos os graus, à infância e à juventude que não tiveram recursos necessários para a matrícula e freqüência em instituições particulares. Esse sentido democrático da educação assume aspecto social quando a gratuidade do ensino não exclui o dever de solidariedade dos menos para com os mais necessitados, de modo que aqueles contribuam para o custeio do ensino destes, através das caixas As classes menos favorecidas têm ainda a proteção do Estado para a

157 CAMPOS, 2001, p.14. 158CAMPOS, 2001, p.65 159CAMPOS, 2001, p.65.

aquisição das técnicas e o cultivo das vocações úteis e produtivas. (CAMPOS, 2001, p.67).

Além de um dever para com o povo, a educação escolar desejada pelo ministro deveria conceder ao Estado a primazia de definir as diretrizes nacionais sobre as quais o ensino nacional deveria se desenvolver. São estas a “formação física, intelectual e moral da infância e da juventude160”.

A Constituição prescreve a obrigatoriedade da educação física, do ensino cívico e de trabalhos manuais, e atribui ao Estado, como seu primeiro dever em matéria educativa, o ensino prevocacional e profissional, destinado às classes menos favorecidas, cabendo-lhe ainda promover a disciplina moral e o adestramento da juventude, de maneira a prepará-la ao cumprimento de suas obrigações para com a economia e a defesa da Nação (CAMPOS, 2001, p.67).

A postura do Estado Novo para com os populares, as massas de necessitados que Getúlio Vargas e Francisco Campos querem direcionar para o trabalho assalariado, inaugura um estilo de atuação pela imposição. Esta educação “livre” é apenas uma abertura de espaço para os exercícios de poder do Estado, visto que a educação proposta por Campos precisa de uma escola nacionalista que conecte as massas a um ideal de progresso e as mantenha constantemente mobilizadas; conectadas com as necessidades da indústria em desenvolvimento; preocupada com a instabilidade política europeia e com a necessidade de dispor de corpos saudáveis e preparados por uma educação física de caráter olímpico e competitivo para o exercício da guerra; com frequência obrigatória. Mas o fundamental na escola estatal é o disciplinamento das massas para a obediência, visto que o ensino escolar serve para a adaptação dos indivíduos ao regime totalitarista.

As massas encontram-se sob a fascinação da personalidade carismática. Esta é o centro da integração política. Quanto mais volumosas e ativas as massas, tanto mais a integração política só se torna possível mediante o ditado de uma vontade pessoal. O regime político das massas é o da ditadura. A única forma natural de expressão da vontade das massas é o plebiscito, isto é, voto-aclamação, apelo, antes do que escolha. Não o voto democrático, expressão relativista e cética de preferência, de simpatia, do pode ser que sim pode ser que não, mas a forma unívoca, que não admite alternativas, e que traduz a atitude da vontade mobilizada para a guerra (CAMPOS, 2001, p. 23).

Ainda sobre O Estado Nacional e as massas, Campos afirma que um Estado autoritário é necessário às massas, pois o “princípio de liberdade resultou no fortalecimento dos fortes e enfraquecimento dos mais fracos. O princípio de liberdade não garantiu a ninguém o direito ao trabalho, à educação, à segurança161”. Isso porque a necessidade de trabalho, educação e

160CAMPOS, 2001, P.66. 161 CAMPOS, 2001, p. 23

segurança é uma criação do Estado a ser exercida como direito pelas massas. Por ora, interessa ressaltar que, a este aspecto contraditório do governo de Vargas, juntar-se-iam muitos outros.