CAPÍTULO II – A COMPLEXIDADE NAS RELAÇÕES QUE ENVOLVEM O
2.4 O Estado Social ou o Estado de Bem-Estar Social
O Estado social, conforme salienta Santos (2012, s/p), é resultado de um compromisso entre as classes trabalhadoras e os detentores do capital, sendo que este compromisso foi a resposta a uma recente história de ―guerras destrutivas, lutas sociais violentas e crises econômicas graves‖. O estudioso destaca ainda que o tipo de estado, que designa como social, teve como concretização países europeus mais desenvolvidos, depois da segunda guerra mundial. Especifica que, nas ciências sociais e ―consoante as filiações teóricas, as designações mais comuns têm sido a de Estado Providência ou Estado de Bem Estar-Social‖.
Para Santos, nos termos deste pacto ou ―compromisso‖, os capitalistas
[...] renunciam a parte da sua autonomia enquanto proprietários dos fatores de produção (aceitam negociar com os trabalhadores temas que antes lhes pertenciam em exclusividade) e a parte dos seus lucros no curto prazo (aceitam ser mais fortemente tributados), enquanto os trabalhadores renunciam às suas reivindicações mais radicais de subversão da economia capitalista (o socialismo e, para o atingir, a agitação social sem condições face à injustiça da exploração do homem pelo homem) (SANTOS, 2012, s/p).
Sob esse enfoque, o Estado ―tutela‖ a ação e a negociação coletiva entre o capital e o trabalho e transforma os recursos financeiros, que provém da tributação do capital privado e de rendimentos salarias, em ―‗capital social‘‖, em políticas públicas e sociais. Manifestam-se, assim, as políticas sociais em forte intervencionismo estatal, na produção de bens e serviços que aumentam a ―produtividade do trabalho e a rentabilidade do capital‖. Trata-se de um modelo de Estado forte, o qual se identifica na etapa monopolista do capitalismo. Neste modelo,
o Estado ganha força, a partir da qual se afirma o Estado-nação, assumindo uma intervenção direta na vida social, em que adotadas políticas de cunho social. Foi exatamente quando a crise do capitalismo se instalou que surgiu a estratégia de reordenação do capital, de enfrentamento desta crise da hegemonia financeira, por meio da instituição do Estado de bem-estar social ou Keynesiano.
Oliveira assegura, em relação a esta questão, que:
[...] o que se chama Welfare State, como consequência das políticas originalmente anticíclicas de teorização keynesiana, constituiu-se no padrão de financiamento público da economia capitalista. Este pode ser sintetizado na sistematização de uma esfera pública onde, a partir de regras universais e pactadas, o fundo público, em suas diversas formas, passou a ser o pressuposto do financiamento da acumulação de capital, de um lado, e, de outro, do financiamento da reprodução da força de trabalho atingindo globalmente toda a população por meio dos gastos sociais. A medicina socializada, a educação universal gratuita e obrigatória, a previdência social, o seguro desemprego, os subsídios para transporte, os benefícios familiares (quotas para auxílio-habitação, salário família) e, no extremo desse espectro, subsídios para o lazer, favorecendo desde as classes médias até o assalariado de nível mais baixo, são seus exemplos. A descrição das diversas formas de financiamento para a acumulação de capital seria muito mais longa: inclui desde os recursos para ciência e tecnologia, passa pelos diversos subsídios para a produção, sustentando a competitividade das exportações, vai através dos juros subsidiados para setores de ponta, toma em muitos países a forma de vastos e poderosos setores estatais produtivos, cristaliza-se numa ampla militarização (as indústrias e os gastos em armamentos), sustenta agricultura (o financiamento dos excedentes agrícolas dos Estados Unidos e a chamada ‗Europa Verde‘ da CEE), e o mercado financeiro e de capitais através dos bancos e/ou fundos estatais, pela utilização de ações de empresas estatais, como blue chips, intervém na circulação monetária de excedentes pelo open market, mantém a valorização dos capitais pela via da dívida pública, etc. (OLIVEIRA, 1999, p.19-20).
Esta conjuntura não permaneceu por muito tempo; pois, além do controle macroeconômico estatal e centralizado, fundamentado no crescimento e no emprego, numerosas limitações foram impostas ―sobre as prerrogativas das finanças: as regulamentações da sua atividade nacional e internacional (notadamente através dos acordos assinados em Bretton Woods em 1944)‖, o reconhecimento parcial do direito ao trabalho, inscrito em 1948 na legislação estadunidense e o desenvolvimento do Estado providência (CHESNAIS, 1996, p. 32).
Este exemplo de Estado, porém, à medida que avançou com políticas sociais, e geração de empregos, fez com que a classe trabalhadora se organizasse e que o sindicalismo se tornasse pujante, permitindo algumas conquistas, especialmente, em relação às melhorias nas condições de trabalho.
Santos assegura que este modelo de Estado e de capitalismo começou a ser ―atacado a partir dos anos 1970 até a seu cume nos anos 1990, por um modelo
alternativo designado por neoliberalismo‖. O Estado social aparece como solução para os problemas do mercado.
Assim como sublinha Bianchetti (2001, p. 78) esta ideia do ―bem comum‖ é bastante ―limitada na concepção neoliberal, já que existe uma dificuldade de estabelecê-lo dado que na sociedade capitalista as relações são de competências entre os interesses individuais‖ e, nesta condição, a ―única garantia deve ser a igualdade jurídica dos atores‖.
O pensamento liberal desenvolveu a teoria do Estado Liberal a partir dos direitos individuais e na ação do Estado de acordo com o ―bem comum‖ a fim de controlar os homens possibilitando que seus interesses se sobreponham às paixões (CARNOY, 1988). O Estado com esta concepção, conforme Bianchetti (2001, p. 78), ―como espaço artificial de articulação das relações sociais manifesta-se através do governo da sociedade‖. Entretanto, mantém um ―papel periférico na relação com o mercado, que é quem, na realidade, produz a dinâmica social‖. Neste sentido, enfatiza Bianchetti que o Estado, na sociedade liberal, só atua quando se encontram em perigo seus fundamentos.
A partir dessa afirmação de Bianchetti, compreende-se o porquê do Estado de bem-estar social no período pós-guerra, diante da crise profunda do capitalismo. O interesse, neste caso, era o de salvaguardar os interesses capitalistas e evitar um colapso maior, tendo em vista as dificuldades pelas quais passavam os trabalhadores, que poderiam se revoltar em massa e provocar um processo de transformação mais profundo. Destarte, os neoliberais reconhecem ―a intervenção do Estado na economia quando esta tem o interesse de impedir ou retirá-lo das atividades que, segundo sua interpretação, não correspondam com a sua natureza‖ (BIANCHETTI, 2001, p. 82).
O Estado, neste enfoque, encontra apoio entre os vários grupos, sobretudo em virtude da ―proteção‖ que ele fornece, sustentando juridicamente e garantindo a estrutura estabelecida da divisão do trabalho (MÉSZÁROS, 2010, p. 353-354). O autor cita algumas ações do Estado neste sentido: o salário mínimo; a legislação da seguridade social; a criação de tarifas protecionistas e outras barreiras nacionais. Além disso, mantém a administração interna de relações de forças contra os excessos à participação em empreendimentos internacionais que assegurem maior vantagem à classe dominante, que pode conceber vantagens relativas à força de trabalho nacional.
As políticas públicas, características deste tipo de Estado, como destaca Santos (2012, s/p),
[...]decorrem dos direitos econômicos e sociais dos trabalhadores e dos cidadãos em geral (população ativa efetiva, crianças, jovens, desempregados, idosos, reformados, ―domésticas‖, produtores autônomos). Traduzem-se em despesas em bens e serviços consumidos pelos cidadãos gratuitamente ou a preços subsidiados: educação, saúde, serviços sociais, habitação, transportes urbanos, atividades culturais, atividades de tempos livres.
Algumas das políticas sociais, ainda segundo Santos, envolvem transferências de pagamentos de várias ordens financiadas por contribuições dos trabalhadores ou por impostos no âmbito da Seguridade Social. Estas políticas, de uma maneira geral, contribuem para atenuar os conflitos latentes entre as diferentes classes sociais e são permeadas pela ação do Estado. Lessa (2007, p. 291) afirma que o Estado de bem-estar social, longe de significar a democratização, representou, sim, uma ―intensificação inédita das alienações que brotam do capital‖. Reafirma-se, com isso, que não houve alteração nas relações capitalistas no Estado burguês e nem nas classes sociais com este modelo de Estado.
Convém destacar, ainda que de uma maneira geral, as políticas adotadas no pós-guerra, tanto de Keynes quanto de Roosevelt, são formas de precaução contra o avanço do comunismo soviético e do comunismo chinês. Conforme Ribeiro (2013), os recursos por meio dos quais foram mantidas as políticas de bem-estar na Europa e EUA obtiveram-se com o sacrifício de populações latino-americanas, principalmente do Brasil, Argentina e Chile.
Ribeiro assegura que na mesma época e mesmo nos anos seguintes se manifestaram os liberais conservadores que passaram a impor seu liberalismo reacionário coma crise dos anos 1970 sob o comando de Tatcher e Reagan, momento em que instituições como o Banco Mundial e a UNESCO direcionam suas políticas para controlar a educação nos países subdesenvolvidos.
Ao mesmo tempo em que estas ações se efetivam, encaminha-se o processo de afastamento do Estado da economia e das políticas de proteção dos direitos humanos, com a instalação do Estado Gerencial, como pode ser visto na sequencia deste trabalho.