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3.5. Futuríveis do Estado

3.5.2. O Estado transmoderno

A diminuição do poder do Estado, internamente sobre o com- portamento dos seus súditos e externamente perante os parceiros mais fortes do cenário global, equivale ao que COELHO chama de descredenciamento do Estado como unidade de referência.70 6 8 VIEIRA. op. cit., p.107-108.

6 9 VIEIRA. Ibidem, p. 109.

1 5 9 1 5 9 1 5 9 1 5 9 1 5 9 Diante de forças que são divergentes, o Estado a todo o mo- mento é chamado a tomar decisões que afetam seus interesses. Esta participação estratégica é legitimada pela representação política que lhe confere a sociedade.

O Estado perde parte do poder, perde o poder absoluto. Mas o descredenciamento, como temos sustentado, não é total. Há o caso, excepcional, como já referenciado, da Argentina, no qual o descredenciamento da representação política do Estado chega a ser quase completo.

Assim, a afirmação de COELHO deve ser entendida em outra perspectiva: “quando os Estados se abrem para a economia mundi- al, começam a perder uma de suas razões de ser, identificadas desde sua origem, à defesa de sua própria soberania”, pode ser submetido a um deslocamento referencial que, mantendo a principiologia da sentença, é atualizado para uma visão não indolente de globalização. É plausível considerar que todo Estado nacional, para realizar sua função de representação política, de defesa da cidadania, e in- vestimento no bem-estar social, necessita hoje, prioritariamente, es- tar inserido na economia mundial. E esta inserção não deve ser na condição de Estado dependente, periférico, microdesenvolvido, ex- portador de mão-de-obra barata ou de matéria-prima bruta.

A defesa da própria soberania, é certo afirmar, constitui-se em uma das razões de ser do Estado. Excetuando a defesa da sobe- rania através das armas, como fazem os países que estão em guer- ra, a soberania é defendida através de acordos, tratados e conven- ções internacionais.

Os locais onde se decidem as questões que afetam a soberania dos povos são aqueles que compõem o que se chama de cenário in- ternacional. São pontos mutantes de decisão: ora estão na ONU, ora na OMC, ora na OTAN, ora na UE ou na ALCA, ou ainda em Kuala Lanpur, Davos ou Porto Alegre.

É nesse ambiente, inserido na grande reglobalização, que ope- ram as tecnologias de informação, as redes de conexão, os meios de comunicação, as transações em tempo real.

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Os paises, os governos, as representações políticas sabem falar essa linguagem? Podem traduzir em normas e regulamentos os seus interesses nacionais de tal forma que sejam aceitos por todos? Ou serão a parte fraca, a parte sem voz no cenário global?

Com essa leitura, amplia-se e renova-se a noção de soberania, numa visão transmoderna, pois como assevera COELHO, “como esta organi- zação de certa forma submete o direito do Estado, assiste-se à emergência de nova forma de pluralismo jurídico [...] transnacional, de caráter institucional e também virtual, conseqüência da transnacionalização dos processos decisórios e das novas formas do direito transmoderno”.71

Neste palco global há uma tensão permanente entre as possibi- lidades de intervenção dos governos nacionais e as diretrizes econô- micas de grandes empresas, fundos de pensão, governos estrangei- ros, entidades governamentais ou não-governamentais de caráter supranacional, organizações e agências internacionais.

Mas é importante fazer o registro de que a noção de soberania compartilhada vale não só para o Estado nacional mas também para os demais centros de poder, locais ou globais, que se articulam com o Estado. Em ambientes de negociação, com regras consensuadas, o desequilíbrio em favor de um dos pólos de decisão rompe as alianças e instala a crise de poder.

Mesmo um Estado forte como os EUA encontra dificuldades de impor uma decisão unilateral, como a invasão do Iraque, por exemplo. Por força das circunstâncias (mobilização nacional, senti- mento patriótico, combate ao terrorismo, poderio militar), é possível que as alianças sejam rompidas e a invasão se consume. Mas esta é uma política de risco, de exceção, que amplia o grau de tensão nas fontes decisórias globais, com reflexo a médio prazo.

Idêntico raciocínio pode ser aplicado para as grandes compa- nhias transnacionais, que empregam milhares de pessoas e instalam suas unidades fabris em outros Estados.

Por isso deve ser lida com ressalva a seguinte afirmação de COELHO, onde ele sustenta que o Estado do futuro tem a forma de uma empresa multinacional, transglobal:

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As grandes empresas multinacionais hoje configuram novas formas de articulação dos mesmos elementos que articulam os Estados, os quais se sobrepõem a Estados menores e até controlam seu governo e sua economia. Uma grande empresa, hoje, com milhares de empregados espalhados pelo mundo, cujo capital se despersonalizou e cuja administração é entregue a colegiados eleitos em assembléias grais, só não constitui Estado porque a concepção juridicista do Estado não o permite [...] Pode-se, portanto conje- turar que a organização social empresarial representa hoje uma forma transmoderna engendrada para suceder o Estado capitalista burguês, mas coerente com a nova ordem mundial imposta pelo neocapitalismo virtual.72

Apesar desta ressalva, na medida em que a tese do Estado- empresa não se mostra como possibilidade teórica ou prática, os ele- mentos que COELHO levanta do cenário onde os conflitos globais se deslindam são relevantes para o entendimento da globalização.

Mesmo que esse espaço seja disputado por diversos centros de poder, de produção científica e tecnológica, situado em diversas partes do mundo, em diversos nós da rede, é principalmente nos Estados Unidos da América que se concentra a pesquisa em ciência básica, em biotecnologia, em microprocessamento, desenvolvimento e sobe- rania.73