3 AS FUNÇÕES SOCIAS DA PROPRIEDADE E DA CIDADE NO BAIRRO DO
4.1 O IPTU PROGRESSIVO NO TEMPO
4.1.2 O Estatuto da Cidade
Incialmente, cabe destacar que o Projeto de Lei n° 775/83 – Desenvolvimento Urbano (mencionado no Capítulo 02) se constituiu uma importante ferramenta que serviu de base teórica, jurídica e urbanística para gestação do Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001), este ainda precedido pelo Projeto de Lei 2.191/1989 (já com as adaptações da Constituição Federal de 1988). A partir da Constituição de 1988, com regulamentação do capítulo “Da Política Urbana” pelo Congresso Nacional, os municípios passaram a ter maior capacidade política e financeira para propiciar políticas públicas, em especial a partir dos anos 1990, quando da formação das constituições municipais.
A rede de luta pela reforma urbana foi ampliada na década de 1990 com o Fórum Nacional de Participação Popular, a Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental, entre outros, em razão da necessária integração de direitos e deveres que incluíssem o direito ao trabalho, ao saneamento, ao transporte, ao acesso a equipamentos públicos etc.
Dentre as possibilidades de regulamentação, em 1990, foi proposto o Projeto de Lei nº 5.788, do Senador Pompeu de Sousa. O projeto possuía elementos requisitados pelo FNRU: “o direito coletivo à cidade, a coordenação do processo de ocupação da terra urbana, a função social
80 Seguindo instruções do Caderno Técnico do Ministério das Cidades sobre IPTU (CESARE; FERNANDES, 2017,
p. 37), idealmente, recomenda-se que as alíquotas (porcentagem que recai sobre a expressão de riqueza - base de cálculo) ordinárias sejam extraídas da relação entre a receita esperada, considerando quais despesas públicas ou o quanto do orçamento municipal será financiado por meio do imposto, e a sua base cálculo, isto é, soma do valor cadastral dos imóveis sujeitos à tributação: alíquota (%) = (gastos a financiar IPTU/soma do valor venal) * 100 , em que “gastos a financiar IPTU” é o valor em R$ dos gastos municipais a serem financiados por intermédio do IPTU, que equivale a um percentual dos gastos municipais previstos; e “soma do valor venal” é o somatório do valor venal dos imóveis cadastrados sujeitos à tributação.
da propriedade, a taxação progressiva da propriedade urbana e a demanda de Planos Diretores Municipais nas cidades com mais de 20 mil habitantes” (AVRITZER, 2010, p. 209). Entretanto, o projeto inicial deixava de lado importantes questões, como participação democrática na gestão das cidades.
Após anos de suspensão e diversos esforços, em 2001, o projeto foi transformado no Estatuto da Cidade, regulamentando os arts. 182 e 183 da Constituição Federal e influenciando o Código Civil de 2002. Ele vem superar quase “um século de atraso se comparado às experiências europeias no que diz respeito ao uso de instrumentos urbanísticos para regular socialmente o mercado imobiliário e fazer políticas de compensação social através da política urbana” (QUINTO JUNIOR, 2003, p. 193).
Como diretrizes gerais de ordenamento do pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana (art. 2º), destacam-se pelo maior interesse ao debate proposto:
I - garantia do direito a cidades sustentáveis, entendido como o direito à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infraestrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações;
IV - planejamento do desenvolvimento das cidades, da distribuição espacial da população e das atividades econômicas do Município e do território sob sua área de influência, de modo a evitar e corrigir as distorções do crescimento urbano e seus efeitos negativos sobre o meio ambiente;
V - oferta de equipamentos urbanos e comunitários, transporte e serviços públicos adequados aos interesses e necessidades da população e às características locais; VI - ordenação e controle do uso do solo, de forma a evitar:
a) a utilização inadequada dos imóveis urbanos;
b) a proximidade de usos incompatíveis ou inconvenientes;
c) o parcelamento do solo, a edificação ou o uso excessivos ou inadequados em relação à infraestrutura urbana;
d) [...]
e) a retenção especulativa de imóvel urbano, que resulte na sua subutilização ou não utilização;
f) a deterioração das áreas urbanizadas;
IX - justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes do processo de urbanização;
X - adequação dos instrumentos de política econômica, tributária e financeira e dos gastos públicos aos objetivos do desenvolvimento urbano, de modo a privilegiar os investimentos geradores de bem-estar geral e a fruição dos bens pelos diferentes segmentos sociais;
XI - recuperação dos investimentos do Poder Público de que tenha resultado a valorização de imóveis urbanos;
XII - proteção, preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído, do patrimônio cultural, histórico, artístico, paisagístico e arqueológico;
XVII - estímulo à utilização, nos parcelamentos do solo e nas edificações urbanas, de sistemas operacionais, padrões construtivos e aportes tecnológicos que objetivem a redução de impactos ambientais e a economia de recursos naturais. XVIII - tratamento prioritário às obras e edificações de infraestrutura de energia, telecomunicações, abastecimento de água e saneamento.
E pelo art. 39 do Estatuto da Cidade, determina-se que a função social da propriedade urbana é cumprida quando se atende aos requisitos fundamentais de “ordenação da cidade expressas no Plano Diretor, assegurando o atendimento das necessidades dos cidadãos quanto à qualidade de vida, à justiça social e ao desenvolvimento das atividades econômicas”, em observação aos mandamentos do art. 2º da mesma lei.
Para cumprir com tais diretrizes, o Estatuto da Cidade prevê ferramentas diversas, entre eles as penalidades sucessivas ao proprietário do solo urbano não edificado, subutilizado ou não utilizado -ou seja, que descumpre a função social da propriedade e da cidade - sendo tais sanções já previstas na Constituição Federal de 1988 (art. 182, §4º, I, II e III): Parcelamento, Edificação e Utilização Compulsórios (PEUC); o IPTU Progressivo no Tempo; e a Desapropriação com Pagamento em Títulos da Dívida Pública. Juntas, elas representam uma potencialidade em transformação do Estatuto da Cidade em um instrumento de “(re)organização da ocupação do espaço urbano e, portanto, tem possibilidades de servir como meio de realização do direito fundamental à moradia e a uma existência digna” (BUFFON, 2009, p. 240)