Criado em julho do ano de 1990, o ECA se constitui em um conjunto de normas com a função de ratificar e de regulamentar a Constituição Federal brasileira, no que diz respeito aos direitos da infância e a adolescência. Por conseguinte, ela contém de forma incisiva e esclarecedora os itens que a sociedade deve levar em conta para se proteger integralmente os cidadãos até os dezoito anos de idade, como consta em seu Artigo 3ᵒ:
A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando- se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de
lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. (BRASIL, 1990)
A partir dessa premissa, é necessário encarar a infância como um período de formação humana, e nem por isso, menos importante do que os demais anos seguintes que virão. Dessa forma, é necessário olhar um bebê e saber que ele tem direitos, tantos quantos ou mais que um adulto, mesmo que ele seja um ser que, momentaneamente, está submisso e suscetível aos cuidados e à vontade alheia.
E é justamente por essa vulnerabilidade a qual uma criança pequena está submetida que no Artigo 4ᵒ do ECA, há um reforço ao que diz a CF em uma tentativa de proteção, a partir da garantia dos direitos, sendo possível observar sua abrangência e clarear que é compromisso de cada cidadão garantir que sejam cumpridos as premissas expressas nessa lei:
É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. (BRASIL, 1990)
Para a criança pequena, objeto de estudo dessa dissertação, este Estatuto representa o fortalecimento do direito à educação, através do Capítulo IV, artigos 53 e 54, os quais discorrem sobre a possibilidade, garantida em lei, de as crianças de zero a cinco anos frequentarem creches e pré-escolas. Além disso, um importante item que garante a qualidade das escolas está mencionado também nesse trecho: de os pais participarem da elaboração das propostas pedagógicas e acompanharem o processo pedagógico.
Art. 53. A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho, assegurando-se-lhes:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - direito de ser respeitado por seus educadores;
III - direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias escolares superiores;
IV - direito de organização e participação em entidades estudantis; V - acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência.
Parágrafo único. É direito dos pais ou responsáveis ter ciência do processo pedagógico, bem como participar da definição das propostas educacionais.
IV - atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade; § 1º O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo.
§ 2º O não oferecimento do ensino obrigatório pelo poder público ou sua oferta irregular importa responsabilidade da autoridade competente. (BRASIL, 1990)
Como consta, o parágrafo 2ᵒ do artigo 54, inciso IV os responsáveis legais à educação serão responsabilizados caso não haja oferta gratuita ou que esta seja irregular. Isso significa que toda criança terá o direito de vaga em instituições de Educação Infantil, caso contrário, a autoridade competente poderá responder legalmente.
No Artigo seguinte (55), é mencionado sobre a obrigação dos pais matricularem seus filhos na rede regular de ensino, no caso, a partir dos quatro anos. Já no Artigo 58, explicita um princípio educativo fundamental para a sociedade brasileira marcada pela diversidade étnica, racial, religiosa e cultural, que é a questão do respeito e da valorização dos diversos valores culturais, artísticos e históricos:
Art. 58. No processo educacional respeitar-se-ão os valores culturais, artísticos e históricos próprios do contexto social da criança e do adolescente, garantindo-se a estes a liberdade da criação e o acesso às fontes de cultura. (BRASIL, 1990)
Ao se pensar no currículo da escola infantil, serão levados em consideração o respeito pela bagagem cultural, pelos costumes e pelas características sociais de cada criança. Inclusive, ao se trabalhar a identidade, serão objetos de estudo das instituições a individualidade, a família e demais temas possíveis de serem abordados.
Quando os direitos das crianças e dos adolescentes não são observados e/ou cumpridos, são as disposições deste Estatuto que regem as ações de responsabilidade, incluindo o não oferecimento ou oferta irregular “de atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade” (ECA, Art. 208, inciso III). Da mesma forma que o descumprimento desse direito poderá acarretar responsabilidade ao poder público, não informar suspeitas de maus tratos a crianças e adolescentes implica pena, de acordo com o que segue:
Art. 245. Deixar o médico, professor ou responsável por estabelecimento de atenção à saúde e de ensino fundamental, pré-escola ou creche, de comunicar à autoridade competente os casos de que tenha conhecimento, envolvendo suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente:
Pena - multa de três a vinte salários de referência, aplicando-se o dobro em caso de reincidência. (BRASIL, 1990)
Portanto, o Estatuto da Criança e do Adolescente, mesmo que não trate especificamente da qualidade, traz contribuições legais importantíssimas no que se refere à Educação Infantil, à proteção da criança e à garantia dos direitos outrora assegurados pela Constituição Federal de 1988.