4 DIREITO À PROFISSIONALIZAÇÃO: UM DIREITO DOS
4.1 REGULAMENTAÇÃO DOS DIREITOS DA JUVENTUDE
4.1.2 O Estatuto da Juventude Projeto de Lei 4529/04: A
à Profissionalização
Falando, primeiramente do papel da dignidade no futuro Estatuto da Juventude, ver-se-á a seguir uma série de dispositivos do Projeto de Lei nº 4529/04 390: a) art. 2º; b) art. 3º (em análise comparativa com o art. 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente); c) art. 8; d) art. 9º; e) art. 12º caput e § 3º; art. 13º391392.
390
BRASIL. Projeto de Lei nº 4529 apresentado em 25 de novembro de 2004. Dispõe sobre o Estatuto da Juventude e dá outras providências. Disponível em: < http://www.camara.gov.br/sileg/integras/253910.pdf>. Acesso em 16 de março de 2011.
391 BRASIL. Substitutivo n. 2 PL452904 apresentado pela Comissão Especial destinada a
proferir parecer ao Projeto de Lei nº 4.529, de 2004, da Comissão Especial destinada a acompanhar e estudar propostas de Políticas Públicas para a Juventude, que dispõe sobre o Estatuto da Juventude e dá outras providências. Disponível em:< http://www.camara.gov.br/sileg/integras/827294.pdf>. Acesso em 27 de março de 2011.
392 Os dispositivos mencionados nas letras b, c,d e e, neste parágrafo não encontram
correspondentes idênticos no substitutivo n. 2 do Projeto de Lei nº 4529/04, apresentado em novembro de 2010. Contudo neste substitutivo à dignidade é erigida a um dos princípios norteadores de todo Estatuto, ficando assim os art. 3º, art. 9º, art. 12º e art. 13º, absorvidas por tal alteração. VIDE art. 2º do Substitutivo n.2 do PL 4529/04.
O art. 2º do Projeto de Lei nº 4529/04 assim determina393:
Art. 2º Os jovens gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo dos relacionados nesta lei, assegurando- se-lhes, por lei ou outros meios, todas as oportunidades e facilidades, para a preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social, em condições de liberdade e dignidade.(sem grifo no original) O artigo acima mencionado garante, para além de todos os direitos inerentes à pessoa humana, oportunidades e facilidades específicas, para que estes indivíduos possam ter, preservadas a saúde física e mental, bem como possam aperfeiçoar-se moralmente, intelectualmente, socialmente, em condições de dignidade.
Não obstante a existência de peculiaridades entre os grupos juvenis, motivo pelo qual, alguns autores entendem ser mais correto o termo “juventudes”, outros já conseguem vislumbrar traços comuns que caracterizam a singularidade juvenil no Brasil: atitudes, percepções de mundo similares que se apresentam em diferentes setores e situações sociais, fazem dos jovens uma categoria única. Logo estes jovens demandam enquanto categoria única, proteção direcionada especificamente a eles, que respeitem sua condição juvenil394.
Outro artigo que não pode deixar de ser mencionado é o art. 3º, que em razão da similaridade de redação será examinado em cotejo com o art. 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente. Veja-se o quadro comparativo que se segue:
393 VIDE art. 4º do Substitutivo n.2 do PL 4529/04. 394
ABRAMO, Helena Wendel, BRANCO, Pedro Paulo Martoni (orgs.). Retratos da
Juventude brasileira: análises da pesquisa nacional. São Paulo: Fundação Perseu Abramo,
Base: Projeto de Lei nº 4529/04 – que visa aprovar Estatuto da Juventude395.
Base: Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069/90)
Art. 3º A família, a comunidade, a sociedade e o Poder Público estão obrigados a assegurar aos jovens a efetivação do direito:
Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes
I – à vida;
II – à cidadania e à participação social e política;
III – à liberdade, ao respeito e à dignidade;
IV – à igualdade racial e de gênero; V – à saúde e à sexualidade; VI – à educação;
VII – à representação juvenil; VIII – à cultura; IX - ao desporto e ao lazer; X – à profissionalização, ao trabalho e à renda; e XI – ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
Parágrafo único. A obrigação de que trata o caput deste artigo compreende:
Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende:
I - atendimento individualizado junto aos órgãos públicos e privados prestadores de serviços à população visando ao gozo de direitos simultaneamente nos campos educacional, político, econômico, social, cultural e ambiental;
a) primazia de receber proteção e
socorro em quaisquer
circunstâncias;
II - participação na formulação, na proposição e na avaliação de políticas sociais públicas específicas;
b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;
395
VIDE arts. 3º e 5º do Substitutivo n.2 do PL 4529/04. Disponível em: <. http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=488888 >. Acesso em 20 de março de 2011.
III -destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção ao jovem;
c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;
IV - atendimento educacional visando ao pleno desenvolvimento físico e mental do jovem e seu preparo para o exercício da cidadania;
d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude.
V - formação profissional progressiva e contínua objetivando a formação integral, capaz de garantir ao jovem sua inserção no mundo do trabalho;
VI - viabilização de formas alternativas de participação, ocupação e convívio do jovem com as demais gerações;
VII - divulgação e aplicação da legislação antidiscriminatória, assim como a revogação de normas discriminatórias na legislação infraconstitucional;
VIII - capacitação e reciclagem dos recursos humanos nas áreas de hebiatria e na prestação de serviços aos jovens;
IX - estabelecimento de mecanismos que favoreçam a divulgação de informações de caráter educativo sobre os aspectos biopsicossociais da juventude;
X - garantia de acesso à rede de serviços de saúde e de assistência social locais.
Analisando-se o caput dos dois artigos comparados, vê-se que o art. 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente faz uma menção expressa à absoluta prioridade, o que não acontece com o art. 3º do Projeto de Lei. Mostrando-se assim que a prioridade absoluta para os jovens não está inserta no Projeto de Lei, mas somente no art. 227 da CF/88. Para crianças e adolescentes tal proteção justifica-se pela “[...] sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento e sua conseqüente fragilidade físico-psíquica, de modo que a intenção do dispositivo [...] é dar prioridade absoluta a estes entes [....]” 396.
Percebe-se que para a efetivação dos direitos de jovens, crianças e adolescentes são pontuados alguns deveres a serem observados pela família, sociedade, comunidade e nos caso dos jovens pelo Poder Público. Para a juventude os deveres são mais no sentido de fomentar e incentivar as ações dos jovens que inclusive podem participar na formulação e na avaliação de políticas sociais públicas específicas. A formação educacional dos jovens já é mais orientada para a inserção no mercado de trabalho, incentivando-se formação profissional397. Já para crianças e adolescentes os deveres são de caráter eminentemente protetivo condizente com a sua condição de indivíduos em desenvolvimento.
Entre os direitos assegurados em ambos os artigos, estão os à dignidade e à profissionalização, reforçando-se assim a previsão constitucional dos mencionados direitos no art. 227, caput da CF/88.
O art. 8º do Projeto de Lei nº 45329/04, inserto no Título II – dos direitos fundamentais – Capítulo I – do direito à vida, estabelece a juventude como direito personalíssimo e sua proteção como um direito social. O art. 9º ressalta a obrigação do Estado em garantir aos jovens a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas públicas que chancelem uma existência em condições de dignidade.
O art. 12º do Projeto de Lei nº 4529/04 impõe ao Estado e à sociedade o respeito à dignidade do jovem e à sua condição de sujeito de direitos civis, políticos, individuais e sociais.
O Direito à dignidade é assegurado no art. 13 ao proteger o jovem contra quaisquer formas de discriminação, afirmando-se que este indivíduo não sofrerá preconceito:
396 VERONESE, SILVEIRA, 2011, p. 34.
Art. 13º. [....]
I - por sua raça, cor, origem, e por pertencer a uma minoria nacional, étnica ou cultural;
II - por seu sexo, orientação sexual, língua ou religião;
III - por suas opiniões, condição social, aptidões físicas e por seus recursos econômicos.
Assim, em outras palavras, o jovem deve ter tratamento que respeite sua dignidade, não podendo ser discriminado, entre outras razões, por sua condição social e seus recursos financeiros, ou seja, todos, por exemplo, devem ter oportunidades de inserção no mercado de trabalho. Se para alguns falta recursos financeiros para uma formação profissional, para outros faltam postos de trabalho que valorizem sua formação.
A relação entre inserção no mercado de trabalho e dignidade pode ser sentida na citação que se segue, extraída da justificativa para o Projeto do Estatuto:
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNDA), do IBGE, em 2002, havia 47.264.373 pessoas entre 15 e 29 anos de idade, ou seja, um enorme contingente populacional a espera de providências governamentais específicas que supram demandas, sobretudo na área educacional, que possibilitará, por exemplo, a inserção do jovem no mundo do trabalho de forma digna398.
Quanto à Profissionalização alguns dispositivos merecem destaque. O art. 3º assim estabelece:
Art. 3º A família, a comunidade, a sociedade e o Poder Público estão obrigados a assegurar aos jovens a efetivação do direito:
...
X – à profissionalização, ao trabalho e à renda; (sem grifo no original) 399
398 BRASIL. Projeto de Lei nº 4529 apresentado em 25 de novembro de 2004. Dispõe sobre o
Estatuto da Juventude e dá outras providências. Disponível em: < http://www.camara.gov.br/sileg/integras/253910.pdf>. Acesso em 27 março de 2010.
Percebe-se desse dispositivo, presente nas disposições preliminares do Projeto do Estatuto que o Direito à Profissionalização é um direito almejado e importante para a juventude.
Dentro ainda do Projeto de Lei vale citar algumas medidas que promoveriam o Direito à Profissionalização do Jovem insertas no Capítulo X que trata do Direito à Profissionalização, ao Trabalho e à Renda.
Art. 40. O direito à profissionalização do jovem contempla a adoção das seguintes medidas: ...
I – articulação das ações de educação profissional e educação formal, a fim de se elevar o nível de escolaridade, sendo a primeira complemento da segunda, englobando escolaridade, profissionalização e cidadania, visando garantir o efetivo ingresso do jovem no mercado de trabalho;
...
IV – adoção de mecanismos que informem o jovem sobre as ações e os programas destinados a gerar emprego e renda, necessários a sua apropriação das oportunidades e das ofertas geradas a partir da implementação das mesmas;[...] 400.
O primeiro inciso, fala da importância da articulação das ações de educação profissional e educação formal, considerando-as complementares e voltadas à efetiva inserção do jovem no mercado de trabalho.
O inciso quarto ressalta a importância de mecanismos de informação para a juventude de programas destinados a gerar oportunidades de emprego e renda.
Ainda na redação do projeto do estatuto (art.44), é dada à população jovem que busca o primeiro emprego, a prioridade em programas públicos de emprego e renda401.
Finalizando, neste tópico foi traçado um panorama acerca
do Projeto de Lei nº 4529/04, ressalta-se que foi utilizada a
redação original do projeto que atualmente apresenta dois
400
VIDE art. 17 do Substitutivo n.2 do PL 4529/04.
substitutivos, um de 2009 e outro de 2010. Maiores digressões
sobre os substitutivos não se fazem necessárias dada à
transitoriedade do conteúdo do Projeto do Estatuto que ainda se
encontra em tramitação. O que importa mesmo é que
certamente a dignidade e a profissionalização hão de ser
contempladas no futuro projeto para que se exista coerência
com a redação do art. 227, caput, que elenca, entre outros,
esses dois.
4.1.3 Plano Nacional da Juventude: a formação dos jovens para o