2. A PSICOSE COMO ESTRUTURA
2.5 Bejahung e Verwerfung
2.6.3 O estatuto da realidade
A experiência da realidade de um objeto exige duas operações: ao mesmo tempo em que o objeto é percebido, é também imaginado e simbolizado. O imaginário designa o que se situa do lado da sombra e da imagem indistinta e o simbólico designa o poder de discriminação, de nomeação e de designação. A experiência da realidade, portanto, é constituída pela função imaginária e pela função simbólica.
O imaginário se relaciona à ausência de distinção, à ausência de movimento dialético. O simbólico, por sua vez, indica a junção, ligação, o lugar. No nível do simbólico temos o mais, o menos, a vírgula: “a fórmula algébrica ilustra bem o nível simbólico de que se trata, aquilo que, em si mesmo, não tem nenhum sentido, mas o confere a todo o resto” (LECLAIRE, 1991). O objeto, então, é investido de um valor simbólico e de um suporte imaginário. A experiência do objeto, inscrita simultaneamente nestes dois planos, pode ser comunicada. Dificilmente uma experiência poderia ser relatada fora destes dois registros, a não ser, pelo que a clínica nos ensina, na psicose. Como podemos conceber a noção de um objeto não simbolizável? Ou de um objeto que não se pode imaginarizar? No primeiro caso, do objeto não simbolizável, estamos no campo da paranoia. No segundo caso, do objeto não imaginarizável, estamos no campo da esquizofrenia. Não se trata, então, da perda da realidade na psicose, mas da perda de uma destas funções na experiência da realidade:
Assim, o esquizofrênico, como já indicamos, parece viver num mundo simbólico que constitui sua realidade desprovida de qualquer vínculo imaginário, sem forma, sem limite, sem peso. Inversamente, o delirante paranóico experimenta a realidade de um modo puramente imaginário, lógico e puramente formal, sem abertura propriamente simbólica pois não há nada a juntar no que está imaginariamente ligado (LECLAIRE, 1991, p. 88).
Bleuler utiliza o termo autismo para designar uma perda de contato com a realidade que pode se apresentar em graus diferentes. Como bem assinala Quinet, essa perda de realidade assume em Bleuler o sentido de vivência de uma outra realidade e não apenas a mera ausência de realidade. É de uma realidade compartilhada, na qual há laço social, que o esquizofrênico encontra-se apartado: “eles vivem em um mundo imaginário, feito de todo tipo de realização de
desejos e de ideias de perseguição” (Bleuler apud QUINET, 1999, p. 92).
Freud, afirmando que o desligamento nunca é total, indica que é possível estabelecer, em alguma medida, um laço libidinal. Quinet assinala que “aqueles que têm experiência com crianças autistas podem verificá-lo” (QUINET, 1999, p. 92). Há uma relação entre o teor da esquize e as possibilidades de laço, ou, para sermos mais precisos, as possibilidades de suplência. A rigor, não há laço social, devido à relação de exterioridade do sujeito em relação à linguagem, o que não quer dizer que não seja possível algum nível de sociabilidade, promovida pela estabilização dos efeitos de desagregação da fala e do corpo:
[...] A possibilidade de esse laço se estabelecer depende do teor da esquize do sujeito, de sua divisão entre a atitude “que leva em conta a realidade e a outra que, sob a influência das pulsões, desliga o eu da realidade” (Freud, 1980/1938. Esboço de psicanálise, p. 231). [...] Com Lacan, podemos dizer que a “cura aparente” do psicótico se refere a uma suplência à foraclusão do Nome-do-Pai, suplência esta que consegue reconstituir a realidade para o sujeito, apaziguando e contendo o real pulsional (QUINET, 1999, p. 93).
Compor uma outra realidade era a tarefa que Van Gogh (2002) se propunha nos últimos anos de sua vida. Partindo da matéria da realidade “cinza”, “sem relevo”, como a fotografia, dizia Van Gogh, tratava-se de compor “outra realidade” sobretudo com a interposição da cor. Não haveria aí um trabalho de tradução que lhe permite a construção de um mundo? Wolfson (1970) constrói outra língua da matéria de sua língua. Outra língua, fora do discurso, fora do laço. O neurótico pode manejar a língua decompondo-a e transgredindo-a até o limite de romper o laço, mas este limite não é ultrapassado.
O eu, construção que permite situar os órgãos, situa porque o corpo foi especularizado e sustentado por um olhar advindo do campo do Outro. De uma imagem investida – aqui uma imagem é capaz de sustentar-se através do investimento de “representantes de coisa” (pedaços de corpo) – produz-se um eu que toma sua unidade imaginária do olhar do outro. É o olhar do outro que unifica – como ato primordial – o que se aproxima do ato de nomeação em que um nome é proferido, marcando um lugar para além do sentido. O traço unário como puro traço, primordial do sujeito, encerra a propriedade de “vir no lugar de outra coisa” e na constituição do eu está em jogo um olhar que unifica, reunindo sob a afirmação relampejante do Tu és [tuer] os representantes de coisa que são os órgãos, pedaços de carne desprovidos de corpo. Artaud fala dessa experiência radical em que palavra e corpo se trespassam, letra e órgão se interpenetram:
O que saía do baço ou do fígado vinha em forma de letras de um antiquíssimo e misterioso alfabeto mastigado por uma boca enorme mas assustadoramente pressionada, orgulhosa, ilegível, ciosa de sua invisibilidade... do lado do meu baço foi cavado um vazio imenso que se coloriu de cinza e rosa como a beira- mar. E ao fundo do vazio surgiu a forma de uma raiz que dava à costa, espécie de J que tivesse ao alto três ramos encimados por um E triste e brilhante como um olho. Da orelha esquerda do J saíram chamas e ao passarem por trás dele parecia que empurravam todas as coisas para a direita, para o lado do meu fígado, mas muito para além dele (ARTAUD in SOUZA, 1991, p. 26)