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O estatuto da subjetividade: ser é ser interpretado

3.3 O mundo do texto

3.3.2 O estatuto da subjetividade: ser é ser interpretado

Um dos principais contributos de Ricœur para o nosso tempo é o modo como repensa a questão filosófica que somos nós próprios, a questão de saber o que significa ser um sujeito reflexivo. A apropriação responde não a um autor, mas ao sentido do texto, de modo que o si é constituído pelo mundo do texto e não o seu contrário: “O texto é a mediação pela qual nos compreendemos a nós mesmos” (RICOEUR, 1990, p. 57). Se há uma apropriação de si pode haver também uma crítica das ilusões do sujeito. Afirma Ricœur:

A conseqüência para a hermenêutica é importante: não podemos mais opor hermenêutica e crítica das ideologias. A crítica das ideologias é o atalho que a compreensão de si deve necessariamente tomar, caso esta deixe-se formar pela coisa do texto, e não pelos preconceitos do leitor. Portanto, precisamos transferir para o cerne mesmo da compreensão de si a dialética da objetivação e da compreensão que havíamos percebido antes no nível do texto, de suas estruturas, de seu sentido e de sua referência. Em todos os níveis da análise, o distanciamento é a condição da compreensão (RICOEUR, 1990, p. 59).

A hermenêutica acredita que o cogito só é compreendido quando mediatizado: a consciência não é imediata, porém mediata; não é uma fonte, mas uma tarefa, a tarefa de tornar-se consciente, mais consciente; de expor-se ao texto e não de autoprojetar-se nele.

O sujeito não tem a chave da compreensão. A apropriação das propostas de mundo abertas pelo texto produz uma ampliação na dimensão da subjetividade do leitor. Pode-se dizer que a subjetividade fica em suspense, irrealizada. “Ao ler, eu irrealizo-me. A leitura introduz-me nas variações imaginativas do ego” (RICOEUR, 1989, p. 364). Nessa “variação” está a possibilidade para crítica das ilusões do sujeito.

Ricœur não introduz apressadamente o conceito de apropriação sem antes levar às últimas consequências o conceito de distanciamento, porque o distanciamento de si mesmo não é, para ele, uma deformação a combater, “mas a condição de possibilidade da compreensão de si-mesmo face ao texto” (1989, p. 364). Somente distanciando-se, ou seja, desapropriando-se de si, é possível realizar uma apropriação das propostas oferecidas pelo texto. É nesse contexto que Ricœur também reivindica a importância de uma crítica das ideologias, pois não há compreensão de si que não se defronte com uma crítica das “falsas ilusões do sujeito”.

O problemático não é o conhecimento, mas o ser a ser conhecido. Por que o ser é problemático, não evidente ou apodítico? Porque está dividido, ferido, quebrado e só recuperado através da interpretação: “É a hermenêutica que constitui o sujeito” (RUEDELL, 2006, p. 28). O conhecimento, porém, também pode tornar-se problemático, quando tomado como saber absoluto. Em sua quarta e última proposição sobre a crítica das ideologias Ricœur escreve:

(...) resulta que a crítica das ideologias é uma tarefa que devemos sempre começar, mas que, por princípio, não podemos concluir (...). Chamo de deontológica minha última proposição, porque nada nos é mais necessário em nossos dias, que a renúncia à arrogância da crítica, para empreendermos, com paciência, o trabalho incessantemente retomado do distanciamento e do assumir de nossa condição histórica (RICOEUR, 1990, p. 95).

Com essa afirmação Ricœur endossa a tese de Habermas segundo a qual todo saber está baseado num interesse. Daí a necessidade da crítica das ideologias. Porém, a própria crítica das ideologias está fundada num interesse específico, ou seja, a crítica das ideologias não fala de um lugar neutro, não ideológico, chamado ciência. Mas isso não inviabiliza as condições de produção da crítica. O fracasso do projeto de reflexão total leva a outro tipo de

discurso. As condições da crítica estão contidas no discurso de caráter hermenêutico, no qual todo saber de caráter objetivante é precedido pela relação de pertença. Antes de qualquer crítica, pertencemos à história. “Esquecer esse vínculo inicial é cair na ilusão de uma teoria crítica elevada ao nível de saber absoluto” (RICOEUR, 1990, p. 94). Portanto, a crítica é segunda em relação à pertença, mas não é impossível. Ao contrário, ela é possível em virtude do fator de distanciamento que pertence à relação de historicidade. A questão crítica surge, assim, no cerne da compreensão.

A reflexividade do ser e a não imediatez da reflexão leva a uma dialética também entre

cogito e sum, dado que há uma distância entre a consciência imediata e o real. Refletir é

reapropriar-se continuamente do nosso ser por meio da interpretação. A reapropriação é, portanto, indireta, mediada e passa pela interpretação.

A consciência de si é como que o resultado da interpretação, aparece no final da atividade reflexiva, e não no seu início. A reflexão impossibilita uma ontologia da consciência absoluta, fazendo aparecer, por meio da linguagem, aspectos reais do ser, que, porém, são sempre parciais (Cf. MACEIRAS, 1991, p. 52).

A interpretação nunca é absoluta porque, sendo linguagem, é prisioneira de uma cultura, carente de univocidade e contingente à individualidade do intérprete, o que não significa ausência de rigor metodológico, mas atenção e reconhecimento dos diversos estilos hermenêuticos. A título de exemplo, vejamos o modelo freudiano onde o eu é fruto de seu destino natural, enquanto no modelo da Fenomenologia do Espírito, de Hegel, onde o eu se faz por sua história. Também aí, entre esses dois modelos, Ricœur propõe uma dialética que manifesta como é o eu do homem tanto por sua arqueologia quanto por sua teleologia.

Ricœur está profundamente convencido de que a identidade do eu do conhecimento de si é resultado de uma vida examinada, narrada e continuamente retomada em toda reflexão aplicada às obras, à cultura e, sobretudo, aos textos60. Por isso, o si nunca tem de si uma compreensão total, mas também nunca deixa de buscar essa compreensão, e deve fazê-lo por um retorno, não diretamente, e sim através do rodeio pelos textos.

A apropriação, ou seja, o retomar da subjetividade não é completo:

60

Só a reflexão abstrata fala desde parte nenhuma. Para tornar-se concreta, a reflexão tem que perder sua pretensão imediata de universalidade. Toda reflexão é situada. Tem um mundo... Não existe filosofia sem pressupostos prévios. A filosofia abarca o pensamento com seus pressupostos. Seu primeiro ‘que fazer’ não consiste em começar, mas em fazer memória partindo de uma palavra já em marcha; e fazer memória com vistas a começar (PINTOR-RAMOS, 1991, p. 96).

Se é verdade que a hermenêutica se completa na compreensão de si, é preciso rectificar o subjectivismo desta proposição, dizendo que compreender-se é compreender-se em face de o texto. A partir daí o que é apropriação de um ponto de vista é desapropriação de um outro ponto de vista. Apropriar é fazer com que o estranho se torne próprio. O que é apropriado é, na verdade, a coisa do texto. Mas a coisa do texto só se torna o meu próprio se eu me desapropriar de mim mesmo, para deixar ser a coisa do texto. Então eu troco o eu, dono de si mesmo, pelo si, discípulo do texto (RICOEUR, 1989, p. 64).

Isso permite a Ricœur falar em distanciamento de si para si dentro da apropriação. E é esse distanciamento, interno à própria apropriação, que põe em ação a crítica das ideologias, constituindo, por excelência, o momento crítico da compreensão; e põe em ruínas a pretensão do ego de constituir-se em origem última. É nesse sentido que a hermenêutica se opõe ao idealismo.

A abordagem da temática da subjetividade, feita por Ricœur, pode ser caracterizada como sendo simultaneamente fenomenológica e hermenêutica (Cf. MADISON, 1995, p. 40). Fenomenológica no sentido de que a fenomenologia oferece uma imprescindível remissão última à subjetividade, algo que é esquecido ou positivamente criticado por outras correntes; graças a isso, a compreensão de mundo objetivo de sentido é uma tarefa importante, pois só vale a pena enquanto esse sentido tem a possibilidade de ser apropriado por um sujeito em sua interminável tarefa de humanização. A fenomenologia é a filosofia da subjetividade que significa uma constante voz de alerta contra as tentações de reificação do sujeito (Cf. PINTOR-RAMOS, 1991, p. 101).

Assim, apesar da remissão reflexiva não ser intuitiva ou introspectiva, mas indireta e interpretativa, ela não deixa de ser uma possibilidade de exprimir e de dizer o sentido não dito, mas dizível, da existência e da vida. Justamente por isso, afirma Japiassu, a filosofia “é essencialmente hermenêutica, vale dizer, interpretação e explicação de um sentido pré-dado, de um sentido que constitui a sedimentação de uma vida e o dom de uma tradição” (1990, p. 7).