1.2 A seleção do Corpus
1.2.2 O estatuto de exemplaridade dos Textos Recomendados
Para o desenvolvimento das análises empreendidas nesta tese, é preciso compreender e explicar a identidade enunciativa dos objetos investigados: os textos do Caderno do Professor e os textos dos alunos. Assim, visamos entender o sistema de relações entre esses enunciados, força por meio da qual esses textos se constituem e se mantêm.
O Caderno do Professor contém as orientações e sugestões de atividades que o professor pode usar para guiar o trabalho com seus alunos. As diretrizes são dirigidas ao professor, e organizadas com vários exemplos e explicações sobre conceitos teóricos, tais como: gêneros discursivos, memória, espaço, tempo, pessoa, entrevista, oralidade, escrita, zona proximal, sequências didáticas, produção e reescrita (revisão e aprimoramento). Todas essas definições delineiam o perfil de trabalho da proposta da Olimpíada. Nesse perfil, destaca-se o espaço de reflexão sobre a prática. Temos aí um fundamento que coloca o professor como agente responsável e, por isso, consciente da organização, da sequência de passos seguidos e das ações executadas em todo processo.
Direcionando um olhar mais atento à composição do Caderno do Professor, especialmente à parte chamada Textos Recomendados, observa-se que, nas edições 2004, 2006 e 2008, ocorre a manutenção da temática “Se bem me lembro...”, relativa ao “lugar onde vivo”. Desse modo, privilegia-se a recorrência de alguns textos usados para estudo, enquanto se dá a exclusão de outros e a inclusão de novos exemplares; e, em relação às sequências didáticas, houve uma implementação das estratégias de ensino, o que mostra a preocupação com a complementação e reelaboração do programa ao longo dos anos.
Nota-se o aprimoramento da produção desse material didático e o aumento do número de Textos Recomendados no decorrer dos anos. A oferta de um maior número de exemplares evidencia o conhecimento de uma variedade de enunciados concernentes a determinado gênero, o que favorece a aprendizagem da leitura e da escrita dos mesmos. Ora a repetição, ora a exclusão e o acréscimo de exemplares de textos constituem ações que merecem observação atenta. Por sua vez, a inserção de textos finalistas de concursos anteriores mostra o papel legitimador e de reconhecimento que a própria Olimpíada tenta atribuir aos textos
produzidos pelos alunos. Por essa razão, a Olimpíada trata o enunciador-aluno como aluno- autor, designação que será mantida e discutida ao longo deste trabalho.
Não é à toa, portanto, que, cotejando os exemplares dos Textos Recomendados dos três Cadernos, observam-se tanto a conservação como a supressão de alguns exemplares, bem como a inclusão de outros. O quadro a seguir esquematiza essa comparação:
Se bem me lembro... – 200411 Se bem me lembro... – 2006 Se bem me lembro... – 2008 (OLPEF)
1. “Parecida mas diferente”
Zélia Gattai “Parecida mas diferente” Zélia Gattai “Parecida mas diferente” Zélia Gattai
2. “Histórias da velha arigó”
Ariadne Araújo “Histórias da velha arigó” Ariadne Araújo “Histórias da velha arigó” Ariadne Araújo
3. “Primeiros encantos”
Antonio Gil Neto “Primeiros encantos” Antonio Gil Neto “Transplante de menina” Tatiana Belinky
4. “Nas ondas do rádio”
Edson Gabriel Garcia “Nas ondas do rádio” Edson Gabriel Garcia “A ameixeira-do-japão” Erico Veríssimo
5. “O dia de matar o galo”
Ilka Brunhilde Laurito “O dia de matar o galo” Ilka Brunhilde Laurito “A saga da Nhecolândia” Roberto de Oliveira Campos
6. “Meus tempos de criança(2)”
Rostrand Paraíso “Meus tempos de criança(2)” Rostrand Paraíso
7. “Como num filme”
Antonio Gil Neto “Como num filme” Antonio Gil Neto
8. “O leme”
Luciana Sandroni “Da lamparina à energia elétrica” Tarine Silva Ribeiro (aluna)
9. “O valetão que engolia meninos e
outras histórias de pajé” Kelli Carolina Bassani (aluna) Quadro 2 – Correspondência de textos-base do Caderno do Professor entre os anos 2004, 2006 e 2008
Descritivamente, destacamos os seguintes aspectos: há dois textos que apareceram ao longo das três edições do Caderno; entre os anos 2004 e 2006 houve a recorrência de três textos e, entre os anos 2004 e 2006 e entre 2006 e 2008, houve a recorrência de três e de dois textos, respectivamente; os demais exemplares apareceram apenas uma vez em cada edição. Ressalta-se que, em 2008, vem à luz a inclusão de dois textos de alunas finalistas de edições anteriores, um texto finalista de 2004 e outro de 2006.
No quadro a seguir, apresentamos os títulos dos Textos Recomendados relacionados à autoria, às situações de publicação e aos gêneros discursivos da obra-fonte:
11 No Quadro 2, as cores indicam a presença dos Textos Recomendados no decorrer das publicações do Caderno. O cinza claro representa a permanência do texto-base nas três edições; o cinza escuro destaca a permanência em duas edições; e, o branco, apenas uma.
TEXTOS RECOMENDADOS Nome do texto, do autor e
página(s) de localização no Anexo 3 desta tese
Referência da obra-fonte apresentada no
Caderno do Professor
“Se bem me lembro...” (2008)
Gênero da obra-fonte:
T1 Como num filme
Antonio Gil Neto
(p. 213-214)
Não havia referência de obra, apenas a autoria. Antonio Gil Neto (texto escrito com base no depoimento do Sr. Amalfi Mansutti, 82 anos)
MEMÓRIAS LITERÁRIAS (esfera escolar) T2 Parecida mas diferente Zélia Gattai (p. 215)
GATTAI, Zélia. Anarquistas, graças a Deus. 11. ed.
Rio de Janeiro: Record, 1986. p. 160-162. AUTOBIOGRAFIA, MEMÓRIAS DA INFÂNCIA (esfera literária)
T3 Transplante de
menina
Tatiana Belinky (p. 216)
BELINKY, Tatiana. Transplante de menina. 3. ed. São
Paulo: Moderna, 2003. p. 101-103. AUTOBIOGRAFIA, MEMÓRIAS DA INFÂNCIA (esfera literária) T4 Histórias da velha Arigó Ariadne Araújo (p. 217)
Não havia referência de obra, apenas a autoria. Texto de Ariadne Araújo, jornalista cearense, escrito com base no depoimento de Edilberto Cavalcanti Reis, neto de Alice Augusta Peixoto Cavalcante, narradora- personagem da história. MEMÓRIAS LITERÁRIAS (esfera jornalística) T5 Meus tempos de criança Rostand Paraíso (p. 218)
PARAÍSO, Rostand. Antes que o tempo apague…: crônica dos anos 40 e 50. 2. ed. Recife: Editora
Comunicarte, 1996. p. 131-132. (esfera jornalística) CRÔNICAS T6 A ameixeira-do-japão
Érico Veríssimo
(p. 219-220)
VERÍSSIMO, Érico Solo de clarineta. 20. ed. São Paulo: Companhia das Letras, v. 1, 2005. p. 106-109. © by herdeiros de Érico Veríssimo.
AUTOBIOGRAFIA, MEMÓRIAS (esfera literária) T7 A saga da Nhecolândia Roberto de Oliveira Campos (p. 221)
CAMPOS, Roberto de Oliveira. A lanterna na popa.
Rio de Janeiro: Topbooks, 1994. p. 131-133. AUTOBIOGRAFIA, BIOGRAFIA POLÍTICA, MEMÓRIAS (esfera literária/ política) T8 Da lamparina à energia elétrica
Tarine Silva Ribeiro
(p. 222)
Não há referência, apenas a autoria, porque faz parte do Caderno do Professor. Com estatuto de exemplaridade, legitima o concurso de 2004.
Aluna semifinalista da segunda edição do Prêmio Escrevendo o Futuro, em 2004, da 4.ª série, da EE Prof.ª Joanita B. B. Carvalho Cidade: São João de Iracema – SP. Texto escrito com base na entrevista com Valdenice Cabral Minales Satin, 51 anos, funcionária municipal, moradora de São João de Iracema desde que nasceu.
MEMÓRIAS LITERÁRIAS (esfera escolar)
T9 O valetão que engolia meninos e outras histórias de Pajé
Kelli Carolina Bassani
(p. 223)
Não há referência, apenas a autoria, porque faz parte do Caderno do Professor. Com estatuto de exemplaridade, legitima o concurso de 2006.
Kelli Carolina Bassani, aluna finalista da terceira edição do Prêmio escrevendo o Futuro em 2006, do Prêmio Escrevendo o Futuro, 4.ª série da E.M.E.I.E.F. Walter Fontana, Toledo - PR. Texto baseado na entrevista com Clovis Turatti. Ele nasceu, cresceu e trabalhou como engraxate, desde os cinco anos, na Rua Sete de Setembro, em Toledo - PR. Hoje é funcionário Público Municipal.
MEMÓRIAS LITERÁRIAS (esfera escolar)
Ao selecionar os enunciados que compõem essa coletânea, o Caderno do Professor realiza, ao mesmo tempo, triagens e misturas. A triagem é um modo seletivo de proceder. Ao contrário, uma lógica da mistura, que é sua complementar e que abre o conjunto das unidades admissíveis dentro do campo discursivo, acolhe a multiplicidade e a heterogeneidade (ZILBERBERG, 2004; LOPES, 2005). Do ponto de vista semiótico, a triagem pode ser entendida no que concerne à prática relativa à OLPEF, como seleção de textos de similares quanto ao material linguístico e à unidade temática; a mistura, compreendida na apresentação de autores variados, nos processos enunciativos dessemelhantes, nos tons de vozes e nas valorações (axiológicas) diferentes.
Dos nove textos, quatro exemplares são segmentos de textos tirados de obras autobiográficas e um, de crônicas publicadas em livro de coletâneas; quatro não estão vinculados a outros meios de publicação, senão, até 2008, ao próprio Caderno do Professor.
Essa totalidade tem como base textos literários, mas a abertura privilegia não somente enunciados advindos da esfera literária. Isso rompe a expectativa da presença absoluta de enunciados literários. Em um movimento de legitimação do discurso de outrem, o Caderno reconhece como válidos não apenas os segmentos das obras da literatura. Inclui, além de enunciados relativos ao jornalismo, produções decorrentes do próprio evento, como é o caso da autoria exemplar de alunos-autores.
A presença de excertos literários no corpo de materiais didáticos é tradicional. Sua função está associada à fruição estética, à apreciação da literatura e, principalmente, a uma leitura “privilegiada”. Mas, além da proficiência em leitura, o estatuto de exemplaridade dos textos literários e não literários dos Textos Recomendados, permite o enfoque nos enunciados memorialistas, de um tipo narrativo representativo de importantes funções de escrita, como o simulacro enunciativo, a transposição do oral para o escrito, o domínio da norma culta, a prática de reflexão sobre a língua, etc.
Toda exemplaridade constituída nesse material institui uma triagem subjacente, relativa a valores. Acrescentemos que os gêneros memorialísticos nem sempre recebem grande enfoque na escola. Para alguns professores e pesquisadores voltados para questões de escrita, as memórias, em seus mais variados gêneros de manifestação (relato, depoimento, memorial, retrato, biografia, autobiografia, crônica, “causo”) são objetos para outras atividades mais ilustrativas, e não componente de interesse e cuidado específicos. A prática advinda dessa Olimpíada contempla o contrário. Com isso, a natureza da linguagem literária presente em alguns exemplares, bem como as particularidades da prosa literária, que muitas vezes passam despercebidas, vêm à luz de modo especial nessa prática. Dessa maneira, firma-
se a importância de investigar a perspectiva buscada pelo enunciador do Caderno no estabelecimento desse conjunto específico de Textos Recomendados.
Observa-se que, ao selecionar esses textos, estabeleceu-se uma referência para os professores no ensino e para alunos na escrita de seus textos. Diante desse quadro preliminar, trabalhamos com duas hipóteses. Uma delas é: se o professor considerasse esses exemplares sem a sua relação com a totalidade da obra de onde o excerto foi extraído, provavelmente não seria possível captar o modo peculiar de relatar as memórias ou o estilo autoral de cada aluno referido. O enfoque maior pode ser dado à forma composicional, à suposta persistência da unidade temática, ambos construtores de um estilo de gênero, que se sobressai ao estilo autoral. Veremos se é isso que acontece quando desenvolvermos nossa análise.
A outra hipótese relaciona-se à produção do aluno, uma vez que, dadas as características dos textos exemplares, a necessidade de escrita do texto baseado em entrevista com pessoas mais velhas, além do processo de revisão e de retextualização feito pelo professor podem apagar marcas de autoria do aluno, criando, de um modo geral, um menor adensamento do efeito de autoria, ou viabilizando um fortalecimento desse efeito, o que é evidenciado por um modo mais identitário de dizer.
Embora a recomendação do Caderno do Professor enfoque com certa predominância um viés de escrita literária, no sentido de buscar uma suposta originalidade de expressão, os textos dos alunos, muitas vezes, ao invés de privilegiarem modos de dizer acentuadamente marcados pelo efeito de individualidade, costumam favorecer a manutenção de um efeito de autoria mais escolar, isto é, mais reprodutor do estilo dos textos-base. Destacamos o seguinte: o aluno envolvido está sempre lá, em seus textos, como enunciador pressuposto. O que acontece é um grau maior ou menor de adensamento de efeito de autoria. Por isso, a importância de estruturar as relações de sentido e de traduzir a identidade enunciativa dos Textos Recomendados a partir da observação da própria organização dessa coletânea. Assim tangenciamos modos de definir trajetórias efetivas, da parte dos escritores e nos aproximamos do enunciador-aluno em seu constante reajuste às estratégias mobilizadas pelo Caderno.