2 LÉXICO E EVENTUALIDADE
2.1 EVENTOS E EVENTUALIDADES
2.1.1. O estatuto dos eventos
Em uma proposição básica, podemos dizer que eventos são entidades denotadas por predicados verbais, e que a estrutura de um evento pode ser associada à estrutura argumental. Mesmo que isso não capture a natureza de um evento, é um ponto de partida para entendermos as implicações linguísticas desse conceito, que precisa ser mais bem tratado a fim de que seja verificada sua aplicabilidade para nossos propósitos. Como não é nosso interesse esgotar toda a discussão filosófica e linguística a respeito do que é um evento e como ele é formado, limitaremo-nos a chegar ao aparato linguístico que o justifica como uma entidade e à estrutura que determina suas propriedades e seus participantes.
A discussão a respeito da natureza dos eventos tem sua base na semântica formal, a qual propõe ontologias que fundamentam uma representação dos significados das línguas naturais. Numa visão ontológica, entidades em um dado mundo são representadas por expressões e são relacionáveis por predicados. As origens da justificativa do estatuto de entidade ontológica para um evento são comumente atribuídas a Donald Davidson, autor que se utiliza de argumentos linguísticos. Em seu ensaio The Logical Form of Action Sentences ([1967]2001, p. 104)54, sua argumentação parte da seguinte sentença em inglês: “Jones did it slowly, deliberately, in the bathroom, with a knife, at midnight”. O que Jones fez foi passar manteiga em uma torrada, e é a isso que “it” corresponde, o que torna a sentença equivalente a “Jones buttered the toast slowly, deliberately, in the bathroom, with a knife, at midnight”. Esse pronome parece se referir a uma entidade, que é um evento. A pronominalização é um recurso para retomada de referentes em um processo anafórico; se retoma um referente, “it” se refere a alguma coisa, a alguma entidade (à passada de manteiga na torrada por Jonas).
Além da anaforização, outros recursos linguísticos colocam eventos na mesma condição de outras entidades. Davidson cita, entre outros exemplos, as sentenças a seguir:
54 Ensaio, publicado em congresso pela primeira vez em 1967, foi publicado em seu livro Essays on Actions and
Events (2001), que teve a primeira edição em 1980, com ensaios clássicos básicos para uma semântica de
1) O explorador esteve no porão.55 (DAVIDSON, 2001, p. 190) 2) A explosão ocorreu no porão.56 (DAVIDSON, 2001, p. 190)
Tanto “explorador” quanto “explosão” podem ser determinados por artigos definidos ou indefinidos; além disso, aceitam formas no plural, quantificação universal e contagem. Na sentença em 1, a expressão “o explorador” acarreta a existência de um explorador específico; do mesmo modo, “a explosão” em 2 acarreta uma explosão específica. Ambas as sentenças acarretam, portanto, respectivamente:
3) Havia um explorador no porão. 4) Houve uma explosão no porão.
Ao se questionar sobre por que algo que faz 1 verdadeira deve fazer também 3 verdadeira, o autor demonstra a necessidade de “exploradores” em uma ontologia, ou seja, a necessidade de assumir a existência de coisas como “exploradores”. Do mesmo modo, a necessidade de “explosões” na ontologia é demonstrada, já que as condições de verdade de 2 e 4 dependem de uma entidade desse tipo, sendo que sem a existência dessa entidade não seria permitida a inferência de 4 por meio de 2.
Voltando à sentença “Jones buttered the toast slowly, deliberately, in the bathroom, with a knife, at midnight”, Davidson a classifica como contendo uma ação. O que caracteriza um evento como uma ação é um agente, e o que caracteriza um agente é uma intenção, de acordo como autor. Logo, o exemplo é relacionado a uma ação porque é assumido que “passar manteiga na torrada” foi algo que Jones fez intencionalmente. A intenção57 não precisa estar ligada diretamente ao resultado, ou seja, Jones poderia não ter a intenção de passar manteiga na torrada, mas sim de passar outro produto, e, acidentalmente, passar manteiga em uma faca e, sem perceber que se tratava de manteiga, passar na torrada. De todo o modo, Jones teria a intenção de fazer algo, e é essa intenção que conta. É ela que racionaliza a
55 The Explorer was in the cellar. 56 The explosion was in the cellar.
ação e caracteriza um agente58, mesmo que o resultado não seja o evento intencionado. Davidson (2001, p. 53, tradução nossa), ao tratar da natureza de uma ação, afirma que “um agente causa o que suas ações causam”59, e a intenção das ações iniciais (por exemplo, pegar uma faca e fazer um movimento) resultam também em um evento, como passar manteiga na torrada, que também é uma ação.
Davidson reconhece a dificuldade de identificar um agente e, por conseguinte, uma ação. Segundo o autor (2001, p. 120), diversas considerações para ações valem também para outros tipos de eventos. Por exemplo, não são apenas os predicados de ação que contêm um lugar para um evento, pois predicados sem relação com ações também podem conter. Isso significa que um verbo, em sua grade temática, possui, além dos argumentos participantes de um evento, um argumento “evento”, independentemente se este é ou não uma ação.
Relacionado a essa identificação das ações, o conceito de agente passa a ser problematizado. O autor afirma não conhecer nenhum teste gramatical que o identifique. Apenas é possível apontar algumas prováveis características de um agente, como a de que ele é uma pessoa que age ou faz algo em vez de receber uma ação ou sofrer as consequências de um acontecimento. O conceito de agentividade, por fim, de acordo com o que o autor acredita, é introduzido por certos verbos e não por outros, e entender o significado de um verbo é reconhecer se ele inclui ou não a ideia de um agente. Nesse ponto, a distinção entre ações e outros eventos, ou entre a presença e a ausência de um agente, é deixada para o léxico, sem mais reflexões a respeito (e é a partir do léxico que nossa perspectiva se desenvolve mais adiante). Com base nessas considerações do autor, notamos que ele diferencia ações dos outros tipos de evento por elas conterem uma “parte” a mais, um agente causador, o que, no desenvolvimento de perspectivas neo- davidsonianas, terá relação com a divisão de eventos em subeventos, sendo a causa relacionada a uma parte de um evento.