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A pesca e o pescador

Mapa 3:A Atenas antiga

6- O estatuto econômico da pesca e do pescador

Ao longo do tempo, a cozinha dos atenienses foi dando espaço ao peixe e, logo, os animais marinhos começaram a representar uma parcela significativa da nutrição dos atenienses. Na verdade, a partir do período clássico os peixes desempenharam um papel relevante na alimentação, o que não é se espantar visto que tratamos de uma sociedade "à beira mar"171.

Os peixes estavam tão integrados à dieta ateniense que, não raro, o termo o/)yon

("comestíveis") era usado para designá-los172. E estes alimentos tinham seu papel também nas dietas médicas. Eles eram indicados, para os mais diversos problemas, principalmente por já estarem presente nos hábitos alimentares desta sociedade173.

Desta forma, os mercados de peixe passaram a ter seu lugar cada vez mais cativo. Contudo, pelo menos nos mercados conhecidos de Atenas, o do Pireu e o da Ágora

168 McPHEE, I. e TRENDALL, A.D. Greek Red-Figured Fish-plates. 1987, p.21.

169 A variedade de peixes e outros animais marinhos encontrada nos pratos áticos de figuras vermelhas é restrita.

Estas espécies podem ser classificadas, basicamente, como sargos, salmonete, polvos, lulas e sibas; McPHEE, I. e TRENDALL, A.D Greek Red-Figured Fish-plates. 1987, p.21.

170 Apresentaremos uma amostra destes pratos em anexo ao trabalho. Optamos por esse caráter ilustrativo pelo

fato de que o tema do nosso trabalho não versa sobre as espécies consumidas ou mesmo sobre a prática da pesca, enquanto atividade técnica. O nosso objetivo permanece centrado no estatuto social dos pescadores.

171 ATENEU. O banquete dos sofistas. 276-277.

172 ATENEU. O banquete dos sofistas. 276; PLUTARCO. O banquete dos sete sábios. IV, 4.

173 Hipócrates apresenta as virtudes de alguns animais marinhos para a saúde –como laxativos, fortificantes,

diuréticos, emagrecedores, etc., assim como as precauções a serem tomadas com algumas espécies, principalmente as de água doce, por serem consideradas pesadas, algumas fariam mal à vista. HIPÓCRATES.

notadamente, e aqueles sobre os quais nós temos algumas referências, a venda dos peixes não parece ter sido realizada pelos próprios pescadores. O que percebemos é a existência de comerciantes de peixes174, homens que compravam o fruto da pesca e revendiam nos mercados. É claro que não era uma atividade valorizada, mas muitos metecos se dedicaram à ela obtendo uma integração ao corpo cívico da pólis175.

A epigrafia nos mostra que nas principais áreas de pesca na Grécia houve um sistemático controle sobre a pesca e a comercialização. A comercialização dos peixes e animais marinhos ganhou atenção, sobretudo, pela necessidade de regularização do preço de venda. Houve uma necessidade de garantir um preço justo aos consumidores, visto que os comerciantes aumentavam o preço de forma abusiva176.

Quanto a pesca, ela era, pelo que sabemos, submetida à impostos que tinham como destino por vezes grandes santuários rurais como Délos ou o demos ático de Halai, nesses casos os impostos eram repassados ao tesouro de Apolo177.

Esses impostos por vezes sobrecarregavam o pescador178 que praticava, na verdade, uma atividade extremamente exposta às intempéries do clima. Era possível que nada fosse pescado, ou que a pesca não fosse satisfatória o suficiente para que ficassem assegurados a sobrevivência, o ganho e os deveres. Portanto, não pensamos ser difícil de imaginar que o mesmo acontecesse em Atenas, pólis que detinha os mais importantes mercados de peixe da região do Egeu.

174 DUMONT, J. Halieutika. Recherches sur la pêche dans l'antiquité grecque. 1981, p.10.

175 Peidipos, filho de Cairéfilos de panticapéia, é portador de Trierarquia em Atenas por volta de 327 a.C.

DUMONT, J. Halieutika. Recherches sur la pêche dans l'antiquité grecque. 1981, p.10.

176 FEYEL, M. 'Nouvelles inscriptions d'Akraiphia'; in: BCH. 1936, pp. 11-36; HOMOLLE, Th. 'Comptes de

Hiéropes du temple d'Apollon Délien'; in: BCH. 1882, pp.1-167; VATIN, Cl. 'Un tarif de poisson à Delphes'; in:

BCH. 1966, pp. 240-280; 'Le tarif des poisson d'Akraiphia'; in: Inscriptions de Grèce centrale. 1971, pp. 95-109.

Segundo Vatin , o preço mais alto conhecido seria o do Atum , dois óbolos e dois chalques.

177Ou no caso de bizâncio, a soma adquirida iria em benefício da cidade.

178 Mesmo tardia, bastante significativa. Ver: ESTRABÃO. Geografia. X, 5.2, 18. " (...) durante a travessia, o

pescador explicou àqueles que o interrogavam que ele estava responsável da solicitação de uma diminuição do imposto pelos seus companheiros, que tinham que fornecer um tributo de cem dracmas, quando eles tinham tinham apenas condição de pagar cem".

Apesar da obrigatoriedade do imposto sobre a pesca, apesar de seu produto ter lugar fixo nos mercados, o pescador, juridicamente falando, não existia. Não podemos falar no pescador como um sujeito de direito. Ele não era reconhecido de tal forma.

Enquanto grupo social praticando a mesma atividade econômica também não. O pescador da documentação, tanto textual como imagética, é solitário na maioria das vezes. Quando não está só, está acompanhado de um ou dois companheiros. Numerosos mesmo somente nos relatos das pescas do atum ou do golfinho, por exemplo, que como sabemos eram verdadeiras expedições de caça. As chamadas thiases –corporações, associações- só passaram a existir a partir do III século a.C179.

É claro que podemos imaginar que esses homens se reconheciam como pescadores, como praticantes de uma mesma atividade. Compartilhavam técnicas e conhecimentos. Possuíam, portanto, uma identidade de grupo. Contudo, socialmente, não eram vistos e reconhecidos como tal.

A mencionada relevância dos mercados, e mesmo o aumento no consumo do peixe pela população, não significava que o estatuto econômico do pescador tenha modificado. De Homero à Oppien, o pescador sempre pertenceu aos setores desfavorecidos da população.

Primeiramente, o pescador parece ter sido um homem de condição livre, muito provavelmente cidadão. Não possuímos, na verdade, nenhuma referência que indique de forma explícita esta questão. Contudo, estes homens participavam da vida ateniense180 e dentre as referências a este grupo, não encontramos nenhuma que o qualificasse como um escravo, nem mesmo como um estrangeiro domiciliado, um meteco. E acreditamos que, dada

179 Antologia Palatina. VII, 295.

180 Embora saibamos que, como nos conta Aristóteles referindo-se à agricultores e pastores, estes homens não

participavam das assembléias, por exemplo, com tanta assiduidade. ARISTÓTELES. Política. 1318b, 10-16. "A

melhor de todas é, com efeito, a população agrícola, de modo que é possível estabelecer inclusive uma democracia alí, onde a multidão vive da agricultura ou do pastoreio. Por não possuir muitos bens, ela não dispõe de ócio, de modo que, raramente acode às assembléias; assim, ao carecer do necessário, ela dedica todo o seu tempo ao trabalho e não cobiça as coisas alheias, senão que acha mais agradável trabalhar do que tomar parte da política e dos cargos públicos."

a imagem construída da atividade por parte da maioria dos autores, uma vinculação à um desses grupos não teria sido negligenciada181.

Os pescadores eram, portanto, cidadãos. Cidadãos pertencentes, por sua renda anual, à classe censitária mais baixa da pólis dos atenienses: thétta182. Eram eminentemente homens pobres, que tinham uma vida dura183.

A sua riqueza, se podemos chamar desta forma, eram os seus utensílios, os seus instrumentos de trabalho184. Eram estes, juntamente com seu barco, que o acompanhavam durante toda a sua vida profissional.

Seu barco, por exemplo, era considerado como um companheiro fiel e que, após sua morte, o levaria até o mundo dos mortos. E não era barato ter e manter um barco. Um remo articulado (kwpeu/j), por exemplo, custava em torno de 5 dracmas185. Portanto, quanto mais

um barco de pesca era limitado realmente à atividade de pesca, mais simples ele era186. E mais cuidados regulares ele necessitava.

Uma manutenção regular era realizada, também, nas redes de pesca. Pelo menos uma vez por mês pois era freqüente que as redes se rasgassem durante as atividades.

Uma questão se impõe quando falamos das atividades ligadas aos momentos em que o pescador não está no mar. Se temos relativamente poucas referências à ele no que diz respeito ao tempo do trabalho, o que dirá sobre o seu tempo de homem 'da terra'.

Dumont acredita que os pescadores, nos momentos em que não saíam para o mar, se dedicavam à agricultura. Concordamos com essa afirmação para a pesca de rio e lagos. A produção, nestes casos, era pequena e dedicada, portanto, basicamente ao consumo. Mas no

181 Platão deixa claro sua condenação à prática da pesca, não sendo esta um trabalho digno de um cidadão.

PLATÃO. As leis. 823d-e.

182 Sobre as classes censitárias em Atenas ver introdução, p. 13. 183 JULIANO. Antologia palatina. VI, 25.

184 PSEUDO-TEÓCRITO. Les pêcheurs. vv. 5-14.

185DUMONT, J. Halieutika. Recherches sur la pêche dans l'antiquité grecque. 1981, p.5. 186 DUMONT, J. Halieutika. Recherches sur la pêche dans l'antiquité grecque. 1981, p.5.

caso da pesca de mar o peixe era vendido nos mercados e ainda haveria a possibilidade de salgar o excedente. Assim ele teria uma durabilidade maior e poderia ser vendido ou mesmo consumido pelo próprio pescador.

A questão é, não é possível afirmar com certeza que esses homens não se dedicavam inteiramente à atividade de pesca. Será que ser pescador, ou seja, enfrentar o mar desconhecido e possuir uma astúcia própria à sua atividade era algo tão fácil e simples que possa ser uma atividade complementar? Acreditamos que não.

Capítulo 2

As divindades da pesca e do pescador: a ambivalência do