1.3 Enquadramento Teórico Acerca da Depressão
1.3.5 O estigma e a exclusão social do doente mental
Uma vez doente mental sempre doente mental (A.Milles, 1981). O conteúdo desta frase é alimentado pela sociedade e pelo próprio doente, porque o estigma não vem só do outro também vem do próprio.
E. Goffman (1963) foi provavelmente o primeiro autor a debater esta problemática, estudando pessoas com diferentes situações mas que sentiam o peso social da diferença e da discriminação. No seu livro Estigma (1963: 11) inicia a explanação deste conceito explicando a origem deste termo, de origem grega – stigma - e que na altura referia-se “ (…) a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status de quem os apresentava.” Actualmente o termo tem outra concepção e é aplicado, regra geral, à própria desgraça. Porém, salvaguarda que determinado atributo que estigmatiza alguém pode confirmar a normalidade de outro (E. Goffman 1963:13). Neste sentido o noção de estigma varia de acordo com as características físicas ou comportamentais distintas de uma pessoa ou grupo. Na sociedade ocidental é completamente diferente ser-se doente físico e doente mental.
A conotação negativa dada ao doente mental deve-se ao desconhecimento e à ignorância das pessoas em geral face à “loucura”. O seu peso ainda é demasiado forte, bem como a sua história. Contudo, as evoluções farmacológicas das últimas décadas do séc. XX têm permitido controlar a sintomatologia e os episódios da doença com mais
facilidade, num espaço de tempo mais curto, dando mais estabilidade ao indivíduo, sendo estes avanços muito importantes para a modificação do estereótipo da doença mental. Esta modificação é fortemente influenciada pela comunicação social que consegue manipular, para o bem e para o mal, a opinião pública. Daí as recentes preocupações, por parte das instâncias governamentais, em dinamizar campanhas publicitárias para aumentar o conhecimento sobre esta temática, com o objectivo de diminuir a exclusão.
As pessoas com doenças estigmatizadas, estão frequentemente isoladas socialmente, dado que o público cria as suas ideias e atitudes baseadas nas imagens e nas histórias que lhe são transmitidas através dos filmes, das reportagens televisivas e das revistas. Importa também referir, que para se mudar atitudes e preconceitos os próprios doentes mentais têm um papel decisivo, através da participação em campanhas de educação, em associações e grupos de suporte, em considerar a hipótese de expor a sua experiência da doença.
Associado ao estigma está muitas vezes colado o conceito de exclusão social, que na sua essência tem um significado diferente. É um conceito recente e que é encarado como um processo de ruptura com a sociedade, que afecta grupos populacionais fragilizados e que conduz à ruptura dos laços sociais. Na visão sociológica “a exclusão é o produto ou o resultado de um defeito de coesão social global” (M.E. Leandro, 2008:4). Um excluído é quase sempre uma pessoa com frágeis laços sociais ou em ruptura social. A exclusão social sempre existiu desde que “…homens e mulheres vivem de forma colectiva e quiseram dar um sentido a esta vida em comunidade onde é suposto haver laços entre eles” (M.E. Leandro, 2008:8).
São vários os factores que podem conduzir à exclusão social: pobreza, doença, desemprego prolongado, crime, diferenças religiosas, delinquência, mecanismos de estigmatização que afectam grupos sociais específicos, etc. Assim, fazendo uso das palavras de E. Rodrigues (2000:777) exclusão não é desigualdade, nem desvantagem social, nem diferenciação social mas sim um processo de descolagem relativamente à sociedade envolvente. Encerra importantes dimensões simbólicas nomeadamente a estigmatização de grupos sociais considerados diferentes ou desviantes (caso do doentes mentais), afectando não só as relações sociais que estabelecem bem como o que eles pensam de si próprios, provocando consequências graves na sua auto-estima.
Alguns estudos recentes, Link et al. (2001) e Wrigth et al. (2000), têm examinado a conexão entre estigma, auto-estima e depressão severa e depararam com
uma relação inversa. Dos poucos estudos encontrados sobre estigma e depressão severa, existe um realizado por Rafuram et al. (1996), no sul da Índia baseado em entrevistas a pacientes que recebiam tratamento ambulatório numa clínica psiquiátrica e diagnosticados com uma mistura de depressão e desordens somatoformes. Os dados foram trabalhados qualitativamente, concluindo-se que a uma depressão mais severa está associado um maior estigma, o que dificulta a continuidade e o êxito do tratamento. Também J. Pyne et al. (2004) concluíram o mesmo ao afirmarem que o estigma pode funcionar como uma barreira para o início e continuidade do tratamento de doentes com depressão.
E. Goffman (1986), explicava que uma das formas de manipulação do estigma de pessoas que frequentavam uma instituição psiquiátrica ou que recorriam ao psiquiatra era evitar revelar este facto pois sentiriam que facilmente eram conotadas de “malucas”. Outra forma de manipulação proposta pelo mesmo autor era restituir o ex- doente ao mundo das pessoas competentes, aceitáveis e previsíveis, sem negar a doença. Na nossa sociedade a inserção laboral sendo factor que distingue e estratifica os grupos sociais, atingiu um tal limiar técnico que influencia e sistematiza as relações produtivas entre si, mas também organiza a família, o sistema pedagógico e as esferas éticas e políticas. Actualmente o trabalho define a pessoa, já não se pergunta ao indivíduo quem é, mas o que faz. O trabalho produz sentimento de utilidade, gratificação, permite o acesso a determinados estratos sociais e aquisição de bens e serviços. Quem se vê privado dele, seja porque razão for, vê diminuir significativamente a sua rede social e a sua qualidade de vida. As pessoas que sofrem de doença mental regra geral têm sérias dificuldades em manter um emprego. Os motivos são vários: recaídas, dificuldade em cumprir ritmos e hábitos de trabalho, dificuldades de relacionamento. A reinserção profissional torna-se um sério problema para esta população. O mercado de trabalho não está adaptado a estes indivíduos e os locais para emprego protegido são escassos e na maior parte dos casos dentro de instituições psiquiátricas ou promovidos pelas mesmas. Assim não será de estranhar o elevado índice de desemprego e de reforma por invalidez. Para além dos aspectos acima referidos condicionados pelo estigma, existe ainda outro contemplado por E. Goffman, que é o facto de ser normal o estigma se expandir pelos relacionamentos mais próximos do doente mental, nomeadamente na família que deixa de ser considerada “normal” aos olhos da sociedade.
S. Sontag (1978), tem uma perspectiva interessante relativamente a este assunto. Para ela a sociedade não aceita as pessoas que falham o teste da doença fatal. Esta é
compreendida como a linguagem para dramatizar o mental, sendo uma forma de auto- expressão. No ideal pós-moderno um carácter bem equilibrado tem uma expressividade limitada e controlada e o comportamento é redefinido pelo seu potencial de excesso. Contudo, é dentro desta mesma sociedade que o estigma necessita de ser “combatido”, é nela que a pessoa com doença mental habita, trabalha, convive, acede aos serviços comunitários, participa em actividades de lazer, efectivando a sua participação comunitária. F. Jorge-Monteiro e T. Madeira (2007) consideram que a comunicação social desempenha um papel fundamental na desestigmatização do doente mental, pois podem promover uma aproximação do público à realidade dessas pessoas e assim corrigir as visões distorcidas que têm desta doença. Talvez o caminho passe pela aceitação e pela normalização.