3.4 As dificuldades no interior da Universidade
3.4.1 O estranhamento do modelo acadêmico-científico
Ao iniciar seus estudos na Universidade de São Paulo, um sentimento é comum a quase todos os estudantes entrevistados: estranhamento. A entrada na universidade e as adaptações que isso requer parecem ter grande impacto sobre os estudantes, sendo o início dessa experiência bastante difícil. Os estudantes falaram a respeito de “choques”
e “baques” em suas adaptações ao modelo acadêmico-científico universitário.
“O tempo do estranhamento” é a forma como Coulon (2008), que pesquisou a experiência de estudantes franceses na Universidade Paris VIII, define os primeiros momentos após o ingresso no Ensino Superior. A chegada à universidade é marcada, segundo o autor, por vários confrontos que são vividos diferentemente a depender das trajetórias anteriores de cada um. Se a diferença entre o modo de organização do ensino médio e da universidade – já que são distintas e muitas vezes destoantes as formas de realização de trabalhos, a organização curricular, as avaliações, entre vários outros aspectos –, é sentida por todos os estudantes, no caso daqueles entrevistados nesta pesquisa, o estranhamento é ainda maior. No caso deles, os “choques” foram marcados especialmente pela educação a que tiveram acesso e pela origem social, na medida em que vários deles referiram-se à precariedade da educação recebida, bem como ao fato de serem os primeiros de seus grupos familiares a cursar o ensino superior ou a ingressar em uma universidade pública.
Karina, estudante do curso de Relações Internacionais, relata que o início da frequência à universidade foi muito difícil. Por ter realizado um curso técnico em cuja organização curricular algumas áreas não eram contempladas e por ter ficado sete anos sem estudar, essa estudante diz que se sentia sempre “um passo atrás” em relação aos colegas de turma. Embora tenha grande capacidade de estudo e tenha realizado um curso preparatório para o exame do vestibular considerado bom, pago pelo patrão, Karina afirma que sua adaptação inicial ao mundo acadêmico foi bastante difícil.
Considerando a universidade como um “mundo novo”, ela afirma que teve dificuldade de lidar com esse novo mundo e que se sentia “perdida”. Instada a falar sobre aspectos negativos de sua experiência universitária, a estudante lembra da dificuldade de adaptação:
Eu acho que a dificuldade de se adaptar é um ponto muito difícil assim. É complicado você mudar totalmente de situação, a adaptação é muito difícil porque é um novo jeito de pensar, às vezes até um novo jeito de agir e uma realidade totalmente diferente da que a gente está acostumada. (...) ... eu, pelo menos, não tive uma base muito firme saindo do colégio para vir para cá, então eu tive que construir uma estrutura para poder me manter aqui, para poder conseguir levar o curso, conseguir acompanhar as matérias, acompanhar tudo, então essa adaptação é um pouco complicada porque eu
acredito que quem venha de escola particular ou quem estudou sempre em bons colégios, já tenha mais ou menos o ritmo que a faculdade tem de estudo, de esforço, já venha mais ou menos ciente do que está acontecendo. E quando tem pais que fizeram Ensino Superior, são rodeados por pessoas que já fizeram Ensino Superior, eu acho que já tem uma experiência, mesmo que for só de ouvir falar ou... mas já tem uma idéia do que vai enfrentar. E essa adaptação, quando você vem totalmente crua, sem experiência, sem conhecer ninguém que passou por isso, sem conhecer os procedimentos da faculdade, então é bem difícil, é um ponto bem difícil.
A estrutura a que Karina se refere diz respeito às formas pelas quais ela enfrentou as dificuldades acadêmicas geradas, principalmente, por certa defasagem de conhecimento. Ela relata que sentiu necessidade de voltar aos conteúdos de ensino médio para buscar a base que não tinha, sempre precisando recorrer a material complementar como livros e apostilas que possuía, textos complementares indicados pelos professores a seu pedido e à biblioteca, da qual se tornou frequentadora assídua.
Outra dificuldade que Karina enfrentou foi a grande quantidade de literatura estrangeira que teve de ler. A estudante afirma que não imaginava que fosse ter de ler tantos textos em inglês no primeiro ano da faculdade e que o fato de ter feito o curso “foi sorte”, pois sem esse conhecimento avalia que não teria ultrapassado os dois primeiros semestres da graduação. Mas, mesmo tendo estudado inglês, Karina afirma que tinha também de se valer de outras obras em português para conseguir acompanhar melhor o conteúdo.
Aumentando suas dificuldades, o longo tempo despendido entre sua casa na zona leste e o campus da USP no Butantã (zona oeste), seis horas todos os dias (lembrando que ela só conseguiu apoio moradia no segundo ano), lhe prejudicava por desperdiçar um tempo em que poderia estar estudando. Contudo, apesar de todas essas dificuldades, Karina considera que teve um bom rendimento:
Então no começo foi muito difícil. Mesmo assim, meu desempenho no primeiro semestre foi muito bom, eu achei muito bom. Apesar de...
assim, por exemplo: os meus colegas sempre tinham nota dez, nota nove. E eu ficava no sete, no oito. Mas eu já achava muito bom para quem já estava tanto tempo fora do colégio e... assuntos tão novos, trabalhos tão novos, não estar tão acostumada com o ambiente... Eu achava bom, mas sempre tinha que pesquisar muito, ler muito. Então era um trabalho paralelo ao da faculdade. Eu não podia só esperar pela explicação do professor ou só me dedicar aos textos que ele dava. Eu sempre tinha que... usar material complementar porque no começo foi bem difícil.
Para sua adaptação ao modelo acadêmico-cientítico da universidade contribuiu, afora sua grande capacidade de estudo, disciplina e autodidatismo, também a experiência do seu namorado – veterano do curso de História. Como vimos, foi ele quem informou Karina a respeito dos benefícios e bolsas existentes na universidade.
Além disso, ele a orientou a respeito do modus operandi universitário: como as coisas funcionam, como fazer trabalhos, que autores ler, entre outras dicas preciosas. Karina fala sobre como a colaboração do namorado fez diferença para sua adaptação à universidade:
... ele me ajudou muito, muito, muito porque ele já estava no ambiente, já sabe como funcionam as coisas... Então, quando você tem uma pessoa para te indicar os caminhos e para te mostrar: “olha, na faculdade é assim, os professores gostam assim, os trabalhos têm que ser feitos assim”. Nossa, ajuda muito. “Olha, você tem dificuldade com isso? Esse autor é bom, lê assim”. Então, ajuda bastante uma
pessoa que esteja assim... que te conheça e saiba das suas necessidades.
Todos esses fatores contribuíram para que Karina conseguisse construir uma base sobre a qual, em sua avaliação, será mais fácil conduzir os próximos anos: “Acho que o primeiro foi muito difícil, agora já está mais tranqüilo.”
Outro estudante que teve dificuldades de adaptação ao modelo acadêmico universitário foi Carlos, aluno do curso de Matemática Aplicada a Negócios. Suas principais dificuldades decorrem, principalmente, da defasagem de conteúdo do ensino médio. Ele explica que no colégio agrícola não estudara vários conceitos importantes, pré-requisitos para acompanhar as disciplinas no seu curso de graduação. Sem dominar tais matérias, o estudante precisava buscar esses conhecimentos por conta própria.
Carlos fala sobre a diferença que sentiu em relação à sua experiência escolar anterior:
... a base que eu tinha no Ensino Médio era muito, muito fraca, então eu sofri um pouco nas disciplinas porque aqui não é como no Ensino Médio que a gente fala para o professor: “ professor, não entendi, mostra isso para mim de novo”, aqui não. Aqui vai passando assim e o professor fala: “vai, pega um livro e estuda. Aqui a gente passa por cima e vocês têm que aprender, tem que correr atrás”. Então tem muita coisa do Ensino Médio que eu deveria saber e não sabia.
Somado a isso, existia ainda o que Carlos denomina de falta de “ritmo para estudar”, aumentando sua dificuldade inicial. Ele afirma que no Ensino Médio não havia grandes exigências em relação ao estudo e isso fez com que não desenvolvesse hábito de estudo.
Assim, a defasagem de conteúdos do ensino médio, a falta de hábito de estudar, além do cansaço gerado pelas viagens diárias para sua cidade natal (lembrando que ele só conseguiu auxílio moradia no segundo ano da faculdade) concorreram para um começo difícil para Carlos na USP. Embora sua média ponderada (6,0) esteja acima da média geral do curso (4,7)17, esse estudante reprovou em três disciplinas dentre as 18 cursadas nos três primeiros semestres. A despeito da falta de conhecimento de vários conteúdos do ensino médio, Carlos avalia que não deveria enfrentar tantas dificuldades em função de sua grande facilidade na área matemática, facilidade essa que fez com que ganhasse uma bolsa de iniciação científica júnior e, estimulado pelo orientador – professor da USP, resolvesse fazer o curso de Matemática Aplicada a Negócios. Em suas palavras:
... igual no caso de PA e PG, progressão aritmética e progressão geométrica, quando eu prestei o vestibular eu não sabia; eu não sabia, mas eu fazia na raça... (...) Esse semestre, esse terceiro semestre que acabou agora, eu já fui para... fiz três recuperações, peguei uma DP [dependência] direto, e não é coisa que devia acontecer, né, que eu acho que eu tenho capacidade.
A posição escolar de destaque que ele ocupou no ensino fundamental e médio contrasta com as dificuldades enfrentadas atualmente: “...até a oitava série, eu sabia que eu era bom, hoje aqui na faculdade eu me sinto ruim perto dos meus colegas”. A dúvida quanto à própria capacidade e a sensação de incompetência parecem trazer sofrimento a Carlos. Sua experiência universitária remete-nos à história de três adolescentes francesas que enfrentaram a dolorosa mudança de colégios medianos para um “liceu”
17 Ver Tabela 8.
elitizado, discutida por Broccolichi (1997). Consideradas ótimas alunas nas escolas de origem, essas estudantes passaram a enfrentar várias dificuldades na nova escola, experimentando uma queda brutal em seus valores escolares, o impacto de serem queridas em um lugar e desprezadas em outro e um sentimento de fracasso por ocupar uma posição desvalorizada na hierarquia escolar (Broccolichi, 1997). Para lidar com situação semelhante, Carlos lançou mão de um expediente curioso:
Porque aqui na faculdade, o cara tira dez, eu tiro cinco, o cara tira nove, eu tiro cinco. O cara passa direto sobrando quatro pontos e eu (...) tenho que tirar dois pontos a mais que a média para conseguir fazer a recuperação, aí eu me sentia muito ruim. O modo de eu me sentir bem é ir fazer prova do Ensino Médio, do ENEM, e ver que eu vou bem. Então, eu penso: “não é que eu sou ruim, é que os caras aqui são melhores do que eu”.
Carlos parece ter encontrado uma forma de afirmar para si próprio a sua capacidade. Além disso, como vimos, no segundo ano ele conseguiu apoio moradia e o fato de não precisar mais viajar todos os dias parece ter lhe proporcionado maior tranqüilidade nos estudos. Também neste ano ele foi beneficiado com uma bolsa de iniciação científica e acredita que “a tendência agora é melhorar”.
Certa desestabilização subjetiva também parece ter marcado o início da experiência de Luiza, 27 anos, aluna do curso de Música, na Universidade de São Paulo – campus Butantã. Sua mãe concluiu o ensino fundamental e apesar de seu pai ter cursado tardiamente Economia em uma universidade pública, a condição financeira familiar não lhe permitiu realizar curso preparatório para o primeiro vestibular que prestou na universidade federal do estado do qual é proveniente. Tendo se preparado sozinha para esse exame, Luiza foi aprovada e realizou o curso de Relações Públicas.
No último ano da graduação, resolveu prestar o curso de Música na USP, tendo novamente se preparado sozinha para o vestibular da Fuvest. Aprovada, essa estudante mudou de estado e, já tendo realizado um curso superior, a cidade de São Paulo foi o que representou o “mundo novo” para essa estudante e à qual ela teve de se adaptar primeiramente. No entanto, não obstante sua experiência universitária anterior, Luiza relata que o começo de sua nova experiência universitária foi bastante difícil. Para além do estranhamento da mudança de estado, de cidade, também o curso lhe assustou:
E então eu me assustei um pouco no início com tudo, com a faculdade, para mim o curso é difícil, sabe, daí eu fiquei assustada, fiquei... tive que me reorganizar, estudar mais e... coisa que, agora que eu estou indo para o terceiro ano, que as coisas estão... pelo menos, eu aprendi a lidar com tudo assim, mas o primeiro ano foi... foi tenso.
Não tendo nenhum músico na família, Luiza aprendeu a tocar piano sozinha.
Posteriormente, interessou-se pelo violoncelo, mas seu aprendizado com esse instrumento ocorreu por meio de projetos existentes em sua cidade natal, nunca tendo cursado escolas de música ou conservatórios. Essa forma assistemática de estudo trouxe lacunas para a sua formação musical, lacunas essas que a estudante descobriu ao ingressar no curso de Música da USP – campus Butantã:
E quando eu cheguei aqui, eu vi que eu tinha muitas lacunas na minha formação musical e que eu só passei na prova específica por causa do instrumento assim, não por causa de teoria musical (...) ... porque se fosse depender de teoria musical, eu não teria entrado. Então, eu vi esse monte de lacuna e eu fiquei meio desesperada... porque é muito
diferente do que você encontra das pessoas que entram aqui, cada dia eu vejo que é uma trajetória meio singular, sabe, quer dizer, porque as pessoas tiveram uma formação sólida e desde sempre, contínua. E comigo foi mais por vontade minha mesmo, não que os meus pais não tivessem vontade, mas, na verdade, eles não tinham condições de me proporcionar isso e então, quer dizer, é muito diferente. Então, sei lá, tenho que aprender a lidar com isso, com esse desnível e estudar para tentar recuperar isso e aprender, inclusive, que isso não me abatesse tanto assim como me abateu no início, sabe, essa foi a maior dificuldade.
Embora sua média ponderada (8,0) esteja acima da média geral do curso (7,6)18, Luiza considera que suas notas não são boas e afirma que tem de “estudar muito para tirar uma nota medíocre”. Muito embora se trate de outro tipo de formação – a formação musical –, essa estudante, assim como Carlos, parece se ressentir das dificuldades enfrentadas e tem de lutar para não se deixar abater (ou continuar abatendo) pelo
“desnível” existente entre ela e os colegas. Uma das formas que parece ter encontrado para lidar com isso é uma visão crítica acerca do universo escolar. Luiza teceu muitas críticas à educação, em geral, e à educação pública que recebeu. Ademais, tal visão crítica estendeu-se para a universidade; ela afirma que, como já realizou um curso superior, atualmente não se preocupa com notas, mas sim com seu aprendizado e que este não é refletido em suas notas.
As dificuldades de adaptação ao modelo acadêmico-científico acometeram também a estudantes com trajetórias escolares muito bem sucedidas. Márcio, 19 anos, estudante do curso de Medicina e Ciências Médicas da Universidade de São Paulo, campus Ribeirão Preto, filho de um Agrônomo e de uma Biomédica, oriundo de uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, cursou toda a educação básica em escolas públicas e saiu diretamente do Ensino Médio para a faculdade, sem realizar curso preparatório para o vestibular. Esse estudante nos conta que se preparou sozinho para o exame, utilizando-se para isso dos livros didáticos que possuía, e dedicando-se com maior ênfase às disciplinas que compunham a segunda fase do vestibular para Medicina.
Márcio considera que uma das coisas que mais o ajudou em sua preparação foi resolver provas de vestibulares anteriores: “eu acho que se não fosse isso, eu não teria passado”.
Além disso, ele cultivava o hábito de estudar com afinco desde o início de sua escolarização. O estudante obteve êxito já em sua primeira tentativa de ingressar no curso mais concorrido da USP – Ribeirão Preto. Mas, apesar da raridade e do sucesso de sua trajetória escolar, já que o vestibular para o curso de Medicina é um dos que requer, em geral, pelo menos um ano de cursinho mesmo para aqueles oriundos de escolas particulares, Márcio relata ter enfrentado algumas dificuldades no início do curso no que tange ao desempenho acadêmico, ficando prestes a ir para recuperação. Ele aborda essa queda de rendimento na universidade, afirmando que, durante a educação básica, sempre foi “bom aluno”, mas depois que ingressou na faculdade “mudou”. Entretanto, no segundo semestre do curso, seu rendimento apresentou melhoras, que tiveram continuidade no terceiro semestre.
Percebemos, assim, que, dentre os estudantes entrevistados, mesmo aqueles com trajetórias escolares “brilhantes”, usando expressão de Lahire (1997), com grande capacidade de estudo, de disciplina e de auto-didatismo, enfrentam dificuldades no início de sua experiência na Universidade.
18 Ver Tabela 8.
Muitas vezes, é na relação com os colegas que os estudantes percebem
“defasagens”, “desníveis”. Essas diferenças, no entanto, dizem respeito não apenas a aspectos acadêmicos, mas também sociais. E é aí que nos parece residir o maior e mais importante fator de dificuldade para os estudantes egressos de escolas públicas participantes desta pesquisa. É na relação com os colegas que esses estudantes experimentam as dores da convivência com a desigualdade social, sendo essa uma das principais dificuldades enfrentadas pelos estudantes em suas experiências universitárias.