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Capítulo 2 – ENSINO SUPERIOR: O PERÍODO NOTURNO

2.3 O estudante do período noturno

O predomínio do período noturno no ensino superior (60,1% do total das matrículas) merece atenção quanto à caracterização do seu estudante, embora, inexistam estatísticas oficiais que discutam sua condição socioeconômica, sexo, faixa etária, atividades diárias e outros atributos pessoais. É provável que a elevada concentração no período noturno seja decorrente da atual conjuntura do país, pois permite que o estudante exerça uma atividade profissional remunerada durante o dia no transcorrer dos anos de curso de graduação, de forma a obter recursos financeiros para a realização do curso, ou até mesmo, para apoiar economicamente sua família. Na atualidade, o estudante do ensino superior brasileiro busca sobretudo, no curso de graduação sua formação profissional, pois a aquisição de conhecimentos no período, o desenvolvimento de novas habilidades, a obtenção do diploma, a vivência pessoal e os relacionamentos estabelecidos com colegas e professores, podem propiciar ao estudante maior facilidade para sua inserção e competitividade no mercado de trabalho, após a conclusão do curso. O diploma é apresentado como um “produto” valorizado pela sociedade e que pode inclusive ter “grife”, conforme cita Sampaio (2000); tal constatação é ratificada por Bourdieu (2007) quando menciona que a entrega dos diplomas em renomadas instituições, em ge ral, é feita em cerimônias solenes, comparáveis à sagração do cavaleiro.45

No país, a graduação possibilita que a inserção do estudante no mercado de trabalho ocorra em nível mais elevado, capaz de trazer ao estudante, uma melhor condição de vida, seja pela mudança na sua condição socioeconômica, ou mesmo, pela sua manutenção de uma favorável condição atual. Casal (2003), através do Quadro 4, apresenta o processo e os itinerários de transição educação-trabalho, caracterizando como possibilidades de mobilidade social, de reforço de posições sociais, de defesa de mobilidade descendente, de redução de riscos de exclusão social, ou como forma de cair invariavelmente nela. Como destaca Casal (2003), os

45 Bourdieu (2007, p. 39) afirma que a formação e transmissão de competência técnica e de seleção dos mais

competentes do ponto de vista técnico, mascaram uma função social, que é a consagração dos detentores estatutários de competência social, caracterizando assim, a nobreza escolar hereditária. (grifo do autor).

resultados da inserção social e profissional dos jovens são afetados por diversos fatores, tais como: decisões individuais, condições socioeconômicas do entorno familiar, personalidade do indivíduo, oportunidades, entre outros; entretanto, o autor afirma que a relação que o indivíduo pode estabelecer entre seu ciclo formativo, as oportunidades de emprego e a profissionalização, podem determinar em médio prazo, o êxito e o fracasso social.

Quadro 4 – Itinerários de transição educação-trabalho

Fonte: Casal (2003), p. 182.

O jovem brasileiro identifica o diploma de curso superior com o itinerário de excelência ou de suficiência, possibilitando que atue no segmento primário, superior ou inferior. Assim, o sonho da família brasileira típica das décadas de 1950 e 1960 de “ter uma casa própria”, que representava conforto, segurança e proteção, migrou nas décadas seguintes para que os filhos tivessem “um diploma de curso superior”, como sinônimo de formação profissional adequada, garantia de participação no mercado de trabalho, salá rio adequado e sobrevivência digna.46

Sabe-se da importância que o curso superior tem na formação profissional do jovem; no entanto, a formação do homem, do cidadão, do ser pensante, nas dimensões econômica, social,

46 Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) em nível nacional de 2002/2003, divulgados pelo Instituto Brasileiro de

Geografia e Estatística (IBGE) em 29 de agosto de 2007, aponta que a renda média mensal da família sem nenhum integrante com curso superior é de R$1.215,24. Os rendimentos mensais triplicam para as famílias que têm um integrante com curso superior (R$3.817,96) e saltam para R$6.994,98 para as famílias com pelo menos duas pessoas com curso superior. Fonte: GRABOIS, Ana Paula. Curso superior aumenta renda familiar. Valor Econômico, São Paulo, p. A6, 30 ago. 2007.

Sistema Educativo Inserção Laboral Mercado de Trabalho Itinerários Formativos Trajetórias Transitórias Segmentação de Mercado

de excelência de suficiência de insuficiência de rejeição de êxito precoce de aproximação sucessiva de precariedade Erráticas Primário superior Primário inferior Secundário Marginal

política e cultural, conforme Coelho (1998), também devem ser contempladas. A posição de Coelho é reforçada por Furlani (1998) quando ressalta que a educação deve abranger não somente a formação profissional do estudante, mas sobretudo, a formação geral e humanista do cidadão dotada de visão crítica da sociedade, que significa formar o cidadão ético, ou seja, a possibilidade de ampliar essa preparação de recursos humanos capacitados profissionalmente para agentes de transformação social. Pode-se concluir que, as afirmações de Coelho (1998) e Furlani (1998) destacam o papel da universidade na formação do ser pensante: ético, crítico, voltado ao saber e à pesquisa, que além da formação profissional do cidadão deve prepará-lo como agente de mudanças na sociedade.

Quanto à elevada concentração de matrículas no período noturno, além dos estudantes que trabalham durante o dia e por isso estudam à noite, há também que se considerar, principalmente em cidades menores, que há estudantes que cursam este período, pela falta de oferta nos cursos pretendidos por eles em suas cidades, ou seja, o curso pretendido pelo jovem, somente é ofertado no período noturno em instituições de ensino, em cidades próximas à sua. Este aspecto é por vezes incentivado por algumas prefeituras municipais no Estado de São Paulo que oferecem transporte gratuito a estudantes do ensino superior para sua locomoção a cidades vizinhas, a fim de atender à demanda da comunidade local; em geral, este tipo de transporte, somente é oferecido no período noturno. Deve -se considerar também, uma particularidade do corpo docente que atua no período noturno no ensino superior, em termos de maior disponibilidade (oferta). O corpo docente dos cursos noturnos é constituído de professores com dedicação exclusiva à docência, e também, de profissionais que durante o dia trabalham na área empresarial, atuando como professores no período noturno – condição similar à do estudante-trabalhador.