Capítulo 1 – ATIVIDADE DE ESTUDO
1.2 O estudar como atividade social
Toda atividade humana é potencialmente produtora de conhecimentos, desde os sensíveis até os mais elaborados intelectualmente pela racionalidade. Então, a diversidade de atividades que os homens realizam na sua vida cotidiana adquire uma unidade quando se as compreende, em parte, pelo signo da cognição.
No entanto, ao tratarmos das atividades em sua especificidade, encontraremos diferentes peculiaridades nos conteúdos cognitivos. Esses poderão representar conhecimentos motores de uso do próprio corpo, de coordenação entre os sentidos, técnicos operativos e próprios de uma ação, ideias preconcebidas, entre outras. Portanto, ao pensar sobre as ações de estudo se deve buscar, igualmente, a peculiaridade de seus conteúdos.
ϯϱ
Segundo Davidov (1988, p. 230), a atividade de estudo pode distinguir-se das outras porque tem como constituintes básicos “os conceitos científicos, as leis da ciência e os modos de resolver os problemas práticos baseados nessas leis e conceitos.” Portanto, há nessa atividade um tipo especial de assimilação dos conhecimentos acumulados pela humanidade, o conhecimento científico.
A ciência, por sua vez, não pode ser enquadrada no conjunto das atividades naturais dos homens. Não pode ser compreendida como pura impulsão intuitiva de pesquisa sensível das qualidades objetivas dos materiais que correspondem às necessidades biológicas. Diferente dessas, aquela é uma atividade histórica e culturalmente constituída, datada em um momento no qual surgiram necessidades e interesses sociais que a condicionaram como atividade humana.
Pode-se compreender, então, que a atividade de estudo, sendo escolarizada e constituída com conhecimentos da ciência, é, por sua vez, igualmente histórica e está diretamente correlacionada com os interesses sociais. Depreende-se disso que não podemos considerar a atividade de estudo como exclusivamente individual, produzida por atributos próprios de um sujeito abstrato. Cumpre conhecê-la no conjunto de sua estrutura, como atividade social.
Então, uma possibilidade de consideração sobre a sua estrutura social pode partir das características do pensamento. Como processo do conhecimento e sob esse aspecto social, o pensamento é antes de tudo grupal (MARX, 2004). Não é um agregado de diversos pensamentos, que somados criam algo novo, senão um processo de reflexão conjunta que no fluxo da comunicação adquire uma lógica, ou seja, uma forma de ordenação da representação das ideias que refletem a produção de conhecimento e a consciência constituída pelos homens sobre um dado objeto ou fenômeno.
Depreende-se disso que o produto da atividade de estudo tem como característica a produção de um determinado tipo de consciência sobre os fenômenos por ela examinados. Esses produtos do estudo são conscientes. O que vale dizer que eles são sociais, dado que resultam da atividade de diversos sujeitos que, em ações individuais, produzem conhecimento, que compartilham , mas o fazem a partir daquilo que se acumulou historicamente pela sociedade, em um constante movimento dialético entre indivíduos e grupo.
No ensino superior e de pós-graduação, por exemplo, as atividades de estudo aparecem sempre circunstanciadas pela escolarização acadêmica que regula, analisa, controla e orienta os rumos da atividade de pesquisa. Nela aponta-se a necessidade de recuperação dos
ϯϲ
conhecimentos já produzidos por outros pesquisadores individuais. São esses que dão sustentação às argumentações que se produzem na defesa de um novo conhecimento sobre a realidade.
Nesse tipo de pesquisa da realidade, cada indivíduo posiciona-se - quer assuma ou não - filosófica e politicamente frente à realidade e às proposições que pretende sobre o seu objeto de estudo, que, por sua vez, faz parte das problemáticas reais da vida social, ou da vida de outros e vários indivíduos. Faz sentido, portanto, como prática que traz benefícios à vida de todos.
Os caminhos para se atingir os objetivos da pesquisa, por exemplo, são produzidos historicamente num constante processo de acumulação de experimentos individuais, de tentativas e erros, de correções e reorientações metodológicas, que são disponibilizadas por meio dos trabalhos científicos à comunidade de estudiosos. Nesses métodos, encontram-se proposições sobre os caminhos para o conhecimento da verdade sobre a realidade dos fenômenos físicos e sociais, dos fenômenos humanos, do conhecimento dos homens sobre si mesmos.
Qualquer estudante que faça parte desse movimento de produção de conhecimentos terá como fundamento da sua atividade de estudo, a prática social já desenvolvida. Terá como modelo para as suas ações, as ações de muitos outros estudantes e pesquisadores. Adquirirá desses, um conjunto de princípios para ordenar o pensamento, de técnicas de busca de informações e uma discussão sobre a validade dos princípios aplicados ao pensamento. Como afirmam Abrantes & Martins (2007) “O sujeito cognoscitivo é o ser humano, entendido como sujeito coletivo, social e histórico, que produz conhecimento num determinado modo social de produção da existência, que, na atualidade, é o capitalista.”
Dermeval Saviani ( p.50) esclarece bem essa questão, quando afirma que,
Sem o domínio do conhecido, não é possível incursionar no desconhecido. É aí que está também a grande força do ensino tradicional: a incursão no desconhecido se fazia sempre através do conhecido, e isso é um negócio muito simples; qualquer aprendiz de pesquisador passou por isso, ou está
passando, e qualquer pesquisador sabe muito bem que ninguém chega a ser pesquisador, a ser cientista, se ele não domina os conhecimentos já existentes na área em que ele se propõe a ser investigador, a ser cientista.
Em segundo lugar, o desconhecido não pode ser definido em termos
individuais, mas em termos sociais, isto é, trata-se daquilo que a sociedade e,
no limite, a humanidade em seu conjunto desconhece. (grifo nosso)
Um fato esclarecedor do aspecto social do conhecimento é que, no nível de estudos de pós-graduação todo o conhecimento deve ser apresentado para uma avaliação por um grupo de pares, de estudiosos que atuam na mesma área, e disponibilizado, por meio de artigos ou
ϯϳ
livros, à comunidade. O estudo científico só faz sentido quando é compartilhado e sujeito à crítica.
Nos anos iniciais da escolarização isso não é diferente em relação ao conteúdo e às intenções de socialização. Como, por exemplo, Mello & Farias (2010, pg.58), ao tratarem do papel do professor como mediadores do acesso que as crianças têm em relação ao conhecimento, afirmam que,
A relação que se estabelece entre a criança e a cultura é, na Educação Infantil, mediada inicialmente pelo/a professor/a que organiza e
disponibiliza os objetos da cultura material e não material para as crianças.
Quanto mais o/a professor/a compreender o papel da cultura como fonte das qualidades humanas, mais intencionalmente poderá organizar o espaço da escola para provocar o acesso das crianças a essa cultura mais elaborada que extrapola a experiência cotidiana das crianças fora da escola. (grifo nosso) Na produção do currículo, então, a escolha dos conteúdos tem como fundamento, além dos aspectos técnicos e instrumentais do processo de ensino, uma intencionalidade já implícita de possibilitar a participação social dos educandos. Essa participação social é sempre, de alguma forma, circunstanciada pelas relações políticas e ideológicas. Ela contém, portanto, objetos de pesquisa e estudo referentes aos interesses sociais.
Os processos do pensamento que acompanham o ensino dos conteúdos estudados são formas social e historicamente lógicas de organização do conhecimento, que, internalizadas pelos aprendizes se transformam em forma lógica do seu próprio pensamento. Como afirma Ilienkov (1984, p. 3), “[...] compreendemos o pensamento como um componente ideal da atividade real do ser social, que transforma com o seu trabalho a natureza exterior e ao mesmo tempo a si mesmo”. As formas de organização da atividade estudo, concebida como tal na escola, são formas históricas que são ensinadas, intencional ou inconscientemente, aos alunos e formam neles o caráter social desta atividade, isto é, as suas características estruturais e funcionais como dadas pela prática social.
Por exemplo, em conversas com alunos e professores do ensino fundamental, médio e superior encontrei respostas à pergunta sobre o que é estudar, que apontam para uma forma socialmente construída sobre o significado da prática da atividade escolar. É assim que se considera o estudar, uma atividade individual. As respostas, apesar de diferentes, trazem sempre uma mesma estrutura da atividade: estudar é prestar atenção, copiar, fazer a tarefa, perguntar para a professora, memorizar, fazer resumos, etc. As respostas remetem sempre a operações já padronizadas por uma cultura escolar. Impressionante foi notar que esta estrutura é a mesma para alunos do ensino fundamental e para alunos de graduação superior, e até mesmo para professores.
ϯϴ
Outro fato interessante é a resposta à pergunta: Quem ensinou a você, estudar? Na maioria das respostas, encontrei a palavra “ninguém”. Em outras, “eu aprendi sozinho”. Nas que remetem ao professor e que foram complementadas com a pergunta sobre o que é estudar, a resposta seguinte remete àquela estrutura já citada acima, um conjunto de operações práticas para a reprodução do conhecimento na forma como ele foi apresentado.
Portanto, a atividade de estudo é social, porque não parte dos interesses exclusivamente individuais, nem recorre a métodos produzidos exclusivamente por um indivíduo no exato momento de sua vida, senão que refletem a própria história de cada um no contínuo da história social.