5 1 A INICIATIVA PÚBLICA
3. O ESTUDO DE CASO
Não podemos dissociar as várias técnicas utilizadas nesta pesquisa, do estudo de caso. Este método privilegia a qualidade e a profundidade da informação, não visando a generalização dos resultados da investigação pela vertente da quantidade ou padronização, mas partindo do princípio que qualquer caso que se estude em profundidade pode ser considerado representativo de muitos outros ou de todos os casos semelhantes. Tal como confirma Pais (2001: 109) "(-..) um caso não pode representar o mundo, embora possa representar um mundo no qual muitos casos semelhantes acabam por se reflectir".
O estudo de caso exige a concentração da análise num universo empírico de pequena dimensão. Neste sentido, seleccionou-se um determinado contexto sócio-espacial que serve de configuração às estratégias habitacionais, o concelho de Aveiro (vd. infra, p . l l l ) ; privilegiou-se uma política de habitação, entre as 5 analisadas e uma amostra de pessoas que recorreram a ela.
Optamos pela política de promoção directa - habitação social - por ser uma estratégia de habitação que actua sobre os segmentos da população em situação de insolvência, ou seja, privilegia aqueles casos que não conseguem resolver a questão do alojamento pela lógica do mercado. Neste sentido, decidimos analisar as trajectórias habitacionais dos jovens beneficiários desta estratégia habitacional, de forma a conhecer as suas especificidades e compreender as razões que os levaram a tomar a opção por uma oferta pública de alojamento.
Consideramos pertinente analisar os percursos habitacionais desenvolvidos por estes jovens, em situação de insolvência, pela riqueza que as suas experiências habitacionais poderão trazer a esta análise.
Entendemos que só podemos analisar o impacto que as estratégias habitacionais têm sobre o segmento jovem da população se analisarmos em profundidade como um grupo de indivíduos interage com esta questão. Procurou-se captar junto do entrevistado as particularidades do processo de atribuição do alojamento; identificar o seu grau de satisfação com a habitação actual e com a estratégia habitacional acedida; conhecer se a estratégia habitacional accionada correspondeu, de facto, às suas expectativas ou se alguma vez colocou-a em causa, a ponto de revê-la e, por fim, avaliar se opção pela estratégia habitacional resultou efectivamente das opções pessoais.
Privilegiamos o cruzamento entre estratégias de habitação e segmento jovem da população porque se trata de um grupo que em determinado momento da sua vida procura naturalmente uma habitação, mas que encontra uma série de dificuldades no seu acesso, pois os apoios existentes a este nível são escassos ou tendem a desaparecer como aconteceu com o crédito bancário com recurso à bonificação para aquisição de habitação.
Em termos operacionais, compreendemos a juventude entre os 18 e os 30 anos de idade. Esta delimitação etária é baseada nos limites que a lei estabelece para o começo (18 anos) ou para o fim (30 anos) de certos direitos e regalias em termos de algumas políticas habitacionais. Em termos demográficos e ao nível geográfico do concelho de Aveiro este grupo etário da população assume bastante expressividade entre o total da população residente. No entanto, na última década, esta camada etária perdeu algum peso, tanto a nível nacional, como regional e concelhio, apesar de no concelho de Aveiro, este peso ser ligeiramente superior ao de qualquer outro nível territorial (Quadro I).
Quadro I Continente, Região Centro e Aveiro, 1991 e 2001. Peso da população entre os 18 e 30 anos de idade (%)
Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Portugal. Censos de 1991 e 2001.
3.1. A SELECÇÃO DA AMOSTRA
A selecção da amostra foi intencional e é constituída por 16 jovens que foram realojados em núcleos habitacionais, promovidos e geridos pela Câmara Municipal de Aveiro, entre 1999 a 2002 e que à data do realojamento tinham idades compreendidas dos 18 aos 30 anos. A definição destes últimos 4 anos de realojamento foi também intencional com vista a obter uma memória social mais clara e actual do percurso habitacional desenvolvido pelo agregado familiar.
3.2. A COMPOSIÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA
A amostra é constituída por 16 indivíduos - 11 do sexo feminino e 5 do sexo masculino - que foram realojados em habitação social entre 1999 e 2002 e que à data do realojamento tinham entre os 18 e os 30 anos de idade (vd. Anexo 4). Apesar de se verificar 17 casos de realojamento durante esses 4 anos, houve um caso que não pôde ser contemplado na análise, por no momento da entrevista já não ser titular da habitação social e já não se encontrar a habitar no alojamento devido à situação de divórcio entre o casal. Além disso, e de acordo com informações da coordenadora da Divisão de Habitação Social, esse indivíduo já não se encontrava a residir em nenhum dos complexos de habitação social da autarquia local.
Obviamente, que uma das variáveis que perde importância entre a população seleccionada é a variável idade, em virtude da amostra ser constituída por pessoas entre os 18 e os 30 anos de
idade. No entanto, constata-se que nenhum indivíduo tinha 18 anos de idade quando ocorreu a atribuição do alojamento. O acesso à habitação ocorreu maioritariamente aos 26 anos (5 casos) e aos 27 anos (3 casos) de idade. Por razões circunstanciais somente um jovem pertence à etnia cigana não se verificando que essa variável tenha exercido alguma influência nem na opção por esta política social de habitação, nem no percurso habitacional seguido.
Em termos de escolaridade, a maioria dos entrevistados (5 casos) possui o 2o ciclo do ensino
básico, nível de escolaridade concluído mais elevado.
Quanto à situação face à profissão, no momento da entrevista, metade (8) da amostra beneficiava da medida de política social Rendimento Social de Inserção (que veio substituir o Rendimento Mínimo Garantido), 3 casos se encontravam desempregados, dos quais apenas um beneficiava do subsídio de desemprego. Os restantes 4 indivíduos empregados exerciam trabalhos não qualificados (2 casos), uma era doméstica e outro exercia trabalhos qualificados como operário do sector produção, respectivamente.
Os baixos níveis de rendimentos caracterizam também este grupo em análise: a maioria dos
casos (7) recebe mensalmente rendimentos inferiores a um salário mínimo nacional39; em 5
casos os rendimentos mensais aproximam-se desse valor; em apenas 2 casos verificam-se rendimentos que ultrapassam o valor de um salário mínimo e meio e outros 2 cujos rendimentos atingem o dobro do salário mínimo nacional.
Não será difícil concluir que as variáveis escolaridade, profissão, situação face ao emprego e
rendimentos assumiram bastante significado na análise, na medida em que apresentam efeitos
concretos, sobretudo quando relacionadas entre si, sobre as condições de vida deste grupo de entrevistados. A vulnerabilidade social de que se caracterizam as suas trajectórias de vida de uma forma geral, acaba por influenciar particularmente as suas opções por esta estratégia habitacional em detrimento de outras opções existentes e inclusivamente já recorridas sem sucesso. Estas variáveis também influenciaram a decisão das entidades competentes em garantir um alojamento à maioria dos casos analisados (10) por reconhecerem que se tratavam de situações de emergência social e que urgiam ser resolvidos rapidamente.
O L H A R A R E A L I D A D E A P A R T I R D O S B E N E F I C I Á R I O S
D A S P O L Í T I C A S D E H A B I T A Ç Ã O
CONFIGURAÇÃO SÓCIO-ESPACIAL DAS ESTRATÉGIAS DE ESTÍMULO AO ALOJAMENTO PROMOVIDAS PELO SECTOR PÚBLICO, PRIVADO E COOPERATIVO
E SEGMENTO JOVEM DA POPULAÇÃO: O CONTEXTO DO CONCELHO DE AVEIRO
Tendo em conta a importância que os contextos sócio-espaciais assumem na configuração das estratégias de habitação e na delimitação dos espaços de actuação estatal (Serra, 2002), é nosso objectivo neste capítulo analisar como intervêm no concelho de Aveiro cada estratégia de provisão de alojamento privilegiada, tendo em conta, acima de tudo, o seu impacto junto do segmento jovem do concelho.
Neste sentido, esta parte do trabalho será dividida da seguinte forma: em primeiro lugar, procederemos a uma breve caracterização do concelho; em segundo lugar apresentaremos sucintamente as opções urbanísticas relativas ao parque habitacional constantes no Plano Director Municipal e por último, privilegiaremos a análise do impacto que cada estratégia habitacional exerceu sobre os jovens, no ano de 2001 - questão que se revela essencial para este projecto de investigação.