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O ESTUDO DOS PROFETAS

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Diferentemente da tradição cristã que tomou a filosofia como base de reflexão para a concepção de Deus, a tradição judaica segue um caminho muito distinto. Para ela, a reflexão a respeito do transcendente deve partir sempre da história de Deus que busca o coração do homem e da angústia humana na procura e na tentativa de responder a esse Deus. Essa concepção é descrita na narrativa bíblica, sobretudo nos insights que os profetas tiveram com o transcendente, constitutivo de toda a história do povo judeu. Em Heschel, os profetas têm um papel fundamental, assumindo “para si o encargo de levar o apelo profético bíblico de reverência à pessoa humana considerada como imagem divina, na tentativa de despertar a consciência dos homens modernos de seu torpor” (LEONE, 2002, p. 43). No inicio dos anos 60, quando Heschel já dividia sua vida entre a academia e os movimentos sociais, aspecto este que caracterizou os seus últimos anos, conseguiu finalizar a tradução e a ampliação de sua tese de doutorado sobre a consciência profética que fora defendida em Berlim, em 1933. Essa obra tornou-se um de seus mais conhecidos escritos. Heschel dedicou o livro “aos mártires de 1940 – 45” como demonstração de urgência moral na situação do mundo atual, cujo sintoma mais agudo fora o genocídio nazista. O livro, segundo Leone, é dividido em três grandes reflexões:

do prefácio até o capítulo 8, são apresentados os profetas individualmente, como resumo de suas personalidades, fundo histórico e mensagem. Do capítulo 9 até o capítulo 18, são definidas as noções bíblicas de história, justiça, retribuição, pathos e a religião da simpatia. A parte final, que vai dos capítulos 19 até 27, apresenta a discussão metodológica contida em Die Prophetie, onde é discutida a diferença e os limites das diversas abordagens modernas sobre o fenômeno da profecia do Antigo Israel (LEONE, 2002, p. 151-152).

O apelo profético, na concepção de Heschel, pretende que o homem alcance a superação da situação humana por intermédio da ação no mundo, o que o torna parceiro de Deus na criação do universo, portanto, criador do próprio humano, de si mesmo. Para ele, a redenção é fruto de uma escolha ativa, que faz com que, através do ato, um atributo essencial de Deus seja qualidade humana, dando sentido à sua condição. O homem portaria, inerentemente a sua condição, uma

dignidade básica que o tornaria capaz de chegar à humanização. Nessa dignidade, estaria presente o sagrado inerente ao humano. A jornada até a redenção acontece através das mitzvot, ações sagradas que pela tradição judaica são mandamentos ordenados aos judeus, que humanizam o ser, convertendo-o em uma imagem divina e o retornando à essência transcendental. Explicitam a responsabilidade individual pelo coletivo, tornando imperativa a percepção do sofrimento do outro e a tomada de atitude com o objetivo de eliminar ou atenuar tal sentimento.

Segundo Heschel, o homem moderno se esqueceu de que representa a imagem divina (LEONE, 2002), que é um símbolo, e esse esquecimento torna extremamente difícil ao homem encontrar o sentido para sua própria existência. Diferentemente disso, o homem moderno cria símbolos aos quais serve, alienando- se de seu próprio sentido. Esta análise seria chamada de fetichismo de mercadoria por Marx (LEONE, 2002), o que significa a coisificação da existência humana, a desumanização em sua essência. Heschel propõe que no cerne dessa fetichização está a definição do objetivo da existência como mera satisfação das necessidades, contrária ao processo humanizante, em que é imprescindível que o homem descubra a si mesmo como uma necessidade (LEONE, 2002).

Heschel também criticava a concepção objetiva da religião, em que se caracterizava o evento religioso como restrito a um determinado tempo ou a uma resposta a uma crise social; por exemplo, ao risco de ruptura da coletividade: reza- se para manter a coesão social. Ele pensava que estas abordagens do conceito de religião dariam conta de descrever o que seriam os efeitos e as consequências do fenômeno religioso, mas não tratavam dele em si. A religião não era contemplada em termos do que ela significava. Para Heschel, a religião é, sobretudo, a sagrada dimensão da existência que está presente, sendo ou não percebida por nós (LEONE, 2002).

Como podemos perceber, há uma relação visceral entre a história de vida de Heschel e os seus escritos. Isso pôde ser observado não só nas tentativas de manter as suas tradições judaicas, como também no seu posicionamento político e social, que se baseava na humanização de todo e qualquer homem.

Investidos de grande interesse pelo tema em questão, o que nos move nesse sentido é encontrar os recursos que o autor nos oferece para a compreensão do autodiscernimento nos Profetas bíblicos, que é o assunto tratado no capítulo seguinte.

2 A JUSTIÇA NOS PROFETAS

Neste segundo capítulo, pretendemos fazer uma análise do conceito de justiça nos profetas, objetivando elucidar quão preocupante era considerada pelos profetas, a injustiça nas suas múltiplas formas. Os profetas bíblicos possuíam uma sensibilidade social aguçada, que faz falta nos dias atuais. Para o período bíblico, qualquer injustiça era vista e denunciada como calamidades sociais e que mereciam intervenção imediata.

Este capítulo está dividido em quatro tópicos a fim de torná-lo mais didático. No primeiro tópico analisaremos o conceito de justiça veterotestamentária, passando logo em seguida ao conceito de profeta e seus desdobramentos nas ciências sociais e na tradição bíblica. Nos outros dois tópicos, exporemos algumas características e atributos constitutivos da pessoa do profeta e que fazem eco na sua mensagem, seja de anúncios quanto de denúncias.

Assim, é importante esclarecer o que o Antigo Testamento entende por justiça e, mesmo qual a figura de profeta que iremos tomar como embasamento. Feito isso, sujeitaremos algumas posturas, situações, denúncias e anúncios que estas personalidades corporativas19 assumiram frente à sociedade de modo geral, abarcando, desde a religião até a vida privada.

Poucas ideias despertam tanta paixão, consomem tantas energias, provocam tantas controvérsias, e têm tanto impacto em tudo o que os seres humanos valorizam quanto a ideia de justiça. Sócrates através de Platão sustenta que “a justiça é uma coisa mais preciosa que o ouro” (PAPPAS, 1996, p. 137), e Aristóteles, citando Eurípedes, afirmava que, “nem a estrela vespertina nem a matutina são tão maravilhosas como a justiça” (ARISTÓTELES, 1999, p. 93).

O que é a justiça? Uma virtude das pessoas? A primeira das qualidades das instituições políticas e sociais? O resultado de um procedimento equitativo? O que surge de um processo histórico no qual não se violam direitos fundamentais? Um ideal irracional? Estas e muitas outras respostas extremamente divergentes entre si foram dadas por estudiosos sérios ao longo de uma extensa história do pensamento,

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O conceito de personalidade corporativa está sendo utilizado aqui como aquele que abarca em si várias qualidades, aspectos e posturas que o diferencia dos demais indivíduos. Como KONINGS, J,

(2005, p. 284) denomina Jesus em sua obra: “Jesus como personalidade corporativa que resume em

dedicado a desvelar esta incógnita. Entre estes discursos em que se emitem juízos acerca da justiça, o de índole moral tem uma posição dominante em nossa cultura.

Tendo, evidentemente distintas respostas a esta questão, analisaremos o conceito de justiça na perspectiva bíblica, sobretudo veterotestamentária.

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