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O estudo piloto

No documento anamariamoraesscheffer (páginas 53-55)

Dando início ao processo investigativo, desenvolvi um estudo-piloto para o meu projeto de pesquisa, através do qual busquei estabelecer uma relação social com a realidade a ser pesquisada, com as situações de pesquisa e com os

sujeitos a serem pesquisados. Além disso, procurei compreender melhor a questão formulada e os objetivos propostos para, então, vislumbrar, se necessário fosse, outra forma de desenvolver a pesquisa.

Nesse estudo foi adotado como procedimento metodológico a entrevista individual. Os sujeitos investigados foram duas professoras que atuavam no primeiro ano do Ensino Fundamental de nove anos em duas escolas da rede municipal de Juiz de Fora. O meu interesse era compreender as concepções de alfabetização de professores que atuavam no 1º ano do Ensino Fundamental de nove anos a partir de suas práticas discursivas e as possíveis implicações dessas concepções nas suas práticas pedagógicas alfabetizadoras.

Após o seu término, constatei que esse estudo-piloto me permitira não só avaliar a metodologia e os instrumentos utilizados, mas também buscar uma outra orientação para a escolha dos sujeitos da pesquisa. Assim feito, considerei pertinente dar um outro direcionamento para a minha pesquisa. Para tanto, foi necessário alterar e aperfeiçoar o instrumento de investigação utilizado para alcançar a integração entre os objetivos propostos, a posição teórica adotada e a modalidade de pesquisa, bem como ampliar o número de participantes e mudar o critério de escolha dos sujeitos.

Para realizar tais alterações, balizei minhas idéias no trabalho de Kramer (2003) que aborda sobre a entrevista enquanto procedimento metodológico de pesquisa em ciências humanas. Sendo assim, compreendi com essa autora que a entrevista individual não contemplaria o meu propósito. Contudo, vale ressaltar que a entrevista individual também se constitui como uma importante estratégia metodológica dentro da pesquisa de abordagem histórico-cultural. No entanto, como destaca Kramer (2003), nas entrevistas individuais a linguagem dos sujeitos parece ser mais limpa, como se o entrevistado precisasse expor a realidade que ele acredita ou deseja que exista, o que faz com que, geralmente, os fatos sejam omitidos. Na tentativa de que o instrumento de investigação por mim adotado nessa pesquisa adquirisse um sentido efetivamente interativo é que fiz a opção pela entrevista coletiva.

As considerações de Kramer (2003) sobre a entrevista coletiva na pesquisa em Ciências Humanas explicitam a importância de tal procedimento. A autora afirma que:

Durante as entrevistas coletivas, o diálogo, a narrativa da experiência e a exposição de idéias divergentes ocorrem com intensidade muito maior, na medida em que professores podem falar e também escutar uns aos outros. Além disso, como não só o pesquisador detém autoridade para fazer perguntas ou comentários sobre a fala dos entrevistados, a influência do poder e da posição hierárquica parecem diminuir; os problemas são apresentados com suavidade e tensão, o conhecimento é compartilhado e confrontado, a diversidade é percebida face a face (KRAMER, 2003, p. 64).

Kramer destaca ainda que, na entrevista coletiva, a situação dialógica é enriquecida, possibilitando análises mais profundas e substanciais. Os professores que dela participam podem se sentir mais seguros para revelarem suas dificuldades e sucessos e compartilhar isso com os seus pares e o entrevistador. Corroborando com as considerações assinaladas pela autora, de fato pude observar, ao longo da realização das entrevistas, que o diálogo estabelecido possibilitou a cada participante e ao pesquisador uma produção de conhecimentos, uma reflexão sobre o pensado e o vivido.

Com efeito, utilizar a entrevista coletiva como instrumento metodológico no âmbito desta pesquisa é compreendê-la como um encontro dialógico e discursivo, no qual os sujeitos que dela participam estabelecem relações dialógicas com os enunciados e as vozes alheias. Como assinala Freitas (2003), a entrevista dentro de uma pesquisa qualitativa de cunho sócio- histórico é concebida acima de tudo, como um momento de produção de linguagem.

Desse modo, é possível relacionar a estratégia metodológica de entrevista coletiva com o pensamento de Bakhtin e Vygotsky que consideram que a consciência individual se constitui no social. Na situação de entrevista coletiva, os sujeitos, junto aos seus pares e ao pesquisador, singularizam tudo o que vivenciaram no plano social. Assim, entre entrevistado e entrevistador há uma atmosfera de influência recíproca, um afeta o outro pela linguagem.

Assim, a entrevista coletiva realizada nesta pesquisa teve como objetivo compreender as concepções de alfabetização das professoras e provocar entre as docentes uma reflexão sobre suas concepções que pudesse levá-las a pensar criticamente sobre elas. Como diz Kramer (2003), as entrevistas coletivas clarificam aspectos que ficaram obscuros colocando- os à discussão, iluminando, portanto, o objeto de pesquisa que nas ciências humanas será sempre um sujeito.

Na entrevista coletiva é como se o pesquisador fosse um orquestrador de várias vozes que se dirigem. Como tal, é necessário criar um lugar onde a fluência da voz, a elaboração de um gesto e a compreensão do silêncio aconteça. Para que os professores pudessem falar de si mesmos, de suas histórias, de suas concepções de alfabetização e de suas práticas pedagógicas de alfabetização, procurei, desde o começo, conduzir as entrevistas,

considerando-as como um lugar onde eu deveria ouvir amorosamente o outro. Visualizei o tempo/espaço dos encontros como um lugar em movimento, no qual os pontos de vista, opiniões e sentimentos pudessem ser partilhados mediante a palavra, o gesto e o silêncio de cada um. Por fim, procurei estabelecer uma interação com os sujeitos da pesquisa de grande respeito e confiança.

Aproximei-me das professoras e busquei propiciar um ambiente em que elas pudessem falar e ao mesmo tempo fossem ouvidas, questionadas e se

questionassem. Em termos específicos, objetivava criar um espaço coletivo em que cada uma pudesse tomar a palavra para relatar, discutir e desvelar as concepções de alfabetização que orientam a sua prática pedagógica alfabetizadora.

No documento anamariamoraesscheffer (páginas 53-55)