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4 CRIANÇA E INFÂNCIA: DA PERSPECTIVA HISTÓRICA AOS CUIDADOS

6.3 Comportamentos de cuidado parental e o cotidiano das crianças no contexto

6.3.1 O exercício do cuidado parental em tempos de COVID-19

O primeiro contexto em que a criança é inserida após o seu nascimento é o microssistema familiar. Esse ambiente é um dos responsáveis pelas bases para o desenvolvimento infantil, uma vez que é nesse lugar que são construídas as primeiras interações proximais. Os cuidadores principais, a partir dessas relações, precisam desenvolver a função parental de cuidar e educar as crianças até a maturidade, para que atinjam o comportamento adaptativo (BRONFENBRENNER, 2011).

Quando os cuidadores ofertam cuidado aos aspectos físicos (alimentação, higiene, vestuário para proteger), emocionais (apego, segurança e autonomia para tomadas de decisão) e sociais (estimulação das relações interpessoais ampliadas) da criança; eles exercem a parentalidade positiva e auxiliam seus filhos a atingir um desenvolvimento saudável (LINHARES, 2015). Logo, é relevante que os pais possuam comportamentos e atitudes impulsionadoras de segurança e autonomia; servindo como correguladores dos sentimentos dos filhos, auxiliando esses a lidar com as demandas diárias (SKINNER E ZIMMER- GEMBECK, 2016).

Portanto, os cuidados parentais de suporte às crianças são ações essenciais para a passagem por contextos de adversidades, como os eventos estressores. Segundo Shonkoff (2020), os eventos estressores são ocorrências de vida que alteram o ambiente e provocam tensão que influenciam as respostas emitidas pelos indivíduos. Nesse sentido, Bronfenbrenner (2011) compreende que acontecimentos históricos são repletos de condições estressoras que podem alterar positivamente ou negativamente o desenvolvimento infantil.

Dessa maneira, entendendo o contexto que a população mundial tem enfrentado, com experiências adversas devido à pandemia da COVID-19, e a relevância da parentalidade positiva nesse período, foi perguntado às mães dessa pesquisa sobre questões relacionadas ao cotidiano de cuidados dos filhos antes e durante o distanciamento físico. A partir dessa indagação, percebeu-se que em decorrência da rotina dos pais, os cuidados às crianças antes da COVID-19 não eram realizados exclusivamente pelos genitores, mas por familiares e babás, como relatado pelas entrevistadas:

“Eu tenho uma pessoa que me ajuda olhando minha filha, é a minha prima. Aí quando eu voltava do trabalho a minha prima ficava um pouco com ela para eu fazer atividade física e voltar para casa” (E.03).

“Eu saía cedo para trabalhar e deixava ele (filho) na escola. Quando ele saia à tarde, ia para casa da minha sogra. Aí lá tinha uma babá que cuidava dele até eu chegar, umas dezenove horas” (E.16).

“Meu dia era muito corrido. Meu filho ficava em casa com a minha irmã e eu estava trabalhando muito nesse período logo antes (do

distanciamento físico), então trabalhava durante o dia e ficava em

casa à noite [...] às vezes quando eu chegava em casa, ele já estava dormindo” (E.17).

“Minha filha ficava um período na casa da minha mãe ou na casa da minha sogra enquanto eu estava trabalhando, e aí à noite eu e o pai dela ficávamos revezando os cuidados” (E.28).

No que concerne às questões de cuidado no decorrer do período de distanciamento físico, devido ao fechamento das escolas e dos serviços não essenciais, a inserção do trabalho em formato home office para os pais, e pela restrição de contato físico entre familiares que não residiam no mesmo domicílio, a conjuntura de cuidados à maioria das crianças passou por modificações. Observou-se que os cuidadores estiveram mais presentes no cotidiano de seus filhos, principalmente nas atividades escolares, conforme o excerto:

“No tempo que a gente ficou isolado, nós tivemos que acompanhar ela (a filha) mais de perto, dar mais auxílio com as aulas online” (E.22).

“Como eu estou mais em casa, sem trabalhar [...] estou mais próxima dos meus filhos. O mais velho, que continuou na escola, tem assistido às aulas online comigo e eu tenho procurado ajudá-lo mais” (E.27).

Essa condição favoreceu ainda mais os resultados positivos para a manutenção dos laços afetivos entre mãe-pai-filho, agregando o papel do pai no contexto de cuidado, como narrado:

“Nós (pai e mãe) temos feito coisas com nosso filho que não fazíamos antes dessa pandemia vir, de dar mesmo atenção, de conversar com ele assim e de se sentar com ele” (E.02).

“[...] o pai dele teve a oportunidade de colocar ele para dormir à tarde. Então assim, tiveram coisas que aconteceram que só a oportunidade de ficar em casa, o fato de ter que ficar em casa nos oportunizou isso, entendeu?” (E.16).

“Nesse período do isolamento, realmente foi bom para eu e meu esposo ficarmos com nossos filhos... esse contato, essa troca de amor, essa proximidade que tivemos” (E.23).

“Meu marido passou a dividir mais as tarefas comigo e com ela também, então ele passou a brincar mais com ela, e ela também ficou mais apegada a ele, um pouco mais apegada a ele durante esse período” (E.30).

A realidade descrita pelas mulheres demonstra que no período do distanciamento físico, os homens têm tido a oportunidade de participar de forma mais ativa da rotina de cuidado dos filhos, alterando a concepção histórica de que esse aspecto é responsabilidade da mulher (SEHN; LOPES, 2019). Nessa lógica, a pandemia tem favorecido a realização dos achados discutidos pelo Relatório “Tempo de Cuidar” da Oxford Committee for Famine Relief

(2020, p. 122), em que foi exposto que “os homens devem se esforçar para cumprir suas responsabilidades no trabalho de cuidado de modo a equacionar o volume desproporcional de cuidados prestados por mulheres nas famílias/comunidades e auxiliar no desenvolvimento de seus filhos”.

As narrativas das mães também nos revelam que as famílias buscaram transformar o contexto estressante do distanciamento em um cenário minimamente prazeroso para a criança, atenuando os efeitos negativos que os cercavam. Como descrito pelas entrevistadas, os cuidadores procuraram investir o tempo livre que tinham, em atividades manuais com seus filhos.

“Eu tentei brincar um pouco, ontem à noite nós fizemos uma atividade aqui de jogo da velha e brincamos muito para tentar nos distrair desse problema” (E.02).

“Eu brinquei muito com minha filha. De boneca, de massinha de modelar, comprei uma piscina inflável para brincar na varanda com água” (E.06).

“Eu comprei um kit de gesso para ela pintar, comprei tinta guache, comprei canetinha para a gente desenhar e fazia recorte de EVA para gente fazer brincadeiras e fazer umas tarefinhas, e todo dia tinha que inventar uma coisa com ela” (E.13).

“No isolamento a gente brincava muito de pintura, eu fazia pedidos a domicílio de tintas, de gesso para eles ficarem pintando, a gente improvisou pic-nic, aqui em casa tem uma piscina e eles brincavam na piscina e a gente ficava com eles, meu marido fazia churrasco” (E.24).

É consenso na literatura que a oferta de espaços lúdicos é primordial para um desenvolvimento infantil saudável (DELGADO et al., 2020; COLLA, 2019; SMOLKA et al. 2015). Quando os cuidadores realizam essas atividades com seus filhos, há a manutenção da estabilidade, estruturação e organização do domicílio, evitando que esse, diante dos entraves vivenciados pela COVID-19, torne-se um ambiente ainda mais caótico e estressor para as crianças (MURATORI et al., 2020).

Além das ações apresentadas, um documento informativo sobre saúde da criança e do adolescente no contexto da pandemia, a Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ (2020) conscientiza a população acerca de outras intervenções que podem ser realizadas no ambiente doméstico para minimizar o impacto do distanciamento físico. O manuscrito cita a comunicação parental como outro fator protetivo para o desenvolvimento saudável da criança. No discurso das mães desta pesquisa, releva-se que durante o distanciamento físico alguns genitores procuraram exercer essa comunicação positiva com seus filhos, buscando conviver de forma harmoniosa, amenizando o comportamento punitivo e explicando as circunstâncias atuais das experiências. De acordo com as mulheres:

“A gente explicava sobre a história do coronavírus e tal, sempre conversávamos com nossos filhos” (E.20).

“A gente conversava com ele porque como eu te falei, ele não entende o que está acontecendo e, por isso, está dando um pouquinho mais de trabalho, ele questiona mais” (E.25).

“Você vai analisando que não adianta brigar, tem que tentar conversar porque tem esse período e a gente precisa conseguir conviver bem com isso” (E.29).

Em documento sobre as repercussões da COVID-19 na Primeira Infância, o Núcleo Ciência pela Infância - NCPI (2020) apresenta que crianças pequenas ainda não possuem recursos cognitivos necessários para compreender o conteúdo abstrato relacionado ao coronavírus. Elas ainda são guiadas pelo ver, ouvir, tocar, cheirar, imaginar, imitar, dizer, brincar. Portanto, elas precisam de um cuidador que as explique, de maneira lúdica, a situação que está sendo vivenciada para que elas se considerem, ainda que não necessariamente no mesmo instante, compreendidas.

Dessa maneira, com a execução da comunicação positiva, os pais agem como correguladores emocionais dos filhos, estimulam as crianças a entender o que estão sentindo, e contribuem efetivamente para o processo de autorregulação do comportamento dessas, facilitando o desenvolvimento infantil (LINHARES, 2015).

Embora exista esse conjunto de atitudes prestadas por alguns pais desta pesquisa, verifica-se que o contexto socioeconômico das famílias são fatores importantes no exercício do cuidado parental (SANTOS et al., 2019; MATA et al., 2017; SILVA; TOKUMARU, 2008). Uma parte das entrevistadas que estava em situação socioeconômica desfavorável descreveu que em consequência principalmente de questões relacionadas às sintomatologias emocionais negativas, elas perceberam que houve prejuízo nas interações com seus filhos durante o distanciamento físico. Segundo os relatos, algumas mães gritaram ou bateram mais nas crianças e outra acabou ficando mais distante da filha nesse período em que estava integralmente em casa.

“Eu já estava estressada de ela dizer ‘mamãe eu quero brincar o tempo todo, mamãe eu quero fazer isso’. Percebi que isso acabou fazendo com que eu gritasse mais com ela. [...] Eu não bato e não batia antes da quarentena, mas gritei mais, entendeu? [...] Porque eu estou muito estressada com tudo isso, e às vezes eu chamo e ela não quer vir e aí eu acabo tendo que gritar” (E.08).

“Quando começou a quarentena, eu vi que estava sem condições de ficar com minha filha, ela é uma criança muito elétrica e eu estava muito estressada [...] aí ela ficou com a minha mãe. Eu estou em

outra casa, aí às vezes eu passo lá na minha mãe e depois volto para casa” (E.09).

“Eu notei que na hora da raiva eu gritava e batia mais, principalmente quando ela fazia uma coisa que eu não gostava” (E.13).

Essas falas demonstram que este estudo corroborou com as discussões do NCPI (2020), que alerta que em determinados ambientes familiares a pandemia pode agravar situações adversas. Em alguns lares os problemas existentes podem ser potencializados pelo distanciamento físico e pelo estresse; e as crianças acabam não sendo estimuladas adequadamente para seu desenvolvimento.