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ÉTICO-POLÍTICO DO SERVIÇO SOCIAL E AS CONTRADIÇÕES QUE POSSIBILITAM A DEFESA DOS DIREITOS

Esta parte se destina a análise dos impasses e contradições do cotidiano profissional das assistentes sociais dos CAPS AD, frente à efetivação do Projeto Ético-Político profissional, tendo em vista a liberdade enquanto um dos princípios que norteiam o projeto profissional do Serviço Social Brasileiro.

As principais dificuldades do cotidiano de trabalho, para além das questões anteriormente mencionadas como vínculos empregatícios fragilizados, ausência de estrutura adequada, etc. se referem a fatores que estão conectados a questões individuais e subjetivas dos/as usuários/as do serviço, tais como a ausência de adesão do usuário ao tratamento:

Porque a gente tem um usuário... tá indo bem, indo bem... Tem três meses que não faz uso. Aí daqui a pouco quando ver: Recaída! Isso entristece o profissional, aí a gente sabe que não é culpa da gente. [...] Tem usuário que não se adapta ao tratamento, ele só quer na realidade o tratamento medicamentoso, ele não entende que o tratamento não é só medicamentoso. O tratamento também são os grupos, é interação deles com o grupo, a interação deles com a família, é criar estratégias para não voltar a usar ou deixar de usar. Todo esse processo (ENTREVISTADA 1, 2017).

Tais reflexões nos permitem corroborar com o pensamento de Bisneto (2005) , inclusive quando analisa em seu estudo que, embora se tenha discursos e práticas variadas de assistentes sociais na Saúde Mental, o que estas têm em comum “é o atendimento às demandas postas pelo usuário, dentro da racionalidade imperativa dos diversos modelos de assistência psiquiátrica” (BISNETO, 2005, p. 117).

Isso implica em dizer que, a intervenção do/a assistente social, muitas vezes, está sendo realizada de acordo com a ordem das necessidades propostas para que os/as usuários/as dos serviços, sobretudo dos CAPS, se mantenham “dentro dos parâmetros do tratamento dado pelos profissionais ‘psi’” (BISNETO, 2005, p. 117), hegemonia esta discutida anteriormente neste estudo.

Então, é imperioso destacar a necessidade de que o Serviço Social não prive, no campo da saúde mental a finalidade do seu fazer profissional, o seu

saber próprio, que trará inúmeras contribuições para que “a Reforma Psiquiátrica alcance o seu projeto ético-político: uma sociedade igualitária, que comporte as diferenças!” Assim, em consonância com Robaina (2010), “não se trata aqui de negar que as ações do assistente social no trato com os usuários e familiares produzam impactos subjetivos — o que se está colocando em questão é o fato de o assistente social tomar por objeto esta subjetividade!” (ROBAINA, 2010, p.345).

Na perspectiva do Projeto Ético-Político do Serviço Social, de acordo com Barroco (2009), ressaltamos que a ética profissional se objetiva como ação moral, por meio da prática profissional. Logo,

A moral profissional diz respeito à relação entre a ação profissional do indivíduo singular (derivada de determinado comportamento prático objetivador de decisões, escolhas, juízos e ações de valor moral), os sujeitos nela envolvidos (usuários, colegas, etc.) e o produto concreto da intervenção profissional (avaliado em função de suas consequências éticas, da responsabilidade profissional, tendo por parâmetros valores e referenciais dados pela categoria profissional, como o Código de Ética, etc.) (BARROCO, 2009 p.204).

Ora, quando em uma intervenção profissional a/o assistente social menciona a solicitação dos/as usuários/as acerca de benefícios sociais e realiza julgamentos que o mesmo usará o benefício para pagar as “dívidas de drogas”, trata-se de uma ação baseada nos valores morais vigentes, sem reflexão ética, numa dimensão humano-genérica.

A influência do proibicionismo relacionado ao uso de substâncias psicoativas se faz presente no cotidiano profissional. Conforme já mencionado nesse estudo, ainda não há um posicionamento por parte dos profissionais entrevistados nesta pesquisa em relação às alternativas mais viáveis de tratamento. E as próprias políticas relacionadas ao uso de psicoativos se contradizem.

Não obstante, em relação à regulamentação de substâncias psicoativas no cenário brasileiro, o posicionamento do Serviço Social, na realidade dos CAPS AD de Natal/RN, hegemonicamente, se fundamenta na orientação proibicionista, apesar do reconhecimento da necessidade de políticas sociais efetivas direcionadas a essa questão. Verificamos, portanto, contradições presentes no posicionamento das entrevistadas: defesa de direitos dos/as

usuários/as e reconhecimento quanto à necessidade de políticas sociais no universo de aceitação de elementos próprios de uma política proibicionista.

Quando se fala em regulamentação, prontamente as informações produzidas em campo, imbuídas das reproduções cotidianas, afirma que esta não vai ser a solução. De fato, conforme já apontamos regulamentar não solucionará todos os problemas relacionados à violência advinda do comércio ilícito de psicoativos, mas contribuirá significativamente para a sua redução. A regulamentação, também, não resolve os problemas de saúde relacionados ao uso dependente de substâncias psicoativas. Mas, com base na prevenção, a opção do uso deve ser feita de forma consciente.

O uso de substâncias psicoativas, dependente ou não, trata-se de uma prática social que, sob a lógica mercantil e alienante da sociedade capitalista, “requer do/a assistente social compreensão crítica, dada sua complexidade e a multiplicidade de determinações históricas que alteram seus padrões e significados” (CFESS, 2016, p.7).

Além disso, a influência proibicionista na intervenção profissional nos CAPS AD é fruto da introdução desse pensamento no imaginário social, sobretudo, com a disseminação de que esta é a melhor alternativa para responder de forma imediata aos problemas relacionados ao uso dependente, bem como a violência relacionada ao narcotráfico.

Em nossa análise, a ideologia proibicionista e o projeto ético-político do Serviço Social se repelem, não dialogam entre si, a partir do pressuposto que a liberdade é um dos princípios que norteiam o projeto profissional do Serviço Social brasileiro e, notadamente, pelo fato de apreendermos a liberdade enquanto “capacidade de escolha consciente dirigida a uma finalidade, e, capacidade prática de criar condições para realização objetiva das escolhas, para que novas escolhas sejam criadas” (BARROCO, 2010, p.60).

Se analisarmos a trajetória histórica da profissão nos deparamos com a sua adesão a projetos societários da classe dominante e da classe trabalhadora. Portanto, apesar da ideologia não ser a mediação exclusiva do Serviço Social, ela se faz presente “nas orientações de valor ético moral e na direção política da ética profissional, seja ela conscientemente dirigida, seja ela como reprodução acrítica de normas valores e modos de comportamentos” (BARROCO, 2010, p.67).

Obviamente que a adesão a um determinado projeto profissional, bem como as suas dimensões éticas e políticas requer “decisões de valor inscritas na totalidade dos papeis e atividades que legitimam a relação entre o indivíduo e a sociedade” (BARROCO, 2009, p.205). Para tanto, se faz necessário explicitar que “os papeis sociais e as atividades desempenhadas pelos indivíduos estão em concordância, formando um todo coerente”, que quando desarticulados resultam em conflitos morais – “que ocorrem quando os valores podem ser reavaliados, negados ou reafirmados” (BARROCO, 2009, p.205).

Dentre os principais desafios cotidianos da atuação profissional no CAPS AD, elencados pelas entrevistadas têm-se: 1. o trabalho da reinserção para o resgate da autonomia, pois a maioria dos/as usuários/as do serviço tem o CAPS AD como “porto-seguro”; 2. a manutenção do grupo de famílias, tendo em vista a pouca participação destes no serviço e 3. romper com a visão do Serviço Social como garantidor de direitos previdenciários.

Acerca das estratégias para o enfrentamento dos desafios no cotidiano profissional, no que se refere ao resgate da autonomia dos usuários, está sendo realizado encaminhamentos para qualificação profissional. Foi relatada, ainda, a busca pela capacitação profissional e de conhecimento da rede de serviços para possibilitar a articulação de estratégias de intervenção profissional de forma que viabilize a garantia dos direitos dos/as usuários/as dos CAPS AD.

Primeiramente, do nosso ponto de vista, anseia-se que esse chamado à autonomia se dê na perspectiva da liberdade como valor ético central. Que a participação da família se efetive de forma que não a estigmatize e reconheça a diversidade na formação e vivência das famílias. E, finalmente que a direção social do Serviço Social seja na perspectiva de defesa dos direitos da classe trabalhadora e não enquanto o “salvador da pátria”, garantidor dos direitos sociais, de forma abstrata e descontextualizada das relações entre as classes sociais. Para tanto, analisamos a necessidade da reflexão ética cotidiana para não reprodução do conservadorismo; dos estigmas e preconceitos disseminados cotidianamente.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da compreensão de que o uso de substâncias psicoativas se enquadra enquanto uma necessidade humana, cujas motivações são respostas ao conjunto das necessidades sociais, demonstramos, neste trabalho, a natureza lucrativa do mercado ilícito de psicoativos e sua relação com o proibicionismo e com o processo de saúde/doença dos indivíduos.

Essa potência lucrativa, o narcotráfico e a violência advinda deste comércio trazem consequências danosas à vida social das classes trabalhadoras denotando o aprofundamento das expressões da Questão Social, que embora inerente ao sistema capitalista, é reverberada pela política proibicionista. A função social das “drogas” no capitalismo contemporâneo e o proibicionismo imbricado neste debate nos revelam, ao longo desse estudo, as inúmeras contradições que interferem na sociedade.

A tendência conservadora invade as residências brasileiras por meio da mídia. O contexto é de regressão de direitos e agudização da barbárie, fruto da política proibicionista de “Guerra às Drogas” nos deparamos com a militarização da vida social e o genocídio da população negra, processos estes, disseminados de forma acrítica e natural.

O contexto de higienização das cidades e de limpeza social recai sobre os/as usuários/as de substâncias psicoativas, principalmente os/as de crack no cenário brasileiro. Em meio a isso, o Serviço Social enquanto profissão interventiva, frente às múltiplas expressões da Questão Social, não está isento de assimilar ou confrontar as contradições inerentes a essa questão, sobretudo no contexto da sociedade capitalista.

Objetivando analisar as demandas, desafios e estratégias de ação das/os assistentes sociais nas instituições públicas de saúde mental, de atendimento ao dependente químico, esse estudo nos deixou nítido que luta política em defesa do SUS, da reforma psiquiátrica e da estratégia de Redução de Danos, ainda tem uma longa jornada pela frente na realidade brasileira e, em particular, no âmbito do município de Natal/RN.

No cotidiano dos CAPS AD, a precarização do trabalho, fruto do contexto de crise estrutural do capital nas particularidades de um país periférico como o Brasil, evidencia os processos de negação e retirada dos direitos em

um país que não conheceu a plena efetividade do Estado Social, considerando que o Estado de direito no Brasil é algo historicamente insuficiente.

Os principais resultados possibilitam considerarmos que, em relação ao Serviço Social, as demandas são múltiplas, os desafios se impõem e as estratégias de atuação clamam pela organização política e por aprimoramento teórico-metodológico e ético-político da categoria numa perspectiva de totalidade na análise da vida social e para coletivização das demandas imbricadas na realidade social e enfrentamento do projeto político burguês e sua adesão funcional ao conservadorismo.

A análise fundamentada numa perspectiva de totalidade na apreensão das relações sociais, e do Serviço Social, contribuiu na formulação da reflexão crítica sobre a perspectiva proibicionista das Políticas Públicas sobre “Drogas” e as tendências conservadoras presentes na ação do Estado, revelando contradições e a incompatibilidade com o projeto ético‑politico da profissão.

Ora, o uso de substâncias psicoativas enquanto uma necessidade humana que assume particularidades e função social determinada, dada a dimensão mercadológica que permeia este universo no âmbito da sociedade capitalista e sobre a inserção do Serviço Social nos CAPS AD, foi possível identificar e analisar que as demandas profissionais estão postas na realidade de forma cada vez mais complexa em face das condições objetivas e subjetivas dos indivíduos e dos limites estruturais e conjunturais que incidem nas políticas sociais, nas instituições e no uso de substâncias psicoativas neste momento histórico.

Não obstante, certamente não se esgota neste estudo a discussão que permeia o debate contemporâneo acerca do uso de psicoativos, sua função social na sociedade capitalista contemporânea e no que se refere à crítica ao proibicionismo, desse modo, pretendemos dar continuidade aos estudos nesta área em nível de doutorado.

Sob a perspectiva desafiante que norteia este estudo, almejamos que nossas análises e discussões contribuam nas reflexões acerca da função social das substâncias psicoativas no capitalismo contemporâneo e os desafios e demandas postas ao Serviço Social no âmbito dos CAPS AD, assim como, à crítica a política proibicionista que rege essa questão.

A partir da relevância que podemos trazer da articulação entre o debate ético construído historicamente no Serviço Social e o posicionamento em relação ao uso de psicoativos esperamos com este estudo, também, fortalecer o projeto ético-político de ruptura com o conservadorismo, de defesa da liberdade como valor ético central e dos direitos humanos.

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