3. PENSAR A NOTÍCIA NA CONTEMPORANEIDADE
3.2 O Facebook na elaboração da reportagem multimídia
Mumbai é a capital do estado de Maharashtra e centro nacional de finanças e entretenimento da Índia. Lá se encontra a chamada
Bollywood, indústria indiana de cinema e televisão. Apesar de sofrer
com sérios problemas de urbanização, com mais da metade da população vivendo em favelas, e enfrentar a falta de empregos, o magnetismo da “Cidade dos Sonhos” povoa o imaginário dos habitantes das áreas rurais da Índia que optam por migrar para a metrópole. A partir da década de 50 a indústria têxtil atraiu milhares de pessoas para a cidade e ajudou a plantar as raízes para uma próspera base industrial. Depois de 1991, época em que a Índia promoveu uma liberalização da economia, deu-se início a um período de rápido crescimento econômico, e a migração interestadual de áreas rurais para as cidades cresceu 76%. Grande parte deste percentual de trabalhadores teve Mumbai como destino. Entretanto, a oferta de empregos não acompanhou esse crescimento, e é grande a dificuldade dos migrantes em encontrar espaço no mercado que exige cada vez mais qualificação. Ainda assim, a proporção da população que vive nas cidades indianas está prevista para aumentar de 30% a 40% até 2030. Atentos a essa realidade, os correspondentes do Financial Times na Índia Joe Leahy e James Fontanella-Khan123 elaboraram o projeto Mumbai: Living the dream, com o objetivo de retratar a vida dos migrantes que chegam à maior e mais populosa cidade indiana, desde a chegada dessas pessoas até suas primeiras tentativas de conseguir emprego e moradia.
O que era pra ser uma cobertura tradicional ganhou novos ares quando os jornalistas decidiram usar o Facebook para compartilhar informações apuradas para a reportagem que estavam preparando para publicação no Financial Times e FT.com. Na apresentação do grupo124
123 Fontanella-Khan, entre outras atividades, já foi colaborador do site colaborativo OhmyNews; hoje é editor do FT.com na Índia. Joseph Leahy é correspondente do FT.com no Brasil, função que já desempenhou em Mumbai. Os dois escrevem no blog do FT.com beyondbrics.
124 No começo de outubro de 2010, os correspondentes criaram uma página (fan page) e um grupo no Facebook. Em setembro de 2011, mês em que realizamos nossa pesquisa, a página já
criado no FB em outubro de 2010, os jornalistas chamam o espaço de “nosso notebook ao vivo” e prometem fazer dele um “diário de relatos”, no qual postariam regularmente informações sobre as várias etapas da apuração acerca da vida dos trabalhadores que saem do interior para viver na metrópole.
De acordo com James, a ideia de usar a rede social surgiu após Joe ter escrito uma reportagem sobre o crescente número de empresas que vêm usando as redes sociais para comunicação interna e externa. “Logo abrimos uma página no Facebook para compartilhar nossos pontos de vista e o processo de criação da matéria” 125. Com isso visavam à criação de uma comunidade em torno do que estavam fazendo de forma a atingir pessoas que não necessariamente leem o Financial Times e o FT.com. “Poderíamos igualmente ter usado um blog, mas o Facebook tem funções mais amigáveis, além de facilitar a formação de comunidades”. O jornalista também aponta o Facebook como um mecanismo excelente para compartilhar notas, trabalhar em grupo e especialmente para a participação coletiva, já que nessa RSI os leitores podem fazer críticas e levantar outras questões. “Depois que a etapa do Facebook de nossa reportagem estiver concluída, iremos produzir um vídeo documentário sobre a história e também uma grande reportagem para ser impressa como uma análise mais ampla no papel”, anunciou o correspondente.
Com objetivo de criar ambientes para troca de informações em espaços privados, a função de grupos no Facebook foi apresentada em outubro de 2010. Nos grupos, pode-se publicar conteúdo multimídia, igualmente às outras páginas da rede social, criarem-se documentos compartilhados, tópicos para discussão e eventos. No bate-papo, é possível conversar com vários usuários ao mesmo tempo. Quando um membro publica algo, todos os outros são notificados da ação. Os grupos no FB podem ser secretos (apenas os membros podem visualizar a página e suas publicações), fechados (qualquer pessoa pode ver o grupo, mas somente membros podem visualizar as publicações) ou abertos (qualquer pessoa pode visualizar o grupo e seu conteúdo). não estava mais ativa. Portanto, nossa análise é apenas do grupo. Sobre a criação do grupo, James explica, em uma das atualizações, que o criou para que o conteúdo ficasse visível no feed de notícias dos membros, o que não estava acontecendo com a página anterior. Disponível em: <http://www.facebook.com/group.php?gid=152604904778479&v=wall> Acessado em: 10 de outubro de 2011.
125 Em entrevista à Globo.com, disponível em: http://oglobo.globo.com/tecnologia/mat/2010/11/25/uma-grande-reportagem-escrita-no- facebook-923104674.asp Acessado em: 05 de outubro de 2011.
Figura 31 - grupo Mumbai: Living the dream no Facebook
Em um grupo do Facebook qualquer membro pode publicar conteúdo. O grupo Mumbai: Living the dream tem 209 membros, mas apenas uma das atualizações não é de Fontanella-Khan, não sendo verificada a colaboração do público nesse sentido. O correspondente usa o espaço principalmente para falar do andamento da pesquisa e para a divulgação dos vídeos que foram sendo publicados no FT.com ao longo da apuração. Salvo as diferenças das plataformas de redes sociais e também formatos hipermidiáticos relacionados, aqui encontramos situação semelhante ao caso Ruta 66: dois correspondentes propõem-se a falar da rotina de apuração e produção através de atualizações na rede social e também publicam partes da pesquisa no webjornal conforme a investigação avança, em vez de publicar a reportagem como um “pacote fechado”. Contudo sublinhamos que no caso do uso do Facebook para a reportagem Mumbai..., este objetivo está mais explícito: “contando a história no Facebook antes!”, diz a apresentação da página. Enquanto no blog as jornalistas do Clarín deixam claro que o blog é um espaço diferenciado, caracterizando-se mais como um “diário de viagem”, para mostrar outros vieses do trajeto, não necessariamente ligados à cobertura (muitas vezes trazem apenas curiosidades, trivialidades), aqui
os correspondentes mostram ter outra visão da rede social: como instrumento para a apuração, uma forma de expor suas ideias ao público e assim receber críticas e sugestões, fato que poderia auxiliar na produção. Em ambos os casos a RSI contribui para fornecer informações complementares ao produto principal – a reportagem multimídia.
Também aqui encontramos outro exemplo de repórteres multimídia, profissionais responsáveis pela captação de audiovisual e pelos textos a serem publicados nas edições online e impressa do veículo no qual trabalham. Utilizam, inclusive, gravações de celular, como no vídeo Suketu Mehta on India's maximum city126. Na chamada que faz via FB, Fontanella-Khan avisa que “a qualidade do vídeo é baixa, mas o conteúdo dele é de alta [qualidade]!”. Outros vídeos divulgados através do Facebook estão hospedados no canal127 do projeto no YouTube.
Para relatar os passos da apuração, os repórteres referem-se à etapas como “dia um”, “dia dois”, etc. Eles entravam em contato com os migrantes diariamente para saber como estavam e que progressos haviam feito. Contudo, para conseguir tais histórias, os jornalistas passaram por algumas dificuldades cujos relatos estão registrados na página de grupo do FB.
07/10/10. Fontanella-Khan: É o dia dois e nós já estamos com um sério problema em nossas mãos. Uma das famílias que pretendiam seguir para Mumbai desistiu, pois temem que possam ser alvo de anti-imigrantes locais. Isso é um problema muito comum na cidade. (...) Aqui temos um vídeo que produzimos um tempo atrás sobre este tema. [link para o vídeo]
08/10/10. Fontanella-Khan: Dia três e mais problemas! O senhorio [dono da favela onde o entrevistado foi morar] proibiu Ali de falar conosco; disse-nos pra sair e ameaçou nos bater com um machado. Ele não nos quer reportando a história, já que a residência de Ali é ilegal. Nós fugimos e sabemos que a família de Ali é do bem. Nos lhe daremos mais detalhes em breve (com fotos).
Em outra atualização, James dá mais detalhes sobre o ocorrido e aponta para a questão ética que é levantada a partir dele:
126 http://video.ft.com/v/611178914001/Suketu-Mehta-on-India-s-maximum-city 127 http://www.youtube.com/user/mumbailivingthedream
08/10/10. Fontanella-Khan: Quando nós tentamos marcar um encontro com Ali em sua casa na favela, fomos ameaçamos pelo chefe local com um machado e a família foi advertida de que poderia ser despejada se falasse conosco. Obviamente, a segurança da família e o bem-estar sempre vêm primeiro. Isso levanta alguns desafios éticos interessantes... quando se trata de reportar sobre as camadas menos privilegiadas. A verdade importa, mas onde nós traçamos a linha? Como fazer nosso trabalho de revelar as pressões que eles enfrentam diariamente e ao mesmo tempo assegurar que nenhum mal lhes aconteça?
Todavia, apesar dos transtornos, Ali aparece como um dos personagens da reportagem multimídia, publicada posteriormente no FT.com. No final da postagem, o jornalista convida o grupo a discutir o tópico “os desafios éticos na reportagem dos menos privilegiados” no espaço de discussão da página; não pudemos analisar o conteúdo do debate porque este não estava mais disponível no momento da nossa pesquisa.
Mesmo depois de concluída a reportagem há quase um ano, a página do grupo Mumbai... permanece acessível no Facebook. Em entrevista concedida na época da produção, James Fontanella-Khan relatou o desejo de mantê-la no ar para que, eventualmente, esta se tornasse um ponto de convergência para o debate acerca da questão da migração na Índia. Entretanto este projeto parece ter sido abandonado, já que a última atualização é de 2010. Segundo o correspondente, a experiência do FT em Mumbai não deveria esgotar-se em um fenômeno isolado, pois acredita no sucesso da interação da grande imprensa com as RSIs. "Estou cada vez mais convencido de que as redes sociais representam uma nova oportunidade para o jornalismo, especialmente nesses tempos em que a leitura de jornais vem diminuindo"128, afirmou. Sobre a possibilidade de receber críticas ao abrir o processo de produção no ambiente de rede social, James Fontanella-Khan assegurou estar aberto para receber comentários de todo tipo, desde que civilizados e agregadores de valor ao debate. “Recebi das pessoas comentários inteligentes e pertinentes para o nosso trabalho. Alguém disse que nós estávamos somente tentando reproduzir o Big Brother e questionaram qual o valor do nosso projeto. Eu senti que fora levantado um ponto
128 Disponível em: http://mumbaiboss.com/2010/10/15/journalism-on-facebook-we-like/ Acessado em 10 de outubro de 2011.
interessante, então o defendi”. Discutir a relevância do tema proposto com o público, como um teste para saber se vale a pena levá-lo adiante, pode ser pertinente na etapa de produção da reportagem. “Argumentei que contar a história dos que são esquecidos, o estrato mais pobre da sociedade indiana, os beneficia. Um jornalista precisa tanta ajuda como feedback o quanto possível. O Facebook possibilita isso”.
Publicada em 17 de dezembro de 2010, cerca de 40 dias após o início de sua produção, a reportagem multimídia Mumbai: Living the
dream129 é uma espécie de vídeo documentário composto por quatro
partes - Introduction; Part 1: A Voyage from rural to urban India; Part
2: Urban challenge; Part 3: Down and out in the Maximum City – que
são acessadas separadamente através de menu interativo. No menu, além da lista dos vídeos, está o link para a página da equipe no Facebook. A reportagem escrita para o Financial Times impresso Indian: squeezed
out está como link relacionado. Tudo pode ser compartilhado através
das opções de redes sociais que o FT.com oferece, já citadas anteriormente.
129 http://www.ft.com/intl/cms/s/2/f3d90d66-090b-11e0-9e7a-00144feabdc0. html#axzz 18Ojtldrb
Figura 32 - Reportagem multimídia Mumbai: Living the dream
Oferecer aos leitores transparência implica expor-se e correr riscos. Alimentar a rede social com atualizações constitui-se ainda mais uma tarefa a ser cumprida diariamente. Mas os benefícios podem ser listados desde o começo, com base neste caso, partindo do amadurecimento do tema. Ao mostrar um produto inacabado, abre-se automaticamente à interferência. Obriga jornalistas a pensarem na profundidade do que estão fazendo e nos métodos escolhidos para tal. Caso forem questionados, faz-se necessária a defesa ou a retificação de seus pontos de vista e, para isso, é preciso ter objetivos claros e justificativas para a realização do trabalho. Em outras palavras, mostrar- se coerente. Neste sentido, a interferência dos leitores pode auxiliar o jornalista a manter o foco ou, quem sabe, encontrar novos rumos para a reportagem.
Apesar das semelhanças com o Ruta 66, não consideramos o grupo do Facebook como parte integrante da reportagem multimídia. Primeiramente, porque o conteúdo da página, na íntegra, mostrou não ser recuperável por longos períodos. Em menor medida, levamos em
conta a própria configuração da rede social, um website externo, diferente do blog, que é hospedado pelo Clarín.com.
Evidentemente, o Facebook é uma plataforma mais interativa que os webjornais. Portanto, integra os comentários dos usuários às histórias de uma forma que o veículo não o faz. O próprio ambiente favorece a adesão. Para ingressar em um grupo, basta possuir uma conta no Facebook, sem depender de cadastro adicional como nos webjornais. O FB é um lugar onde as pessoas estão habituadas a escrever, a opinar, a avaliar, a “curtir” (ou não) o que é publicado. No momento em que efetuam comentários, não estão apenas respondendo, mas tornando-se parte da história daquele post, ou de uma sequência deles. As postagens do jornalista aparecem quase como comentários, apenas mais destacados.
O uso da rede social na reportagem multimídia também amplia o próprio conceito do produto hipermidiático. Ao dar vazão ao material ao poucos, em vez de publicá-lo de uma só vez e limitado a um único espaço, dá à narrativa outros rumos. O tempo, implícito, dá o caráter pretendido de “tempo real”do qual os jornalistas falam. “O que estou vendo agora” torna as narrativas nas redes sociais particularmente atraentes. Na revelação de fragmentos do processo de apuração, sobretudo casos curiosos e até problemas, as atualizações funcionam como um teaser, amostra da reportagem multimídia que está por vir. A responsabilidade com o produto final também aumenta, pois o público certamente cobrará promessas feitas na rede social.
A adoção da cobertura participativa nas mídias sociais por parte das organizações noticiosas é algo recente, mas pode ser uma iniciativa capaz de agregar um novo tipo de credibilidade no espaço digital. Incluir o público passa a ser vital para a sobrevivência do próprio jornalismo. “Difundir e transmitir são verbos da era de massa que parecem ficar cada vez mais no passado, dando lugar a outros mais adequados à mídia social, como conversar, compartilhar e interagir”(CARVALHO, 2011, p. 105)
Não se pode esquecer, contudo, que mesmo com o suposto reconhecimento do potencial das RSIs em outras esferas, a inserção dos webjornais nas redes sociais e o uso relacionado aos diferentes espaços da notícia tem seu lado meramente comercial visando maior divulgação da marca e de seus produtos e como forma de atrair outros públicos, parte das estratégias de busca por novos negócios que garantam a sobrevivência das empresas jornalísticas.