5. Discussão
5.2. O Factor “Treinador” e o Factor “Jogador”
No que respeita à dimensão “Treinador”, a quase generalidade dos treinadores (82.8 %) considerou a leitura do artigo uma “aprendizagem valiosa”. O facto de mais de 8 em cada 10 treinadores demonstrar vontade de participação em acções-de-formação sobre o método é representativo da vontade que os treinadores têm de perceber melhor aquilo que a metodologia apresentada preconiza para o treino. Não obstante, se os treinadores avaliaram o método como uma “aprendizagem valiosa” é porque, á partida, consideram que podem utilizar desde já os seus princípios na sua prática profissional. Este dado assume relevância pelo facto de Araújo e Volossovitch (2005), sustentarem a necessidade de compreensão dos fundamentos como primeira fase da implementação do método de treino. Em linha com o resultado relativo ao método se ter verificado uma “aprendizagem valiosa”, 74.2 % dos treinadores consideraram que a leitura do método contribuiu para uma “reflexão sobre os diferentes factores envolvidos na TD”. Este dado parece realçar a compreensão por parte dos treinadores da dinâmica do método e do facto de este não ser algo fechado em si, com regras pré-estabelecidas. Como referem Davids e Araújo (2005), o desafio para os treinadores é o de compreender como os constrangimentos importantes, tais como a informação disponível durante a prática, a estrutura das tarefas e o nível de perícia do praticante interagem entre si, com o intuito de facilitar a aquisição de habilidades desportivas. Aparentemente em contradição com o resultado “Aprendizagem valiosa” esteve o resultado relativo à questão 6. Esta questionava o treinador se a apresentação sobre o método se havia verificado “desafiante tendo em conta o conhecimento
do treinador”. Em primeiro lugar referir que apesar da redundância desta questão no questionário tendo em conta a questão 1 (“Aprendizagem valiosa”), optámos por mantê-la neste trabalho uma vez que considerámos curioso o facto de duas questões que visavam avaliar a mesma coisa, embora efectuadas de forma distinta apresentarem resultados bastante diferentes. Como foi possível verificar aquando da apresentação dos resultados, aproximadamente 70% consideraram a leitura do artigo uma “aprendizagem valiosa” contra apenas 50 % dos treinadores que consideraram a leitura sobre o método de treino “desafiante tendo em conta o seu conhecimento actual”. O que significa que aproximadamente 2 em cada 10 treinadores responderam de forma distinta as duas questões, que visavam conhecer o mesmo. Apesar de as duas questões terem o mesmo intuito de avaliação, (se o artigo acrescentou algo ao conhecimento do treinador) fica por conhecer a razão de apresentarem resultados diferentes. Uma possível razão pode ter sido a forma como a questão foi redigida, interpretada de maneira distinta pelos treinadores. Estes poderão ter considerado que apesar do método ter sido uma “aprendizagem valiosa, pode simultaneamente ter sido pouco desafiante quanto ao “conhecimento actual”, no sentido do conhecimento específico da modalidade que proporcionou aos treinadores. Isto é, no desafiante no que respeita às variáveis próprias de cada tipo de constrangimento (da tarefa, do ambiente ou do sujeito) que influenciam o rendimento: o tipo de bolas de jogo, as diferentes superfícies, os diferentes tipos de raquete e corda, o vento, a componente emocional, etc.). Nessa linha, eventualmente, alguns treinadores poderão ter considerado o artigo uma estruturação teórica daquilo que, intuitivamente, já é do seu conhecimento (as variáveis influenciadoras do rendimento perito no ténis). Este racional vai de
encontro às ideias de Machado, Araújo e Godinho (2005) quando referem que “a fundamentação teórica deste tipo de abordagem dá maior suporte à intuição prática dos treinadores e ajuda na exploração de metodologias mais eficazes”.
No que respeita às competências do treinador integradas nessa mesma dimensão -“Dimensão Treinador”- os resultados demonstram concordâncias dos treinadores relativamente à capacidade do método contribuir para um aperfeiçoamento dessas mesmas competências na ordem dos 70 %. Designadamente na “tomada de decisão do treinador antes do treino”, “tomada de decisão do treinador durante o treino” e “exercícios mais adequados”. Como vimos anteriormente, hierarquizando estas três competências aquelas que demonstraram maior concordância e impacto ao nível dos treinadores, foram as competências relativas à “TD do treinador durante o treino” (74.1 % de concordâncias) e as relativas à elaboração de exercícios mais adequados (72.4% de concordâncias). Estes resultados relacionam-se com duas das principais implicações da abordagem ABC para o treino: O feedback do treinador, também designado por informação aumentada ou constrangimento informacional e a estruturação das tarefas. Efectivamente, o feedback do treinador durante o treino é, provavelmente, a variável mais manipulada durante a realização de um exercício de treino e, como tal, muito relacionada com a “TD do treinador durante o treino”. Esta última pode também incluir as variações (para além do feedback) que o treinador vai colocando nos exercícios de treino, à medida que vai observando a maneira como os atletas reagem aos constrangimentos impostos. Sendo a tomada de decisão um processo dinâmico, em princípio, também a intervenção do treinador no treino (ao nível do seu feedback e das
variações nos exercícios de treino) o deverá ser. Em consequência, estes dados reforçam alguns aspectos que o treinador deve ter em atenção no que respeita ao feedback, de acordo com a abordagem baseada nos constrangimentos: Clarificar claramente os objectivos dos exercícios e, não se conhecendo bem a maneira como o feedback interage com outros constrangimentos, estar muito atento para o resultado do feedback. Só dessa forma poderá dirigir a percepção dos praticantes para as variáveis especificadoras da tarefa (que pode ser de tipo de foco interno ou externo) (Davids & Araújo, 2005). No que respeita à estruturação das tarefas, o facto de 72.4 % dos treinadores ter concordado com a possibilidade de o método poder contribuir para exercícios mais adequados, reforça as características que a estruturação dos exercícios deve ter, também de acordo com a ABC: não separação do ciclo percepção-acção, logo mantendo o mais possível a especificidade das tarefas, assim como a não decomposição das mesmas (Davids & Araújo, 2005; Elliot, Reid & Crespo, 2009). Um exemplo de decomposição da tarefa habitual no ténis, a ser evitado, é a separação, no movimento de serviço, do gesto de preparação e o lançamento da bola (Elliot, Reid & Crespo, 2009). No que respeita à tomada de decisão do treinador antes do treino verificou-se que 69% dos treinadores consideraram que o método poderia influenciar essa mesma tomada de decisão. Esta pode ser a um nível mais micro – a concepção do exercício de treino, a escolha do local de treino (tipo de piso, condições ambientais, etc.), o parceiro de treino - ou a um nível mais macro – como por exemplo a programação competitiva. O facto de esta competência ter tido um valor inferior à “TD durante o treino”, pode-se ter ficado a dever ao facto de não haver obrigatoriedade de todos os treinadores efectuarem planeamento na sua componente mais formal, o que não acontece com a “TD durante o treino”,
que terá sempre de ocorrer. Desta forma, pode ter acontecido os treinadores terem uma noção menos clara de como o método pode influenciar essa mesma tomada de decisão/ planeamento, que, sendo mais ou menos formal e coerente, acontece sempre. Ainda assim, de reforçar o valor bastante positivo desta variável, que indica boa aceitabilidade da maioria dos treinadores quanto ao impacto do método na sua TD antes do treino, seja a que nível e de que forma for.
A única competência do treinador que surgiu no âmbito da dimensão “Jogador” foi a relativa ao diagnóstico do treinador. Como vimos anteriormente, o diagnóstico é a segunda fase da estrutura de treino da TD para os jogos colectivos (Araújo & Volossovitch, 2005). Araújo e Carvalho (Anexo 1) fazem um paralelismo para o ténis e aprofundam a reflexão ao referir 3 questões fundamentais que devem orientar o raciocínio do treinador: 1) Em que situação de jogo é necessário melhorar o desempenho do jogador? 2) O que se identifica na funcionalidade dos movimentos do jogador que pode ser alterado? 3) Quais são as fontes de informação que estão a constranger a falta de funcionalidade identificada? Como referem Araújo, Davids, Bennett, Button e Chapman, (2004) e Araújo e Carvalho (2009), para que um jogador se converta num perito é primeiro necessário identificar (diagnosticar) os constrangimentos chave do praticante, do ambiente ou da tarefa, que estão a influenciar mais o rendimento do praticante. Mais do que existir uma resposta correcta a cada pergunta, atrevemo-nos a dizer que o mais importante é que todo o processo de diagnóstico, através da resposta a cada uma das questões levantadas por Araújo e Carvalho (2009), e posterior intervenção prática seja coerente e faça sentido para o treinador e atleta. Só assim, pensamos nós, o sistema dinâmico em que
consiste o treino pode ser funcional. Finalmente, ainda no âmbito da dimensão “Jogador”, destaque vai para a semelhança da elevada concordância que os treinadores manifestam em relação ao método poder contribuir para uma utilização mais eficaz da informação do contexto e para uma melhor TD do jogador em situação de competição. Este aspecto indicia que os treinadores compreenderam e avaliaram positivamente a importância da relação e interacção jogador-ambiente nos processos de aprendizagem (Davids et al., 2013). Deste modo, ideias base da abordagem Gibsoniana da dinâmica ecológica para a aprendizagem no desporto como “affordances”, “invariantes” e o princípio percepção-acção ganham consistência quanto a serem princípios teóricos de aplicabilidade prática.
5.3. A abordagem dinâmica ecológica e os métodos perceptivo-