2. Preleção: imprensa e política: repressão e opinião
3.3. Eliminatórias e preparação
3.3.2. O final de 1969: dúvidas e planos para o mundial
Terminada a fase de eliminatórias e consolidada a classificação, iniciavam-se os preparativos para a disputa no México. Após o nomeado fracasso de 1966, havia uma grande preocupação para que os problemas apontados na fase de preparação para o mundial anterior não tornassem a se repetir. Simultaneamente, buscava-se manter o apreço popular pela Seleção, porém preocupando-se em afastar o otimismo excessivo na obtenção do título.
Neste sentido, a Comissão Técnica já iniciava o desenvolvimento de um planejamento prolongado sobre o processo de preparação da equipe nacional. Dando prosseguimento ao trabalho, Saldanha viajou para a Europa, acompanhado do auxiliar técnico, Adolfo Milman, o Russo, com o objetivo de observar os principais adversários do Brasil e as possíveis transformações na forma de jogo das equipes europeias. Além de assistir as partidas de alguns dos prováveis rivais durante a Copa, o técnico brasileiro também concedeu entrevistas e participou de programas televisivos, desfrutando um pouco da atenção que o cargo e os resultados a frente da seleção lhe proporcionavam. De acordo com alguns estudos sobre a vida e trajetória profissional do jornalista, João teria até mesmo aproveitado algumas destas oportunidades para declarar a insatisfação com o regime político vigente no Brasil, levantando suspeitas sobre a realização de atos de tortura e coerção a presos políticos: “Saiu no Le Monde, no Observer e no Excelcior; do México. Repeti a cantilena de torturas, presos, desaparecidos. Era o técnico do Brasil. Todo o mundo queria ouvir. Não perdi a chance” 269
. Contudo estas declarações são reportadas a Saldanha através de testemunhos e memórias próprias ou de outros personagens próximos ao treinador e carecem de fontes comprobatórias nos veículos de imprensa internacionais citados.
De volta ao país, o treinador dividiu, com os veículos de comunicação, suas impressões sobre o futebol europeu. Em reportagem publicada pela revista O Cruzeiro, apontou a violência dos adversários como um dos principais empecilhos a serem superados durante o mundial. A postura adotada pelo técnico retoma a crítica
269
SIQUEIRA, A. I.João Saldanha: uma vida em jogo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007. p. 320.
ao estilo de jogo embasado na força física e condicionamento atlético. De acordo com o treinador.
Vi russos, alemães, belgas, suecos, franceses, húngaros, iugoslavos, tchecos, turcos, búlgaros, irlandeses e escoceses. Trocando em miúdos, só vi correria, só vi patada, e quase nenhum futebol. Atualmente, o bom futebol técnico da Europa, esta reduzido a quatro ou cinco escolas: a húngara, a tcheca, a iugoslava, a inglesa. Nas demais, a tônica dos jogos se resume no pontapé e na péssima qualidade dos juízes. Os juízes são complacentes e comprometidos.270
Embora a colocação atente para uma suposta imposição da violência em detrimento da técnica entre os selecionados europeus, o treinador não deixou de reiterar o discurso das feras, alertando que, diferentemente do que ocorrera em 1966, o escrete estara preparado para suportar o embate corpo a corpo com os rivais: “a violência pode acabar com a Copa. O Brasil não agredirá. Mas não deixará nada sem revide”271
. Além das impressões sobre os adversários estrangeiros, Saldanha também forneceu indícios do planejamento para 1970. Treinador, Comissão Técnica e CBD investigavam possíveis cidades, hotéis e campos de treinamento para sediar os jogadores durante a extensiva fase de treinos e concentração.
Os cuidados perpassavam, inclusive, pela escolha do material esportivo a ser utilizado pelos atletas: bolas, chuteiras e uniformes novos. Estes foram requisitados pelo técnico durante sua estadia no velho continente. Saldanha declarou que só do modelo de bolas usadas no mundial haviam sido encomendadas 150, nas três versões possíveis: branca e preta, totalmente branca e amarela. Já sobre o uniforme afirmava.
Precisamos mudar também de camisa, meia, calção, chuteira, atadura e caneleira. O material que ainda usamos já caiu de moda. Depois do que eu e o Russo vimos na Europa, confesso que poderemos botar nossos jogadores em campo com menos um quilo e alguns com menos dois.272
Embora possa parecer um detalhe pouco relevante, a preocupação com o uniforme e o equipamento sinaliza o próprio desenvolvimento tecnológico e científico
270
SILVA, G. R. da. Saldanha tem medo da violência européia. O Cruzeiro, Rio de janeiro, n.46, p. 30-31, nov. 1969. p. 31.
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Id.
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do esporte, que se estende desde o processo de preparação física, organização tática e técnica dos atletas até a qualidade do material utilizado durante as partidas.
Ainda que Saldanha endossasse a preocupação com o treinamento físico adequado sobre bases científicas avançadas e bem elaboradas, em seu discurso como técnico e comentarista esportivo, sempre reiterou que a capacidade atlética deveria ser acompanhada da técnica, própria do jogador brasileiro. Colocando-se como defensor do futebol nacional e, principalmente, dos futebolistas, Saldanha difundia a tese de que o diferencial dos brasileiros em relação aos adversários era o talento e não a força física. Este mesmo talento seria responsável por manter o esporte no país em evidência, apesar das falhas na estrutura administrativa e do despreparo dos dirigentes esportivos. Na mesma reportagem de O Cruzeiro, quando questionado sobre o futuro da seleção, reafirmou o discurso defendendo a qualidade dos jogadores como aspecto fundamental ao êxito da equipe na competição.
Minha confiança na habilidade do jogador Brasileiro não tem limite. Essa será a nossa grande arma para ganhar a Copa. Vamos dotar a nossa seleção do que ainda lhe falta, para que não se inferiorize diante de ninguém. Meu critério para a escolha do melhor time não mudou, Não haverá palpite que pegue. Meu critério é um só: escolher os melhores 22 para poder escalar o melhor 11.273
Em diversos momentos, Saldanha utilizou a interlocução com os veículos de imprensa para defender sua posição diante do selecionado nacional, a escolha dos jogadores que integraram o elenco e o estilo de jogo adotado pela equipe. Assim como ocorrera em sua posição de cronista, muitos de seus comentários eram bastante descontraídos e irreverentes, e dialogavam diretamente com seus críticos e com a população. Em novembro, por exemplo, a revista Manchete reproduziu uma declaração irônica do técnico diante dos recorrentes questionamentos sobre o desempenho dos brasileiros diante do vigor físico e disputa corpo a corpo, aspectos base do estilo de jogo de parte dos adversários, sobretudo europeus: “Se todo o segredo da Copa do Mundo residisse no futebol-fôrça, e não no talento, os campeões do mundo seriam os americanos, porque ninguém ganha dêles no halterofilismo”274
.
273
SILVA, G. R. da. O tri não vai ser mole. O Cruzeiro, Rio de janeiro, ano 41, n.48, p. 30-32, nov. 1969. p. 32.
274
Enquanto discutia com jornalistas e comentaristas esportivos as próximas etapas no cronograma da Seleção, João Saldanha já se deparava com alguns dos problemas e dúvidas que se intensificaram durante o ano da Copa. Os jogadores que haviam disputado as eliminatórias haviam retornado para seus respectivos clubes e disputavam a Taça de Prata (Torneio Roberto Gomes Pedrosa, vulgo “Robertão”, campeonato envolvendo diversos clubes nacionais). Como não poderia deixar de ser, a escalação de novos jogadores e o desempenho de outros passavam a ser uma constante na cobertura esportiva envolvendo a Seleção. Neste sentido, um jogador em particular despertou a preocupação generalizada, tanto de João quanto de torcedores e demais interessados no futebol brasileiro: Tostão.
O atacante cruzeirense havia sido o grande destaque da equipe nacional durante as eliminatórias. Foi o artilheiro do Brasil na campanha, com dez gols, e consolidou a posição de grande craque nacional. Chegou a ser retratado em diversos momentos nas revistas investigadas, mais especificamente em O Cruzeiro
e Manchete, como uma espécie de “sucessor” de Pelé, como principal referência do país no esporte. Naquele momento, Tostão era nome incontestável dentro da provável formação da equipe para disputar o mundial. O atacante passou a figurar como uma das dúvidas na seleção após uma sequência de incidentes em campo que ocasionaram uma séria lesão no olho esquerdo do jogador.
O primeiro aconteceu em amistoso disputado pela Seleção contra a equipe do Milionários, da Colômbia. Logo nos primeiros minutos da partida disputada na capital Bogotá, por uma bola centrada na área, Tostão sofreu um duro choque de cabeça na disputa com o zagueiro adversário. O jogador precisou ser retirado do gramado e não teve mais condições de continuar o jogo com um ferimento próximo ao olho.
FIGURA 7 – Ferimento no olho de Tostão
FONTE: SILVA, G. R. da. Quatro meses sem Tostão. O Cruzeiro, ano 41, n. 42, p 26-27, out. 1969. p. 27.
Dois meses depois, em outubro, Corinthians e Cruzeiro se enfrentaram no Pacaembu em partida válida pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Novamente em lance disputado na área, o defensor corintiano Ditão rebateu a bola com força e acertou, em cheio, o olho de Tostão. O atacante foi retirado de campo e os médicos constataram a lesão no globo ocular. O diagnóstico dos especialistas apontou o deslocamento parcial da retina e hemorragia no vítreo, que necessitaram ser tratados por meio de intervenção cirúrgica. O procedimento foi realizado no Centro Oftalmológico da Baylor University, na cidade estadunidense de Houston, famoso no cuidado dessa especialidade. A operação foi bem sucedida, mas a volta do jogador aos gramados dependeria da extensiva sequência de recuperação. A reportagem da
O Cruzeiro sobre a contusão do jogador sinalizava o longo período pelo qual Tostão deveria ficar longe dos gramados.
O prazo de observação dado pelos médicos para que Tostão fique nos Estados Unidos é de duas semanas. Depois ele será liberado para regressar ao Brasil. Virá com recomendações expressas para não fazer excessos de nenhuma espécie. Seu retorno ao futebol terá de processar-se lentamente. Antes dos noventa dias previstos para o repouso, o máximo que poderá pretender é treinar sem esforço. Estão proibidas as disputas violentas. Quer dizer, sua participação em jogos “para valer”.
O regime ditado pelos operadores resume-se no seguinte: 2 dias de isolamento (terça e quarta-feira); 7 de tratamento no Hospital, sem saída; 15 de permanência nos Estados Unidos; 90 dias, no mínimo, sem nada de jogo. Serão quatro meses de cuidados, para poder ficar, outra vez, como era.275
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Nesta mesma reportagem, O Cruzeiro retratou o posicionamento de João Saldanha diante da possibilidade da lesão de Tostão ter acontecido em decorrência do agravamento do choque sofrido pelo atacante no amistoso disputado na Colômbia. Frente os rumores de uma possível ingerência da Comissão Técnica perante a gravidade da lesão sofrida na partida contra o Milionários, o técnico demonstrou indignação e apoiou o médico da delegação.
Diante da boataria de que a contusão nascera na Colômbia e progredira , por descuido do Médico da Seleção, Dr. Lídio Toledo, João torceu o nariz, e declarou: ‘Isto é uma cafajestada sem tamanho. Quem tiver a ousadia de me dizer essa história, na cara, será tratado como cafajeste’. Depois, virou-se para Tostão e disvirou-se: ‘Faça o que os médicos mandarem. Será muito melhor. E não se preocupe. Seu lugar continuará vazio, esperando a sua volta’.276
A passagem acima, reitera a presença do atacante no escrete para disputar a Copa e passou a ser uma constante nas entrevistas e declarações do técnico da seleção. Simultaneamente, Tostão tornou-se alvo de preocupação para os torcedores e questionamento dos especialistas. Manchete, na reportagem em que elucidava sua preocupação com o problema do atleta, já atestava a dúvida sobre as condições efetivas de recuperação do jogador em relação ao seu desempenho esportivo na seleção.
Há algumas semanas, vestindo a camisa número nove da seleção brasileira, ele explodia os estádios com seus gols e alcançava as culminâncias da gloria. Para muitos era o novo rei do futebol, o sucessor de Pelé. Para todos, era o craque que, tabelando com Pelé dava consistência ao sonho de reconquista da Copa do Mundo em 1970. E, de repente, um corte no supercílio e uma bolada no olho interrompem a trajetória triunfal e deixam em suspense milhões de torcedores. A pergunta se repete em toda a parte: Tostão voltará a jogar como antes?277
Nos meses seguintes, O Cruzeiro e Manchete destacaram diversas matérias que atentaram para o processo de recuperação do jogador, discutindo as expectativas quanto a seu retorno ao futebol, principalmente, a Seleção. As indagações sobre a presença de Tostão no time que disputaria a Copa não só constituíram questões recorrentes, como abririam espaço para sugestão de novos
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SILVA, G. R. da. Quatro meses sem Tostão. O Cruzeiro, ano 41, n. 42, p 26-27, out. 1969. p. 26.
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MENDES, L. Tostão, o drama de uma fera. Manchete, Rio de Janeiro, ano 17, p. 150-151, out. 1969. p. 151.
atletas. Os variados veículos de imprensa que realizavam a cobertura da seleção debateram as possibilidades para a posição e incorporam não só as opções de que Saldanha dispunha em seu elenco previamente anunciado, mas pleitearam a convocação de outros jogadores.
De maneira geral, Saldanha respondeu as críticas, dúvidas e sugestões dos jornalistas com a afirmação de que esperaria até o último minuto a recuperação plena do atacante cruzeirense. Em reportagem publicada pela O Cruzeiro, João destacou o seguinte.
Disse e repito: vou esperar todo o tempo que puder. No último momento os médicos dirão se êle poderá entrar no fogo da Copa. Se puder irá conosco, se não puder resolverei o problema escalando o Rivelino na meia. Jogador da classe do Rivelino brinca em qualquer posição.278