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PARTE 2: ADENTRANDO A CÍRCULOS DE COMPARTILHAMENTO DE

3.2 O funcionamento do G8-Generalizando

O próximo ponto da apresentação foi o funcionamento do grupo. Questão muito debatida durante as reuniões de preparo para a recepção, havia uma necessidade e um pedido latente de uma exposição esmiuçada das práticas cotidianas do G8-G advindas das últimas pessoas a integrar o grupo – de forma geral, sentia-se que se demorava muito tempo para entender as dinâmicas e as formas como se davam as tarefas e as atribuições dos novos integrantes. Como de praxe, a primeira ênfase trazida por Regina e Cecília foram as reuniões presenciais na sextas-feiras, nas quais todos deveriam comparecer – faltas eram permitidas (até

39 Essa questão foi tema de TCC de Marina Silva (2018), que refletiu sobre a aplicabilidade da Lei Maria da

porque não há um controle rigoroso da presença), mas deveriam ser avisadas com certa antecedência.

Como era o único encontro do grupo em sua totalidade, a reunião era entendida como o momento de tomada de decisões importantes, assim como comunicação de eventos acontecidos durante a semana. De tal forma, era sempre aberta uma pauta nos dias que antecediam a reunião. Em um e-mail de um dos estudantes do grupo, ela era formada de forma espontânea, tendo alguns pontos já fixos (como informes e discussão de casos em andamento). Durante a semana, pontos podiam ser adicionados através do e-mail ou no próprio dia do encontro, uma vez que a pauta era transcrita para o quadro branco da sala de aula utilizada.

A reunião em si não tinha sala fixa. O SAJU possui uma sala de reuniões com uma grande mesa para que os integrantes possam se reunir, contudo o G8-G divide parte do seu horário com outro grupo, que inicia sua reunião primeiro. Assim, o G8- G acabava por estar sempre de mudança, deslocando-se de sala em sala nas sextas-feiras à tarde. Para saber onde era possível encontrar o grupo, era necessário consultar o aplicativo de troca de mensagens (WhatsApp) no celular. Usualmente, as primeiras pessoas a chegarem na faculdade procuravam salas vazias para começar a reunião e avisavam no aplicativo. Mas isso não significava que o G8-G não tinha as suas preferências. Durante o meu tempo no grupo, três salas foram revezadas durante as sextas-feiras. Em especial a sala 11, localizada no subsolo da Faculdade de Direto – além de não necessitar de elevadores ou das gigantescas escadas do prédio, a sala não tinha o pé alto das demais, sendo muito mais fresca no verão e não tão fria no inverno. Além disso, por ter suas janelas para o lado de dentro da universidade, o barulho da movimentada avenida lateral não era ouvido, diminuindo os desgastes vocais dos integrantes do grupo nas longas horas de reunião. Foi justamente nessa sala que as minhas primeira e última recepções no grupo se deram.

De forma específica, o uso da sala começava por duas ações: a escrita da pauta no quadro da sala, para que todos possam acessá-la sem precisar abrir os e- mails, e a constituição de uma roda de conversa com as cadeiras. Dado o tamanho do grupo – sempre em torno de vinte e cinco pessoa – essa configuração assegurava um melhor diálogo entre todos por possibilitar uma maior visibilidade de

todos por todos, facilitando a determinação da ordem das falas durante a discussão também.

No começo da reunião, decidia-se uma pessoa para ficar responsável pela ata, em geral, e por cuidar da ordem das falas em temas que gerassem muita discussão. Essa relatoria, enviada posteriormente por e-mail para acesso dos não- presentes e memória coletiva, possuía uma rotatividade semanal. Como explicou Regina, entendia-se que a produção da ata é uma tarefa dos estudantes por, principalmente, dois motivos: era uma forma de entender o processo de escrita envolvido em uma relatoria (experiência já aprendida pelos profissionais) e pela possibilidade de compreender a dinâmica de organização e de tomada de decisões do grupo (aqui, em especial para os estudantes que acabaram de entrar no grupo).

Cecília relatou que a reunião, por durar uma média de quatro horas, possuía um intervalo na sua metade. Esse intervalo também condizia com a estrutura organizativa do grupo: os atendimentos das pessoas assistidas, em geral dois a cada sexta-feira, eram realizados após o intervalo. Poderiam ocorrer atendimentos excepcionais em outros horários durante a semana, principalmente quando a pessoa assistida não podia estar presente no horário das reuniões semanais. Assim, antes do intervalo, os pontos com maior importância tinham prioridade para serem discutidos durante a primeira parte da reunião, assim como eram determinados os grupos de atendimento do dia. Após o intervalo, a reunião prosseguia normalmente sem os integrantes que estavam em atendimento.

Após o atendimento, a equipe voltava a sala de reunião. Usualmente, se ainda havia tempo disponível e se havia urgência em alguma tomada de decisão sobre o caso atendido, a equipe apresentava um breve relatado do atendimento, seguido por algum debate sobre as medidas cabíveis. Esse era um dos momentos mais ricos para aprender sobre os processos e as formas que o direito toma dentro do grupo.

Esse momento também era utilizado para comentar insatisfações e impressões sobre o atendimento, funcionando como forma de passagem e troca de experiência entre os integrantes. Mais de uma vez houve discussões sobre os papéis dos profissionais e dos estudantes durante o atendimento, assim como a composição dos relatos. Era comum ocorrerem perguntas específicas sobre a modus operandi do acolhimento nesse momento. “Vocês preencheram a ficha da

pessoa assistida?”, “Vocês pediram para assinar a procuração nova?”, “Tiraram cópia dos documentos da pessoa?” eram algumas das questões trazidas. Além disso, era nesse momento que possíveis atualizações de documentos padrões do grupo passam a ser questionados e revisados. O principal deles era a procuração, peça que estabelece a representação da pessoa assistida pelo grupo, que precisava ser atualizada a cada nova entrada de profissionais e estudantes no grupo. Usualmente, essa atualização era feita em conjunto com um novo substabelecimento, peça que atualiza a procuração dentro do processo judicial.

Ao final da reunião, lembra Cecília, era preciso organizar a sala de aula novamente para que ela pudesse ser utilizada pelas turmas do curso de direito noturno. Contudo, o encontro não acabava ali. Como gostava de falar um ex- integrante do grupo, “O Xirú depois da reunião é obrigatório”. A conversa continuava em uma troca de risadas, cerveja e afetos no bar que fica na frente da Faculdade de Direito. O final das recepções de novos integrantes era sempre feito lá.

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