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Capítulo IV – O regime jurídico de reparação

1. Dos acidentes de trabalho

1.4. O Fundo de Acidentes de Trabalho

O Fundo de Acidentes de Trabalho foi criado pelo Decreto-Lei nº 142/99, de 30 de abril, e visa garantir o pagamento das pensões estabelecidas na LAT que não possam ser pagas pela entidade responsável, nomeadamente por motivo de incapacidade económica objetivamente caracterizada em processo judicial de insolvência ou equivalente, por processo de recuperação de empresa ou por motivo de ausência, desaparecimento e impossibilidade de identificação daquela, bem como o pagamento dos prémios do seguro de acidentes de trabalho das empresas que, no âmbito de um processo de recuperação, se encontrem impossibilitadas de o fazer, mediante requerimento apresentado pelo gestor da empresa.

Para além disto, o FAT é responsável pelo pagamento das atualizações de pensões de acidentes de trabalho e das atualizações das prestações suplementares a cargo das empresas de seguros e pela colocação dos riscos recusados de acidentes de trabalho numa empresa de seguros (artigo 1º, do diploma mencionado)119.

Este funciona junto do Instituto de Seguros de Portugal (ISP), a quem compete a sua gestão técnica e financeira, nos termos do artigo 2º, daquele diploma.

2. Das doenças profissionais

Verificados os pressupostos da reparação supra analisados, cabe saber em que termos se o opera o direito à reparação no âmbito das doenças profissionais, sendo que a determinação da incapacidade, à semelhança do que acontece com os acidentes de trabalho, ocorre por recurso à Tabela Nacional de Incapacidades.

2.1. Tipos e avaliação da incapacidade

No que respeita à avaliação, graduação e reparação das doenças profissionais diagnosticadas, estas são da exclusiva responsabilidade do serviço com competências na área da proteção contra os riscos profissionais, a saber, o Departamento de Proteção contra os Riscos Profissionais (DPRP), como resulta do artigo 96º, da LAT.

Ora, tal como prescreve o artigo 97º, a doença profissional pode determinar incapacidade temporária ou permanente para o trabalho, nos termos definidos para os acidentes de trabalho (artigo 19º).

1606/12.0TTLSB-L.1-4; e de 16.03.2016 (Eduardo Azevedo), no âmbito do processo nº 804/03.2TTSNT.2.L1-4.

71 Do mesmo modo, com as devidas adaptações, também o grau de incapacidade resultante da doença profissional se define, em todos os casos, por coeficientes expressos em percentagens e determinados em função da natureza e da gravidade da lesão, do estado geral do benificiário, da sua idade e profissão, bem como da maior ou menor capacidade funcional residual para o exercício de outra profissão compatível e das demais circunstâncias que possam influir na sua capacidade de trabalho ou de ganho, sendo expresso pela unidade quando se verifique disfunção total com incapacidade permanente absoluta para todo e qualquer trabalho. O coeficiente de incapacidade é fixado por aplicação das regras definidas na tabela nacional de incapacidades por acidentes de trabalho e doenças profissionais, em vigor à data do acidente120.

Assim, tal como nos acidentes de trabalho, também as doenças profissionais podem determinar uma incapacidade temporária (parcial ou absoluta) ou permanente (pode ser parcial, absoluta para o trabalho habitual ou absoluta para todo e qualquer trabalho).

Nestes termos, a incapacidade temporária de duração superior a 18 meses considera- se como permanente, devendo ser fixado o respectivo grau de incapacidade, salvo parecer clínico em contrário, não podendo, no entanto, aquela incapacidade ultrapassar os 30 meses, nos termos do nº 2, do artigo 97º. Este parecer clínico pode propor a continuidade da incapacidade temporária ou a atribuição de uma pensão provisória, nos termos do nº 3 daquele preceito legal.

2.2. A reparação

A proteção nas doenças profissionais é assegurada pelo desenvolvimento articulado e sistemático das atuações no campo da prevenção, pela atribuição de prestações pecuniárias e em espécie, tendo em vista, em conjunto com as intervenções de reabilitação e reintegração profissional, a adaptação ao trabalho e a reparação dos danos emergentes da eventualidade (nº 1, do artigo 98º, da LAT).

Quanto às prestações pecuniárias, estas revestem, com as devidas adaptações, as modalidades referidas para os acidentes de trabalho acima tratadas (nº 3). O mesmo acontece quanto às prestações em espécie, que comportam as preditas para os acidentes de trabalho, bem como as previstas no artigo 99º, a saber, o reembolso das despesas de deslocação, de alimentação e de alojamento indispensáveis à concretização das prestações previstas no artigo 25º, bem como quaisquer outras, seja qual for a forma que revistam, que se mostrem necessárias e adequadas ao restabelecimento do estado

72 de saúde e da capacidade de trabalho ou de ganho do trabalhador e à sua recuperação para a vida ativa (por remição do nº 2, do artigo 98º ,da LAT).

Neste âmbito, importa um último comentário acerca do direito à reparação nos casos dos trabalhadores não contribuintes para o sistema. São condições de acesso à proteção social garantida pelo regime previdencial, a inscrição e a obrigação contributiva, tal como prescrevem a al. d), do nº 1, do artigo 52º e o artigo 55º, da LBSS. Cabe, portanto, saber de que forma estarão aqueles trabalhadores protegidos no âmbito da reparação das doenças profissionais. Julgamos, pois, nestes casos, ser da responsabilidade do empregador tal reparação121. Do mesmo modo nos pronunciámos quanto aos acidentes

de trabalho, e as consequências ao nível da reparação dos mesmos, perante a falta de cumprimento da obrigação de transferir a responsabilidade através da contratação do seguro próprio.

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Conclusão

O regime geral dos acidentes de trabalho e doenças profissionais vem definido no artigo 284º do CT e na LAT, regime que se baseia no princípio da responsabilidade objetiva da entidade empregadora.

O atual regime jurídico da reparação dos danos emergentes de acidentes de trabalho e doenças profissionais resulta, pois, da evolução social, económica e legislativa a que se assistiu até então, sendo que determina o responsável por essa reparação e as situações em que a mesma deve ser concedida, bem como todo um conjunto de normas destinadas à proteção dos trabalhadores.

Contudo, no nosso entender, esta evolução não teve em consideração que a atividade do trabalhador existe, não só para benefício do empregador, mas também para seu próprio benefício e de toda a sociedade ou coletividade, tendo sido esquecida a integração dos acidentes de trabalho no regime da segurança social prevista primitivamente pela Lei de Bases da Segurança Social.

Nestes termos, pese embora a base legal seja praticamente comum, encontramos atualmente uma dualidade de regimes, um para os acidentes de trabalho e outro para as doenças profissionais, configurando um duplo regime de reparação. Revela-se, portanto, uma opção incongruente, por se tratar de um regime assente na responsabilidade objetiva do empregador no que respeita aos acidentes de trabalho, de seguro obrigatório a cargo de uma seguradora privada, quando o que se pretende proteger no âmbito dos riscos profissionais é sua natureza frágil e própria da condição humana, sendo que esta proteção vai além da responsabilização do empregador.

O direito à reparação dos danos emergentes dos riscos profissionais comporta, portanto, a verificação dos pressupostos enunciados no regime atual, que regula conjuntamente este direito tanto no que respeita à matéria dos acidentes de trabalho como das doenças profissionais. De facto, estas eventualidades sempre estiveram muito próximas, começando por ser prevista, num primeiro momento, a proteção dos acidentes de trabalho e, posteriormente, das doenças profissionais.

Consequentemente, a responsabilidade da entidade empregadora pela reparação dos danos derivados de acidentes de trabalho consubstancia uma consequência direta da autoridade que exerce sobre o trabalhador, no âmbito do contrato de trabalho celebrado entre ambos, associada à subordinação.

74 Assim, tendo em conta tudo o que foi apresentado neste estudo, subsistem algumas questões que devem ser levantadas quanto ao atual regime. A própria indefinição legal de risco leva a que a essência do regime de reparação não seja apenas a de verificação dos riscos pelos quais o empregador é responsável, mas também a de traçar um regime adequado à proteção do trabalhador sinistrado, que fique parcial ou totalmente impossibilitado de exercer a sua ou qualquer outra profissão, pela redução da sua capacidade de trabalho ou de ganho. Percebe-se, portanto, neste sentido, que a essência do regime deva ir mais de encontro ao sistema de segurança social, do que ao sistema assente na responsabilidade civil do empregador. Dados os contornos do atual sistema, afigura-se-nos que este seja um tanto ambíguo, por trazer à responsabilidade e ao direito à reparação, uma entidade estranha à relação laboral, como o são as seguradoras privadas, por prosseguirem fins lucrativos e não fins sociais.

Entendemos, portanto, que neste campo dever-se-ia proceder à integração gradual dos acidentes de trabalho no âmbito do regime da segurança social, ou mesmo, à criação de um seguro social de caracter público, com vista ao seu fim último, in casu, à proteção da dignidade do trabalhador e da respetiva família, como contrapartida do seu contributo para toda a comunidade.

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