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CAPÍTULO 3. O incremento no incentivo à PD&I no setor de software e serviços de TI:

3.2. O incremento de fomento à inovação para o setor de software e serviços de TI

3.2.1. O Fundo Setorial de Informática (CT-Info)

Conforme visto, a Finep operacionaliza seus investimentos em CT&I por meio de mecanismos reembolsáveis e não reembolsáveis. Dentro dos mecanismos reembolsáveis da instituição não existe um programa especificamente voltado para a indústria de software e serviços de TI e os projetos dessa natureza submetidos pelas empresas da IBSS são enquadrados nas linhas horizontais da agência. Já dentro dos não reembolsáveis, por meio dos

instrumentos de subvenção econômica e projetos cooperativos, são utilizados os recursos do Fundo Setorial de Tecnologia de Informação, cujo foco é o de “fomentar projetos estratégicos de P&D para as empresas brasileiras do setor de informática”59

. Cabe relembrar que os fundos setoriais tinham como objetivo a aquisição de competências tecnológicas e o aumento de produtividade, o incentivo ao estabelecimento de rotinas de P&D nas empresas e ICT, e passaram a ocupar posição central na formulação de políticas públicas de CT&I para setores estratégicos e de alta competência tecnológica, como o de informática.

Kubota, Nogueira e Milani (2012) realizaram um estudo para compreender a dinâmica desse fundo setorial e sua difusão entre as empresas brasileiras do setor de TIC60, buscando compreender em que medidas tais empresas realizaram projetos contratados com recursos do CT-Info61 e o motivo pelo qual empresas do setor não recorreram a estes recursos. Para tanto os autores analisaram os dados disponibilizados pelo MCTI sobre os projetos contratados com recursos dos fundos setoriais para o período de 2000 a 200862, além de pesquisa qualitativa com empresas do setor que recorreram ou não a este recurso.

Os resultados apontam para uma baixa participação de empresas nos projetos contratados com recursos do CT-Info – foram 99 empresas que contrataram 111 projetos de um total de 500 fomentados por este fundo no período analisado. Adicionalmente, no levantamento realizado pelos autores foi identificado outros 930 projetos relacionados a TIC, mas que foram fomentados por outros fundos setoriais e tiveram a participação de 171 firmas. Ou seja, para cada projeto de TIC contratado por empresas com recursos do CT-Info existe quase o dobro de projetos de TIC contratados por empresas utilizando recursos de outros fundos setoriais. Resultado similar será apresentado no capítulo seguinte, porém analisando apenas o setor de software e serviços de TI.

Além da pesquisa quantitativa envolvendo a base do MCTI, os autores fizeram uma pesquisa qualitativa com algumas das empresas participantes desses projetos. De acordo com o estudo, quase a totalidade de empresas (90% da amostra) são de capital nacional privado, sendo que metade das empresas participantes são micro e pequenas empresas - isto é,

59

Disponível em http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/1413/CT___InfoCati.html. Último acesso em Janeiro de 2017

60 O único estudo encontrado especificamente sobre o CT-INFO engloba todo o setor de TIC e não apenas o de software e serviços de TI, como é o foco do presente trabalho.

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Ressalte-se que empresas da IBSS podem contratar recursos provenientes de outros fundos setoriais, seja aqueles de caráter transversal como o fundo para Subvenção Econômica ou o Fundo Verde Amarelo, seja de os de caráter setorial, dado que o atividades de software, conforme visto anteriormente nesse trabalho, são transversais a diversos setores da economia. Esse levantamento também foi realizado no trabalho em questão. 62 A mesma base de projetos será analisada no capítulo seguinte porém com uma abrangência maior e sob uma perspectiva diferente.

16% possuíam até 5 pessoas ocupadas e 34% possuíam entre 6 e 20 pessoas ocupadas. Além disso, no momento da contratação do financiamento, a maioria das empresas tinham até quatro anos de existência (36%) ou entre 5 e 10 anos (32%). Quase metade das empresas da amostra já havia recorrido a outros instrumentos de fomento à CT&I, principalmente a Lei de Informática, recursos de outros fundos setoriais, o programa Juro Zero da Finep, financiamentos do BNDES e de FAP, além de Venture Fórum e Bolsas RHAE. Outro aspecto que chama a atenção é que 68% das empresas da amostra tiveram origem ou consolidação em incubadora, sendo que a maior parte das restantes são grandes empresas com mais de 20 anos de existência. (KUBOTA; NOGUEIRA; MILANI, 2012).

Esses dados (e outros apresentados no estudo) revelam, de acordo com os autores, a existência de um comportamento endógeno do CT-Info, isto é, para uma captura do instrumento pelo intitulado “complexo acadêmico-universitário” composto principalmente por universidades, institutos e centros de pesquisas, incubadoras, parques tecnológicos e fundações universitárias – organizações com forte relacionamento com o ambiente acadêmico e que estariam mais familiarizadas com a liturgia, a complexidade e o formalismo de convênios com órgãos públicos de fomento. Isso foi reforçado com o dado de que apenas uma empresa da amostra não tinha nenhum vínculo com esses tipos de instituições. Nas palavras dos autores, “depreende-se que o CT-Info ainda não foi capaz de ‘pular o muro da universidade’”. (KUBOTA; NOGUEIRA; MILANI, 2012, p. 73).

Essa captura do instrumento age de maneira a dificultar a ampliação da participação de empresas no acesso aos recursos do CT-Info, deixando o instrumento restrito a um “circuito-fechado” de organizações satélites do complexo acadêmico-universitário, seja pelo lado das micro e pequenas empresas, com vínculo estreito com incubadoras e com a academia, seja pelo das grandes empresas que possuem vínculos fortes com instituições de pesquisa que por sua vez fazem parte deste complexo. No mesmo trabalho, foram entrevistadas empresas do setor que não recorreram a esse recurso, e foi visto que mais da metade das empresas ou não conhecia o funcionamento do instrumento ou nunca tinha ouvido falar neste. E outra parcela, de 11%, conhecia o instrumento mas considerava complexo demais para justificar a submissão de projeto a este. (KUBOTA; NOGUEIRA; MILANI, 2012).

Apesar disso, a avaliação geral do instrumento pelas empresas participantes desse estudo é positiva, ajudando no cumprimento dos objetivos dos projetos e com transbordamentos da tecnologia desenvolvida para outras atividades da empresa e gerando benefícios não esperados por estas. No entanto, alguns obstáculos foram levantados, como o

descumprimento do cronograma financeiro por parte da Finep impactando os objetivos dos projetos e a manutenção da equipe; e a impossibilidade de utilizar o recurso para atividades de gestão e de viabilização comercial do produto (o “empacotamento” da solução).

De maneira adicional a esse estudo, Araújo et al. (2012) avaliou o impacto dos fundos setoriais sobre os esforços tecnológicos e resultados das empresas no Brasil, comparando as com empresas que não acessaram o recurso. Embora o estudo não se restrinja ao CT-Info ou ao setor de TIC e se restrinja para o período até 2006 (portanto antes da regulação do mecanismo de subvenção econômica), é interessante notar que a trajetória das empresas que tiveram acesso aos recursos dos fundos setoriais é diferente, positivamente, daquelas que não acessaram. Estas empresas apresentaram maior taxa de crescimento do pessoal técnico-científico ocupado e pessoal ocupado total. Entretanto, o impacto nas exportações de alto conteúdo tecnológico foi pouco significante.