Em 2015 iniciou-se um período de obras de restauração no Palácio Universitário e por isso foi determinado pelo responsável da Divisão de Preservação de Imóveis Tombados (DIPRIT) da UFRJ que todo o acervo da BPC deveria ser acondicionado por plástico para que as obras não fossem danificadas por qualquer detrito da obra de restauração naquele período, por isso, todas as estantes estavam cobertas por um plástico preto, o que impossibilitava a visibilidade das obras nas estantes; mais tarde essa determinação mostrou-se ser a forma como os ladrões conseguiram furtar tantas obras sem que fossem descobertos (BRANDALISE; RIBEIRO, 2017).
Somente em outubro de 2016, por contato telefônico da Polícia Civil do Estado de São Paulo, a equipe da Biblioteca tomou conhecimento do furto, pois a Polícia havia encontrado 5 volumes de livros raros e alguns ex-libris da Universidade do Brasil em apreensão na residência do ladrão.
Os criminosos já eram conhecidos por outros furtos em bibliotecas pelo Brasil, eles são: “Laéssio Rodrigues de Oliveira, 44 anos, ex-estudante de biblioteconomia envolvido em furtos de livros desde 2004, e Valnique Bueno, seu comparsa”. (BRANDALISE; RIBEIRO, 2017).
A partir disso, começou o trabalho de inventário nas coleções da Biblioteca para descobrirem o que foi furtado, ao final do inventário foi constatada a falta de 303 obras do
acervo, considerados livros raros, e ao todo foram 588 volumes furtados no que hoje é considerado o maior furto de obras raras do País.
De acordo com Brandalise e Ribeiro (2017), em matéria do jornal Estadão escrita após entraram em contato com o responsável pela Biblioteca, o alvo dos furtos foram obras com gravuras que geralmente são cortadas e vendidas separadamente.
Dentre as 303 obras consideradas raras, foram furtados 16 volumes da primeira edição dos Sermões de Padre Antônio Vieira de 1679 e uma grande quantidade da coleção Brasiliana.
No XIII Encontro Nacional de Acervo Raro, em 2018, Paula M. A. Cotta de Mello, coordenadora do SIBI e José Tavares da Silva Filho, responsável pelo acervo da BPC, apresentaram um trabalho sobre o furto.
Neste trabalho eles apresentam um percentual dos livros furtados por coleção, o quadro a seguir foi extraído da apresentação.
Quadro 1- Percentual dos livros furtados por coleção – volumes.
Fonte: MELLO; SILVA FILHO, (2018).
Nota-se que o foco dos ladrões foi direcionado para a coleção de obras raras, que totaliza 364 obras furtadas, o maior número dentre as coleções seguido respectivamente do acervo geral com 93 livros faltantes, a coleção Professor Afonso Carlos com 83 e por último os in-fólios raros, que teve 48 livros furtados.
Em contrapartida, os in-fólios raros é a coleção com o maior percentual de livros furtados, pois é a coleção com o menor número de livros; antes do furto totalizava 244 livros, após ter 48 itens da coleção furtados ela apresenta o percentual de 19,67%, ou seja, é a coleção que sofreu a maior perda de volume.
O segundo maior percentual é a coleção de Obras Raras que contava com 2 241 livros antes do furto e após ter 364 de seus itens furtados apresenta 16,24% de livros furtados.
O acervo geral vem em seguida com o percentual de 2,99% e por último a coleção Professor Afonso Carlos, que é a maior coleção, pois continha antes do furto 9.541 livros dos quais foram furtados 83 por isso apresenta o percentual menor de 0,86%.
Outro quadro da apresentação que mostra informações importantes é o que exibe dados sobre os livros furtados pelo século de publicação.
O segundo quadro (Quadro 2) evidencia o interesse dos ladrões em livros do século 19, período que se inicia em 1801 e termina em 1900, totaliza o maior número de furtos com 266 livros subtraídos e que apresenta o percentual de 12,24%.
Em seguida os livros do século 20 foram visados para o furto com 72 livros furtados apresentando percentual de 3,23%.
Comparado aos outros os livros do século 18 e 17, foram menos visados e tiveram respectivamente 33 e 30 itens subtraídos, e tem o percentual de 1,52% e 0.85%. Por último, houve o furto de 9 livros sem data que representam 0,4% no percentual.
Quadro 2 – Livros raros furtados pelo século de publicação.
XVI XVII XVIII XIX XX Sem
data Obras
raras
0 30 33 266 72 09
Percentual 0% 0,85% 1,52% 12,24% 3,23% 0,4%
Fonte: MELLO; SILVA FILHO, (2018).
Na já citada reportagem do Estadão, Brandalise e Ribeiro (2017) destacaram o valor dos livros furtados, no sentido de valor monetário, não existe um valor oficial para cada item, mas consultando um avaliador foi apontado que pelo menos 27 livros, considerados os mais raros, podem valer entre R$ 380 mil e R$ 500 mil. Tendo em vista o status de ex-estudante de Biblioteconomia, fica evidente que o ladrão tinha conhecimento sobre o que furtar, e o quanto os livros valiam no mercado.
Uma pequena parte dos livros furtados na Biblioteca Pedro Calmon já foi recuperada. Em 2017, na lista de in-fólios furtados, fornecida à reportagem do Estadão, consta um item recuperado, o Testacea fluviatilia, de 1817/1820.
De acordo com a reportagem publicada no site da Biblioo (2018), em maio de 2017 foram recuperados 12 livros, cujo os títulos não foram mencionados, dentre esses livros, três obras foram recuperadas por interceptação quando estavam a caminho da Europa.
Em 2018 um exemplar do livro Cartas do Padre Antonio Vieira foi recuperado pela Polícia Federal em Campina Grande, quando estavam cumprindo um mandado de busca e apreensão, além dos 5 livros primeiramente identificados que constataram o furto.
Diante do grande volume de livros furtados esse parece um número muito pequeno de exemplares recuperados o que corrobora as conclusões de Greenhalgh (2014), sobre o índice de recuperação de obras furtadas que não chegam a 50%.
Diante disso, vale mencionar o sentimento de toda a equipe da Biblioteca quando constatado o furto, o impacto causado, apesar de haver instalações de segurança, infelizmente cobrir as estantes com plástico que a princípio foi determinado como uma proteção para os livros foi o que acabou facilitando a ação dos ladrões.
A apresentação já mencionada de Mello e Silva Filho expõem o impacto da situação sobre a equipe:
O impacto dos furtos dos livros sobre a equipe da Biblioteca foi muito forte, a perplexidade diante da impotência da Instituição em relação à ação meticulosamente planejada pela quadrilha especializada apesar de haver prévias instalações de segurança, a constatação do perdido, do vazio passa a ser a nova realidade. (MELLO; SILVA FILHO, 2018).