CAPÍTULO I: JOGO, ARTE E TÉCNICA: DEBATES SOBRE UM ESTILO DE
1.6 O “FUTEBOL MULATO”: O NASCIMENTO DA IDEIA DE FUTEBOL
Não é preciso ser nenhum fã de futebol para ter ouvido falar do “jeitinho brasileiro” de jogar ou do nosso “futebol arte”. As raízes da ideia de futebol arte podem ser encontradas ainda na década de 30, com Gilberto Freyre. Em Foot-Ball Mulato, artigo escrito para o Jornal Diário de Pernambuco, Freyre (1938) reflete sobre o que seria a nossa forma brasileira de jogar. Para Freyre o estilo do futebol brasileiro se distinguia do europeu por contar com um “conjunto de qualidades de surpresa”, que incluía a astúcia, agilidade e espontaneidade.
Acaba de se definir de maneira inconfundível um estilo brasileiro de foot- ball; e esse estilo é mais uma expressão do nosso mulatismo ágil em assimilar, dominar, amolecer em dança em curvas ou em músicas técnicas europeias ou norte- americanas mais angulosas para o nosso gosto: sejam alas de jogo ou de arquitetura. Porque é um mulatismo, o nosso- psicologicamente ser brasileiro é ser um mulato - inimigo do formalismo apolíneo para usarmos com alguma pedanteria a classificação de Spengler – e dionisíaco a seu jeito – o grande jeitão mulato. Inimigo do formalismo apolíneo e amigo das variações, dedicando em manhas moleironas, mineiras que se sucedem surpresas de agilidade. A arte do songa-monga. (FREYRE, 17 de Fevereiro de 1938, Jornal Diário de Pernambuco)
Segundo Freyre os negros e mulatos não jogavam futebol, e sim dançavam com a bola.
No foot-ball como na política, o mulatismo brasileiro se faz marcar por um gosto de flexão, de surpresa de floreio, que lembra passos de dança e de capoeiragem. Mas, sobretudo de dança. Dança dionisíaca. Dança que permite o improviso, a diversidade, a espontaneidade individual. Dança lírica. (FREYRE, 17 de Junho de 1938, Diário de Pernambuco).
Freyre também escreveu o prefácio do livro de Mário Filho, “O Negro no Futebol Brasileiro” (2003), uma obra que se tornou um clássico até mesmo dentro das ciências sociais e que como observou Soares (1999) vem funcionando como uma história mítica que veio sendo atualizada ao longo dos anos. Para o autor, muitos cientistas sociais acabam utilizando a obra de Filho de forma acrítica, sem levar em conta o período em que a obra foi escrita e a influência que Mário sofreu do pensamento de Freyre.
Na análise de Gilberto Freyre (1947), Mário Filho está para o futebol assim como Machado de Assis está para a literatura, e a sua obra é de extrema importância para estudos psicológicos e sociológicos do esporte. Na visão de Gilberto Freyre (1947), Mário Filho expõe o conflito da racionalidade e da irracionalidade no comportamento dos homens brasileiros, homens que segundo Freyre vieram de uma sociedade híbrida e mestiça, de raízes ameríndias e africanas, não só europeias.
Segundo Freyre (1947) o futebol em nossa sociedade teve grande importância, pois era o meio de expressão moral socialmente aprovado pelo povo, pela Igreja, pelo governo e pela imprensa. O futebol conseguiu se desenvolver em sua análise, porque elementos irracionais da formação cultural e social brasileira foram sublimados. Freyre ainda destaca que a capoeiragem, o samba e a molecagem baiana estão presentes no futebol brasileiro e dessa forma ajudou que o nosso futebol se distanciasse do futebol britânico.
Para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é. A dança dançada baianamente por um Leônidas; e por um Domingos, com uma impassividade que talvez acuse sugestões ou influências ameríndias sobre sua personalidade ou sua formação. Mas de qualquer modo, dança. (FREYRE, 1947:25)
Gilberto Freyre influenciou outros autores, como Anatol Rosenfeld (1993), filósofo judeu alemão que viveu no Brasil de 1937 a 1973 (ano de sua morte) em consequência da perseguição nazista. Rosenfeld foi professor na Universidade de São Paulo entre 1962 e 1973 e escreveu a obra “Negro, Macumba e Futebol” onde analisou entre outras coisas a entrada do negro no futebol brasileiro.
Para Rosenfeld a democratização do futebol ocorreu em 1919, numa partida entre Brasil e Uruguai. Nesta partida o gol da vitória foi marcado por Arthur Friendenreich, um mulato, filho de comerciante alemão com uma lavadeira negra. Na análise do autor, por mais que tivéssemos na literatura e nas artes negros que tivessem conseguido se destacar, eles ainda permaneciam desconhecidos e foi através do futebol que “heróis” negros começaram a surgir na sociedade brasileira. O futebol para Rosenfeld conseguiu, dessa maneira, abrir as portas para os negros, através de oportunidades financeiras e prestígio social, entretanto a situação continuava muito complexa, pois se no futebol todos eram iguais, na vida real não.
Por causa da influência de Freyre, Rosenfeld (1993) ainda fala em “talento natural” dos nossos jogadores. Ao analisar o sucesso dos primeiros jogadores negros que começaram a se destacar no futebol brasileiro, como Leônidas da Silva. Rosenfeld recorre a Gilberto Freyre, e explica que o sucesso desses jogadores se deve a nossa “mulatice brasileira”, pois o mulato estava numa posição racial privilegiada, já que estava “entre raças”. O mulato fazia com que o nosso futebol fosse uma “dança ornamental” repleta de artimanhas, malícias, manobras e truques da capoeira.
Todavia, foram, sobretudo, homens de cor, como Domingos da Guia e Lêonidas da Silva que se tornaram os ídolos máximos de todo povo brasileiro, não só porque foram excelentes jogadores, mas porque neles se encarnavam um dos mais altos valores ideológicos do Brasil: o da democracia das raças, por mais difícil que seja, em todos os casos, harmonizar a realidade com essa ideologia. (ROSENFELD, 1993:99).
Para finalizar, destaco que na análise do autor o futebol conseguiu atrair um grande número de torcedores por duas razões: A primeira razão diz respeito ao futebol ser um esporte que colabora com a coordenação motora e a segunda razão se refere a identificação que o futebol causou entre as pessoas, já que os homens sempre tenderam a impelir, a chutar as coisas para a frente. Rosenfeld ainda observa que além da identificação com os ídolos, os torcedores ainda se identificavam com os clubes, sendo que muitas torcidas representavam bairros da época, como veremos mais a frente, e mostravam dessa maneira as diferenças sociais do período.
1.7 - DEMARCAÇÕES DE CLASSES SOCIAIS E DE COR NA HISTÓRIA DO FUTEBOL