2 A SEMIÓTICA COMO TÉCNICA ADEQUADA PARA O ESTUDO DA
2.4 O giro linguístico: a realidade, a linguagem e o conhecimento
Restou assentado, no tópico predecessor, o valor atribuído à linguagem pelos integrantes do Círculo de Viena, sendo que ela poderia, desde que assumidas certas premissas, descrever a realidade com arrimo num vínculo verificável. Nesse contexto, destaca Mauro Lúcio Leitão Condé que “o Empirismo Lógico sustentava a inteligibilidade do mundo. A realidade poderia ser observada de modo neutro, bastando, voltar-se para ela. E, para que esta realidade inteligível, entretanto oculta, fosse apreendida com fidelidade, era necessário um absoluto rigor na linguagem que a exprime”.104
Foi essa ordem de idéias do neopositivismo lógico acerca da linguagem e de seu papel na elaboração do conhecimento humano, notadamente o de cunho científico, que cunhou a forma inicial do movimento conhecido por giro linguístico.
O giro linguístico105 indica, em síntese, o movimento do pensamento humano que deu causa ao surgimento e consolidação da filosofia da linguagem. Tal movimento englobou, num primeiro momento, o neopositivismo lógico (acima descrito) e, num segundo momento, evoluiu para uma nova vertente metodológica, em que a filosofia da linguagem se encontra mais centrada no plano de investigação pragmática, com abandono dos ideais essencialistas e descritivos que estavam subjacentes a sua corrente inaugural surgida com o Círculo de Viena. Acerca desse assunto, não é nenhum absurdo dizer que a filosofia da linguagem, e, por conseguinte, o giro linguístico, iniciou-se e consolidou-se com Wittgenstein.
Com efeito, são justamente duas obras do citado filósofo que melhor representam os dois momentos do giro linguístico e suas respectivas mudanças de paradigmas, conquanto ambas se encontrem assentadas no eixo comum da filosofia da linguagem. A primeira fase do giro linguístico, centrada num critério puramente verificacional, possui como obra expoente Tractatus Logico-Philosophicus, na qual a linguagem é alçada por Wittgenstein como o meio
104
CONDÉ, Mauro Lúcio Leitão. O círculo de Viena e o empirismo lógico. Disponível em: <http://www.fafich.ufmg.br/~scientia/art_mauro2.htm>. Acesso em: 28.01.2004.
105
de representação do mundo.106 Já a segunda fase, centrada num critério comunicacional, possui como expoente a obra Investigações Filosóficas, por meio da qual foi inserido o caráter comunicacional da linguagem, com a teoria dos jogos de linguagem.
A influência de Wittgenstein e a exata noção da virada concretizada pela segunda fase do movimento filosófico em questão (daí a própria denominação giro linguístico e a sua aplicação apenas a esse segundo momento) são muito bem expostas por Adrualdo Catão107. Segundo tal autor, “no primeiro ‘giro linguístico’, com os positivistas lógicos do Círculo de Viena, tinha-se a idéia de que a linguagem deveria servir como instância mediadora entre o homem e o mundo, de forma que os problemas filosóficos deveriam ser resolvidos por uma linguagem perfeita, uma linguagem ideal”.108 Tratava-se, destarte, “da tentativa de se encontrar um caráter designativo da linguagem, onde se tem ‘a teoria da afiguração como correspondência estrutural entre frase e estado de coisas, respectivamente, fatos, elaborada no Tratactus. [...]’”.109 Assim é que, nessa perspectiva, há “uma preocupação central com as questões semânticas e sintáticas, donde os problemas pragmáticos, aqueles referentes à relação do signo com seu usuário, não se apresentarem a não ser em uma linguagem natural, sendo irrelevantes para o que se chama de neopositivismo lógico”.110 Já quanto ao segundo
106
Analisando o eixo central da obra Tractatus de Wittgentein, Bortolo Valle, Professor do Programa de Pós- Graduação em Filosofia da PUC do Paraná, assim se posiciona: “Da mesma maneira que o Positivismo Lógico pretendeu eliminar a metafísica em nome da teoria do conhecimento, o Tractatus pretende construir uma metafísica sobre a lógica, livrando-se da psicologização do problema do conhecimento. Reconhecer no Tractatus uma teoria do conhecimento é admiti-la a partir de seu eixo fundamental, qual seja, o da conexão entre a proposição e o fato, entre a lógica e a ontologia [...]. Decorrem dessas considerações na teoria do conhecimento do Tractatus três níveis diversos. 1. Uma teoria sobre os processos do pensamento. Neste sentido a teoria do conhecimento não importa muito à filosofia, por sua vulnerabilidade aos elementos do psicologismo. 2. Uma teoria do conhecimento entendida como ‘aplicação’ da lógica. Trata-se de a posteriori uma análise (uma atividade como mostra Wittgenstein) voltada para descobrir as proposições elementares, ou seja, os fundamentos do conhecimento sobre os quais se assenta uma teoria da linguagem. Mesmo que neste nível se identifique uma tarefa legítima para a filosofia e ainda que Wittgenstein tenha dedicado alguns aforismas a esta análise, nela não se detém. 3. Um nível da lógica transcendental, na realidade uma teoria do conhecimento que, ao refletir a priori a estrutura lógica da linguagem, permite que se chegue ao núcleo do que é o conhecer e sua conexão com a realidade. Neste último nível, no Tractatus, encontramos as linhas transcendentais de todo o conhecimento e seu necessário caráter empírico sobre a base das proposições elementares e sua comparação com o mundo. As teses fundamentais daí decorrentes são: primeira, que o conhecimento tem uma estrutura piramidal, ou seja, tem uma base de apoio na realidade, por meio da experiência, que de tal base se constrói o edifício cognitivo; segunda, que todo conhecimento depende de uma referência linguística dada.” (VALLE, Bortolo. A conexão entre pensamento e realidade: sobre a teoria do conhecimento no tractatus lógico- philosophicus de ludwig wittgenstein. In: Revista de Filosofia, Curitiba, v. 16, n.18, p. 139-148, jan./jun. 2004, p. 139-148).
107
CATÃO, Adrualdo de Lima. Decisão jurídica e racionalidade. Maceió: EDUFAL, 2007, p. 28
108 Ibid., p. 28. 109 Ibid., p. 28. 110 Ibid., p. 28.
momento, cabe continuar seguindo a trilha do doutrinador sob enfoque, transcrevendo o seguinte trecho de sua lavra:
[...] o giro linguístico [...] teve um momento inicial no qual ainda se deixava levar pelos dualismos gregos, apegando-se a uma tentativa de se encontrar, através da linguagem, a essência do conhecimento, ou das coisas do mundo.
A despeito desse momento inicial, Rorty apresenta o ‘linguístic turn’, num segundo momento, com características das linhas de pensamento antirrepresentacionistas, quando se passou a considerar o pensamento do último Wittgenstein como tendo dado uma nova forma de se pensar sobre a suposta relação entre linguagem e a realidade, em contraste com os neopositivistas lógicos, e com o próprio Wittgenstein do Tractatus.
A ‘viragem pragmática’ veio, pois, com o próprio Wittgenstein ao rever sua postura filosófica em relação à linguagem, trazendo a noção de que a linguagem não é representação do mundo. Isso passa pela consideração antiessencialista de que não há um mundo com essências a serem descobertas pelo homem, que deve percebê-las e, depois, utilizar-se da linguagem para sua transmissão. 111
Como se nota, a viragem pragmática da filosofia da linguagem estava assentada nas idéias veiculadas na obra Investigações Filosóficas, de Wittgenstein, e voltou-se para a investigação do uso que se faz da linguagem. Portanto, ganha relevo a investigação do contexto no qual está inserida a linguagem, segundo um jogo linguístico que segue determinadas regras. Assim, do paradigma verificacional que vinha dominando a filosofia da linguagem passou-se para o paradigma comunicacional.112 Explica Adrualdo Catão113 que há, com isso, o rompimento dos dualismos metafísicos sujeito-objeto, aparência-realidade, essência-acidente. Exsurge, então, o não-representacionismo da linguagem. Sedimenta-se, enfim, a idéia de que “não se deve tentar encontrar na linguagem ou no pensamento representações da realidade, desde que o conhecimento não é o conhecimento de essências, ou da coisa em si, mas sim um ato condicionado aos interesses e necessidades humanos, sempre inserido num ambiente linguístico, abrindo espaço à concepção pragmática da linguagem”.114
111
CATÃO, Adrualdo de Lima. Decisão jurídica e racionalidade. Maceió: EDUFAL, 2007, p. 32-33.
112
Cf. MENDES, Sonia. A validade jurídica pré e pós giro linguístico: uma leitura das teorias da validade de Hans Kelsen e herbert L. A. Hart a partir do Tractatus Logico-philosophicus e Investigações Filosóficas de Ludwig Wittgenstein. São Paulo. Noeses, 2007.
113
CATÃO, Adrualdo de Lima, op. cit., p. 23.
114
Ibid., p. 23. Nessa mesma página o citado autor, com fundamento nas lições de Rorty, expõe a mudança de enfoque havida nos seguintes termos: não cabe perguntar se se está descrevendo o objeto em sua realidade ou apenas em sua aparência, mas questionar se se está usando a melhor descrição possível para a situação (contexto) em que se encontra o sujeito.
A semiótica tornou-se, nesse passo, uma ciência geral e empírica, que sob a forma prognóstica procura estabelecer como devem ser os signos, como disse Lauro Frederico Barbosa da Silveira.115
Robson Maia Lins representa com perfeição a conformação final do giro linguístico ao defini- lo como “uma vertente da Filosofia da Linguagem que rediscute os conceitos de verdade com olhos voltados para a linguagem, cuja função, longe de ser meramente descritiva de qualquer ‘realidade dada’, é constitutiva dessa realidade. Por isso, anota-se como traço principal dessa escola a autorreferencialidade da linguagem, ou seja, a linguagem, descrevendo a realidade a constitui, independentemente do ‘dado’ objetivo que descreve”.116
As consequências dessa novel visão para o modo de compreender a existência humana e o mundo circundante são notáveis. Por ela, a linguagem deixa de ser espelho da realidade, assentando-se a noção do caráter distinto de tais planos. O homem deixa de ser habitante do mundo físico e passa a inserir-se num mundo linguístico, cultural. A linguagem é, então, o universo humano, de modo que o mundo físico passa a ser acessível ao homem por meio da linguagem, já que os acontecimentos físicos exaurem-se no tempo e no espaço, são fugidios, e só são reconstruídos, resgatados, a partir daquela. Nada passa a existir fora de interpretações, e o mundo passa a ser uma construção de significações, autorreferenciais. Lições essas que são fruto do engenho do professor Tarék Moysés Moussallem, que tão bem difundiu a doutrina do giro linguístico no âmbito jurídico.117
A teoria do conhecimento, que foi o centro dos debates desde os primórdios do movimento em tela, recebe o influxo dessas novas idéias, deixando de ser uma relação entre sujeito e objeto, para ser uma relação comunicacional, que ocorre pela interação de linguagens distintas. Mais uma vez o citado professor capixaba dá o exato tom do que seria conhecimento de acordo com a filosófica da linguagem pós-virada:
O conhecimento é um fato complexo que ocorre dentro de um processo comunicacional. É a relação que se dá entre: (1) a linguagem do sujeito cognoscente e (2) a linguagem do sujeito destinatário sobre a (3) linguagem do objeto – enunciado.
115
SILVEIRA, Lauro Frederico Barbosa da. In: Na origem está o signo. Revista Trans/Form/Ação, v. 14, São Paulo: Unesp, 1991, p. 45-52.
116
LINS, Robson Maia. Controle de constitucionalidade da norma tributária: decadência e prescrição. São Paulo: Quartier Latin, 2005, p. 45.
117
O homem, como ser cultural, habita uma linguagem. O sujeito emissor edifica seu mundo de acordo com sua linguagem e emite enunciados ao destinatário. Este, por sua vez, deverá coabitar o mesmo mundo linguístico do emissor para que possa compreender a mensagem (comunicação).
Não há que se falar em conhecimento apenas na experiência (percepção) ou tão-só na realidade (plano dos objetos). Faz-se necessária a interposição do plano linguístico (dos enunciados), estruturando os universos dos termos-sujeitos e do objeto.118
O conhecimento, nessa perspectiva, deixa de ser algo fruto da experiência, da habilidade e da intuição, para ser algo que se torna possível por causa da linguagem, que sempre medeia a formulação dos juízos humanos frente ao mundo real. Como disse Moussallem, “a palavra não é só a materialização do pensamento, é o próprio pensamento”.119
Essa nova concepção do conhecimento influencia, via de consequência, a própria estipulação de critérios sobre a busca da verdade. Precisamente, tem-se que sofre abalos a teoria da verdade por correspondência, segundo a qual o enunciado seria verdadeiro tão-só quando se verificasse a correspondência deste ao fato que o objetifica. Ganha fôlego, em contrapartida, a teoria da verdade por coerência, segundo a qual a verdade emerge como uma relação de coerência do discurso, que deveria ser escoimado de vícios e contradições. Nessa visão, a verdade decorreria de uma relação entre linguagens, ou melhor, uma relação de não- contradição entre os enunciados de um mesmo sistema. Isto é, a verdade de um enunciado seria criada dentro de um sistema, com especial atenção para a autoridade de seu emissor. Enfim, com o giro linguístico a realidade para o homem passar a ser um dado linguístico assim como o conhecimento que o ser humano detém sobre ela, inclusive a aferição da verdade de seu conteúdo.