Terminado o período de Juscelino Kubitschek, depois da inauguração de Brasília, a 21 de abril de 1960, o ano de 1961 começava com a posse, na presidência da República, de Jânio da Silva Quadros, que empolgando a opinião pública tivera a maior votação da história republicana - 48% dos votos – derrotando o marechal Lott e o ex-
governador de São Paulo, Adhemar de Barros, que fora iniciado Maçom, mas pouca atividade maçônica tinha. Jânio também havia sido iniciado Maçom através da Loja “Libertas”, de São Paulo, em 1946, mas se afastara em 1947, só retornando à atividade em 1985, ao ser eleito prefeito de São Paulo.
Tomando posse em janeiro, ele, rapidamente, implantou uma série de reformas nos métodos administrativos e determinou a abertura de diversos inquéritos e investigações, em atenção à sua promessa de estabelecer um clima de absoluta austeridade no serviço público. Também inaugurou uma política internacional mais agressiva, não fazendo restrições baseadas em ideologias políticas, na procura de parceiros comerciais e políticos para o Brasil; assim, reatou as relações com a União Soviética, as quais haviam sido cortadas durante o governo Dutra, e chegou a condecorar o líder guerrilheiro argentino Ernesto “Che” Guevara, que participara da revolução cubana liderada por Fidel Castro, em 1959, além de defender a autodeterminação do povo cubano.
O presidente, todavia, insurgia-se contra a oposição que sofria no Congresso – já que fora eleito por partidos minoritários – principalmente por parte do Partido Social Democrático e do Partido Trabalhista Brasileiro, que comandavam o Legislativo. E, além disso, sofria, evidentemente, pressão norte-americana, tendo em vista suas posições internacionais. A 25 de agosto de 1961, Jânio surpreendia a nação, ao renunciar ao cargo, por motivos aparentemente ignorados e obscuros, mas, provavelmente, para poder retornar através de um golpe, nos braços do povo, com poderes totais e sem as peias políticas que lhe eram impostas pelo Congresso Nacional.
Isso desencadeou séria crise política, pois, depois do cargo ser entregue na forma constitucional, ao presidente da Câmara Federal, Paschoal Ranieri Mazzilli, já que João Belchior Marques Goulart, o vice- presidente, estava viajando pela Ásia, os ministros militares, considerando perigosa a entrega do poder a Goulart, queriam que o Congresso declarasse seu impedimento para o exercício do cargo. Vários segmentos da sociedade levantaram-se em defesa da intangibilidade do mandato, tendo, o Grão Mestre Cyro Werneck, em nome do Grande Oriente do Brasil, se manifestado, publicamente, pelo respeito à Constituição, com a consequente posse de Goulart. Diante disso, a “solução” política surgiu na forma de Ato Adicional à Constituição, que instituía o regime parlamentarista no Brasil, o que deixaria o presidente sem poderes. A 7 de
setembro de 1961, Goulart assumiria o cargo.
Em 1963, Goulart encontrava-se fortalecido pela vitória no Plebiscito de janeiro que aprovou a volta ao regime presidencialista, derrubando o parlamentarismo, qua havia sido imposto à nação.
Com esse fortalecimento e contando com o apoio de alguns setores das forças armadas, de alguns grupos econômicos, de uma parcela do clero e das classes trabalhadoras, o presidente resolvia, então, propor ao Congresso, várias reformas de base, como segue:
1. Reforma agrária com a desapropiação dos latifúndios improdutivos e indenização através de títulos da dívida pública;
2. Reforma fiscal com a modernização do sistema tributário;
3. Reforma política com a extensão do direito de voto aos analfabetos; 4. Reforma universitária com a extinção da cátedra vitalícia.
A maioria oposicionista do Congresso, todavia, embora concordando com a necessidade das reformas estruturais, discordava da maneira como elas seriam feitas, principalmente em relação à reforma agrária, combatendo a intenção de pagamento das daspropriações com títulos da dívida pública, com pequeno índice de correção monetária. Graças a isso, os atritos entre o governo e a oposição avolumaram-se, fracassando todas as tentativas de conciliação, o que fazia prever o aparecimento de um processo de radicalização política.
Dois outros fatos viriam, no início de 1964, a tumultuar mais ainda, o já conturbado ambiente político; a estimulaçã, pelo presidente, da concentração de trabalhadores, no Rio de Janeiro, a 13 de março, proclamando a legitimidade das pressões sobre o Congresso, e a mensagem presidencial anual ao Congresso Nacional, solicitando a delegação de poderes ao Executivo, para a reforma constitucional e a elaboração legislativa, recebida com total frieza, o que fez com que o presidente, ocupando integralmente os limites de suas atribuições, baixasse os diversos decretos relativos, principalmente ao monopólio estatal da importação do petróleo e à regulamentação da lei de remessa de lucros para o exterior.
Alargava-se o abismo entre o governo e a oposição e esta via manobras continuistas de Goulart nas mensagens que mostravam um ensaio para a anulação do capítulo constitucional das inelegibilidades; passaram os oposicionistas, então, a acusar o presidente, como responsável
pelo atentado contra o sistema federativo do país, pela omissão perante o processo inflacionário, pela adoção de uma política de progressiva estatização e pela infiltração dos “comunistas” na administração do país.
A crise política atingia a situação econômica do país e o próprio meio social, quando os órgãos políticos e sindicais, como o Comando Geral dos Trabalhadores e a Frente de Mobilização Popular, manobrados pelas forças radiais de esquerda e com o total apoio do governo, pressionavam abertamente o Congresso para que este aprovasse as reformas propostas por Goulart.
A situação de extrema conturbação iria envolver todas as áreas do pensamento político brasileiro, incluindo-se a Maçonaria. Esta mostrava, na época, ao lado dos meros expectantes que, por inércia ou mediocridade, se omitiam, duas correntes de tendências opostasm, imitando o contexto geral da política brasileira: uma formada pelos elementos de esquerda que haviam começado a se infiltrar na Maçonaria a partir dos anos trinta, como se haviam infiltrado em outras instituições, sem excluir a Igreja católica; e outra que, sem manifestar tendências radicais de direita, era radical na luta contra o envolvimento esquerdista da Ordem maçônica, tradicionalmente contrária aos extremismos.
Todavia, mesmo perante essa divisão ideológica, o contingente maçônico mais numeroso era representado pela segunda corrente que, defendendo os valores básicos da cultura e do meio social brasileiros, além da tradição maçônica, que fez uma Instituição de cunho político, mas sem ser ligada a qualquer corrente partidária, passou a lutar ativamente pela legalidade constitucional, ameaçada pelos propósitos continuistas do presidente da República.
A essa altura, a crise se avolumava, proporcionando a intensificação das articulações no plano civil, com Carlos Lacerda, Magalhães Pinto e Adhemar de Barros, e na área militar, com os generais Cordeiro de Farias, Olímpio Mourão Filho, Nelson de Melo, Odylio Dennis, Costa e Silva, Carlos Luís Guedes, entre outros, contra os atos do governo.
A gota d’água que faltava para o desencadeamento da revolta foi dada pelo próprio João Goulart que, abandonando a tática conciliatória em relação às oposições, partiu para atitudes desafiadoras, das quais as principais foram: a falta depunição dos líderes de uma revolta de marinheiros e o discurso presidencial, a 30 de março de 1964, dirigido aos membros da Associação dos Subtenentes e Sargentos da Polícia do antigo
Estado da Guanabara. Esses atos feriam o princípio da hierarquia militar, causando o início de um processo de desagregação nas forças armadas. No mesmo dia, o governador mineiro Magalhães Pinto, onde afirmava que as forças sediadas em Minas Gerais consideravam como um dever a entrada em ação, para assegurar a legalidade ameaçada pelo próprio presidente.
Articulando o movimento revolucionário, a ação militar que fora marcada para o dia 3 de abril, acabou sendo antecipada para a madrugada de 31 de março, pela rebelião da guarnição de Minas que se delocou em direção à Guanabara, sob o comando dos generias Mourão e Guedes, recebendo no mesmo dia, a adesão do I, do II e IV Exércitos, sediados no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Pernambuco, respectivamente.
Irrompido o movimento político-militar, que iria depor o presidente, este empreendeu fuga para o Exterior, sendo, em seguida, emitido um Ato Institucional, que suspendia as garantias constitucionais e iniciava um expurgo na vida pública do país. A 15 de abril, eleito pelo Congresso, assumia a presidência da República o marechal Humberto de Alencar Castello Branco.
Naqueles agitados dias, embora houvesse uma divisão de opiniões, na Maçonaria brasileira, a maioria dos Maçons apoiou, inicialmente, o movimento, diante da situação caótica em que se encontrava o país e diante da disposição do presidente de dar um rumo ordeiro à nação e devolver o seu governo aos civis, o que não aconteceria, já que uma ala radical do Exército dispunha-se a continuar no poder. A Maçonaria, como Instituição, não foi molestada em nenhum momento, embora a repressão, que se seguiu à posse de Goulart, tivesse atingido a intimidade das Lojas maçônicas, não diretamente através do governo, mas por meio da corrente que apoiara o movimento e que iniciava, no seio da Instituição, um expurgo dos elementos radicais, o qual iria ser incrementado a partir de 1968, quando, durante o governo do general Arthur da Costa e Silva, que sucedeu a Castello Branco – e também eleito pelo Congresso – quando foi fechado o Congresso Nacional e editado o Ato Institucional nº 5, que acabava por pulverizar, totalmente, quaisquer garantias constitucionais, inclusive com férrea censura à imprensa, tão intensa quanto a da época da ditadura Vargas.
Ao lado, porém, de homens sérios, que julgavam que, naquele momento, estavam fazendo o melhor pela Maçonaria brasileira, surgiam os aproveitadores, que, por interesses pessoais na política maçônica e não por idealismo, passaram a usar a tendência política dominante, para se
desembaraçar de seus adversários: e muitos Maçons passaram a ser levianamente acusados, sem nenhum fundamento, e “premiados” com o adjetivo mais perigoso e contundente da época: comunista! A Justiça Militar, onde tais acusações eram analisadas, acabaria por arquivar todas as denúncias, diante da inconsistência delas.
Graças a essa situação, a atividade maçônica externa diminuiu muito, restringindo-se, então, aos fatos administrativos internos.
Depois de Costa e Silva, o Brasil seria governado por Emílio Garrastazu Médici – o mais duro de todo o período autoritário – que implantou a mais profunda censura a todos os órgãos da mídia nacional, impedindo qualquer tipo de manifestação da sociedade, que já ia se cansando do autoritarismo. A 15 de março de 1974, o governo seria assumido pelo general Ernesto Geisel, que foi quem iniciou a lenta abertura política, afrouxando os nós apertados da ditadura Médici.
A 16 de maio, Geisel recebia a visita, em audiência, do Grão Mestre Geral do Grande Oriente do Brasil e de seu Adjunto, que, sendo senador e do partido situacionista, leu um ofício em que o Grande Oriente reafirmava seu apoio regime de governo, que se havia instalado em 1964. Isso, sem consulta ao chamado “povo maçônico”, que, passado o período inicial, com Castello Branco, e percebendo que seria longa a estrada para a volta ao estado democrático, já não dava, em sua maioria, apoio ao sistema vigente.
A ABERTURA POLÍTICA: A ANISTIA E A RECONSTRUÇÃO DA