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O Golpe de 1964 e o silêncio das Assembleias de Deus

Capítulo 2 – “O nosso general é Cristo”: as Assembleias de Deus e sua relação com

2.1. O Golpe de 1964 e o silêncio das Assembleias de Deus

Não houve qualquer linha escrita nas páginas de o Mensageiro da Paz sobre o golpe de 1964 que destituiu o presidente João Goulart da presidência da República do Brasil. Nada foi dito. Nenhum comentário sobre as manifestações contrárias ou a favor a João Goulart. A posição oficial dos pastores das Assembleias de Deus diante daquele quadro de convulsão política no país foi de completo silêncio. As ausências de matérias que noticiassem o clima de instabilidade no país ou que, pelo menos, informassem que o Brasil tinha um novo governante, foram uma escolha deliberada e consciente por parte da diretoria do jornal e que contou com a chancela dos pastores das Assembleias de Deus.

Naquele período, a notícia sobre a deposição de Jango foi tratada por diversos órgãos de imprensa, pois, afinal, o presidente do maior país da América Latina tinha sido deposto, expondo de forma clara e indubitável o ambiente de contingências e de crise que veio se arrastando desde a renúncia de Jânio Quadros.

A imprensa nacional, fosse ela de esquerda ou de direita, confessional ou não, tratou de informar seus leitores a respeito do assunto. Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, por exemplo, chamam a atenção para os editoriais que foram publicados nos periódicos Correio

da Manhã, Jornal do Brasil e O Globo nos primeiros dias de abril de 1964.276

Por sua vez, o jornal confessional O Estandarte tratou o assunto através de duas matérias publicadas na sua edição especial de 15 e 30 de abril de 1964: “O país tem novo presidente” e “Caiu o Jango”. Enquanto que O Jornal Batista, em seu número publicado em

275

MENSAGEIRO da Paz: “o evangelista silencioso”. Mensageiro da Paz, Ano 44, n.º 02, Rio de Janeiro, 1974, p. 02.

276

FERREIRA, Jorge; GOMES, Angela de Castro. 1964: o golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

12 de abril de 1964, explicou o “afastamento” de João Goulart por meio de um artigo intitulado “Responsabilidade dos crentes nesta hora”.

Como se vê, a deposição de Jango foi objeto de comentários e análises por parte da imprensa brasileira, inclusive entre os periódicos mantidos por igrejas evangélicas. Muito embora predominasse nesses periódicos um conteúdo voltado para a orientação espiritual de seus leitores, havia espaço para matérias e artigos tratando, eventualmente, de política.

Não seria o caso de a Assembleia de Deus também discutir a situação do país por meio do seu órgão oficial? Ou de, pelo menos, informar seus leitores a respeito dos acontecimentos que o Brasil vivia naquele momento?

É possível que esse tipo de notícia não interessasse aos redatores. É possível, mas não me parece razoável tal justificativa, uma vez que o mesmo periódico destacou situações políticas bem menos relevantes, se comparadas à deposição de um presidente. Por exemplo, na primeira quinzena de março de 1964, portanto, antes do golpe, o jornal trouxe uma notícia do interior do estado do Maranhão.

A matéria foi assinada por Antonio de Sousa Santos. Ele relatou uma viagem que havia feito para a celebração de um culto na cidade de Vargem Grande, distante cerca de 200 km da capital. A reportagem informou que o prefeito da cidade havia cooperado com a igreja ao ceder as dependências de uma escola para que os fiéis da Assembleia de Deus se reunissem. Além disso, Antonio de Sousa destacou que antes “reinava o cangaceirismo na cidade”, mas “hoje, porém, é o contrário, o lugar é possuidor duma calma, boa ordem, sob a liderança do ilustre Prefeito, sr. Raimundo Correia”.277 Como se vê, a reportagem apresentou a situação da cidade de Vargem Grande tomando como referência a atuação política do prefeito Raimundo Correia.

Na edição de abril de 1964 o Mensageiro da Paz não trouxe qualquer notícia a respeito do golpe, o que se manteve nos meses subsequentes. Ainda que se tratasse de um jornal religioso que tinha, entre seus objetivos, divulgar as atividades das Assembleias de Deus, essa ausência de notícias referentes ao estabelecimento de um novo governo no país parece, inicialmente, um ato de cautela de seus diretores ante a conjuntura político-social daquele ano.

Referências a autoridades políticas não eram estranhas ao conteúdo de o Mensageiro

da Paz. Pelo contrário. Os editores do jornal gostavam de destacar a participação de chefes do

277

VARGEM Grande-Ma. Mensageiro da Paz, Ano 34, n.º 5, Rio de Janeiro, 1ª quinzena de Março de 1964. p. 5

executivo e de parlamentares nos eventos das Assembleias de Deus. Algumas dessas autoridades contribuíram diretamente para que tais eventos pudessem ser realizados.278

Sem demonstrar publicamente apoio de imediato aos militares e, muito menos, ao presidente deposto, a direção de o Mensageiro da Paz preferiu silenciar e omitir-se a respeito do problema político que o país atravessava, pelo menos nos primeiros meses após o golpe de 1964, numa atitude muito similar à que foi tomada pela Igreja Metodista. Contudo, em setembro daquele ano, o jornal publicou pela primeira vez, desde a sua fundação, um texto com forte conteúdo político cujo título era “O Cristão e as Falsas Ideologias”.

Seu autor, Athayde Magalhães, advertiu sobre a “ação deletéria” do comunismo para a sociedade brasileira, principalmente entre os jovens de 15 a 18 anos, os quais estariam em idade escolar e, em sua opinião, mais suscetíveis aos ensinamentos de professores materialistas. Nesse artigo, Athayde Magalhães fez um breve histórico da relação entre o pensamento de Karl Marx e o estabelecimento do comunismo na Rússia, por meio da Revolução de 1917.

O interesse do articulista era desqualificar não somente o comunismo, mas todo tipo de pensamento ou ideologia que colocasse em suspenso a existência de Deus. Por isso, sem meias palavras, Athayde Magalhães ressaltou o seguinte:

Por que devemos combater o Comunismo? Quais os danos, os processos que ele adota para infiltrar-se nos organismos sócio-econômico político e educacionais? [...] Ora, para nós, os cristãos, que temos em Cristo a solução para todos os nossos problemas, e de Deus recebemos desde a existência (vida), até as mínimas coisas indispensáveis às nossas necessidades, não devemos, portanto, dar tréguas a um inimigo que sub-repticiamente, se introduz no seio das massas humanas para delas retirar – o que o homem possue (sic) de mais sagrado: a fé em Deus.279

Embora Athayde Magalhães terminasse seu texto advertindo que continuaria no próximo número, não houve prosseguimento de sua explanação nas edições posteriores. É possível que o artigo não tenha sido objeto de críticas dos fiéis das Assembleias de Deus uma vez que, para estes, o jornal cumpria, única e exclusivamente, função evangelística e, portanto, não deveria dar espaço a discussões políticas.

278

São vários os exemplos que podem ser citados. Só no Maranhão, durante o ano de 1964, o jornal ressaltou a presença de algumas autoridades políticas em seus eventos, entre os quais, o prefeito Sebastião Antonio da Silva, da cidade de João Lisboa (Mensageiro da Paz. Ano 34, n.º 10, Rio de Janeiro, 2ª quinzena de Maio de 1964. p. 6); o "irmão" prefeito Manoel Garreto de Souza, da cidade de Mata-Roma e os "irmãos" vereadores Antonio Garreto e Antonio Aguiar, da mesma cidade (Mensageiro da Paz. Ano 34, n.º 19, Rio de Janeiro, 1ª quinzena de Outubro de 1964. p. 7); o vereador Oliveira Mendes, da cidade de Barra do Corda (Mensageiro da Paz, Ano 34. n.º 22, Rio de Janeiro, 2ª quinzena de Novembro de 1964. p. 8).

279

MAGALHÃES, Athayde. O cristão e as falsas ideologias. Mensageiro da Paz, Ano 34, n.º 18, Rio de Janeiro, 2ª quinzena de 1964, p. 2.

Esse era um traço que caracterizou as Assembleias de Deus até o fim da década de 1960: o modo como os fiéis relacionavam-se com o sagrado contribuiu para que o conhecimento formal (ciência, filosofia, política...) se tornassem secundários e, às vezes, irrelevantes para a própria existência do crente.

Houve um debate que se tornou público nas páginas de o Mensageiro da Paz em relação a esse assunto. Em 1963, por exemplo, o jornal publicou um artigo onde um autor anônimo expôs o analfabetismo dos obreiros280 das Assembleias de Deus, ressaltando que “há trabalhos de certa responsabilidade que um inculto não pode fazer”.281

Se, por um lado, advertiu-se aos obreiros da igreja que estes não deveriam transformar a Bíblia no único livro para ajudar na disseminação do Evangelho, por outro, a criação de colégios teológicos poderia trazer perigo para a igreja, pois, segundo o articulista, “pastores formados, manipulados (sic), são inclinados para a política, e daí tomam atitudes e escolhas completamente contrárias à missão para a qual foram chamados” e, ainda, “o pastor pode ser tentado a fazer uma oligarquia em seu ministério”.282

Essa posição encontrava eco entre a maioria dos pastores e obreiros das Assembleias de Deus. O pastor Estêvam Ângelo de Souza, da igreja de São Luís, Maranhão, escreveu um artigo no qual externava sua preocupação com a ideia de se criarem institutos bíblicos nas igrejas. Segundo o pastor, o crescimento das Assembleias de Deus no Brasil se deu graças ao trabalho de “homens humildes e simples, sem formação teológica”, mas “ungidos pelo Espírito Santo”.283

Desse modo, os editores de o Mensageiro da Paz preferiram manter uma posição de não envolvimento com questões políticas, senão àquelas relacionadas diretamente no combate ao comunismo pelo fato de este, antes de tudo, ser tomado como um regime que negava a existência Deus. Ainda assim, entre 1964 e 1967, o jornal apresentou apenas por duas vezes artigos com algum tipo de componente político, ambos referindo-se ao comunismo como ideologia a ser combatida.

280

A palavra “obreiro” não é uma categoria analítica no campo de estudo da sociologia, antropologia ou história das religiões. Entretanto, ela é uma categoria interna, utilizada pelos membros das Assembleias de Deus, bem como de outras igrejas evangélicas, que identifica aqueles indivíduos que servem como auxiliares dos pastores. Embora o obreiro não esteja obrigado, necessariamente, a ter formação teológica ou ministério pastoral, o papel que os mesmos desempenharam – e ainda cumprem – nas Assembleias de Deus foi de extrema relevância, pois os mesmos atuaram não apenas como missionários e/ou proselitistas da igreja, mas, também, na construção de templos, organização de cultos etc.

281

CUIDADO com a manipulação de obreiros. Mensageiro da Paz, Ano 33, n.º 8, Rio de Janeiro, 2ª quinzena de abril de 1963, p. 4.

282

Ibid., p. 4.

283

SOUZA, Estêvam Ângelo de. Temíveis e Convenientes substituições. Mensageiro da Paz, Ano 35, n.º 04, Rio de Janeiro, 2ª quinzena de fevereiro de 1965, p. 3.

A posição do jornal se inscreve também no contexto de acentuado fundamentalismo religioso no Brasil. A visita do pastor norte-americano Carl McIntyre, ao país, promoveu o combate ao ecumenismo, ao Conselho Mundial de Igrejas e, ainda, alimentou entre os cristãos a intolerância ao ateísmo, comunismo, materialismo e, até mesmo, teologias cristãs consideradas liberais ou progressistas. A respeito do fundamentalismo como movimento religioso que teve sua origem nos Estados Unidos na primeira década do século XX, Prócoro Velasques Filho afirma o seguinte:

Antes de mais nada é uma forma de fé cristã inteiramente voltada para o sobrenatural e para o a-histórico. Não há nenhuma abertura para o social, para a Igreja no mundo. É uma fé passiva em busca de sinais. Não favorece nenhuma reflexão teológica. A fé já está cristalizada na reta doutrina. Não favorece projetos nem gera utopias porque a leitura da Bíblia já está feita. É um dogmatismo escolástico, autoritário e ultraconservador.284

Contudo, a aversão e distanciamento que a Assembleia de Deus manteve, pelo menos oficialmente, de questões políticas, foi mudando gradativamente. A partir de 1968, alguns artigos publicados no jornal passaram a criticar o conformismo que caracterizaria a maioria das igrejas cristãs e, de maneira sutil, defenderam a participação política dos fiéis da igreja nos assuntos do país. O silêncio em relação ao golpe e as ausências de notícias informando a vida do Brasil contribuíram para que durante anos os assembleianos interpretassem o mundo e a si mesmos, desvinculados da história. Nas matérias veiculadas no Mensageiro da Paz, entre 1964 e 1967, o que se destacou foi a “intervenção divina” num país que, a despeito das torturas, assassinatos, perseguições e cassações, que ocorriam de norte a sul, via a “expansão do Reino de Deus” por meio dos batismos, conversões, testemunhos e inaugurações de templos assembleianos. Mas, ao final da década de 1960, as Assembleias de Deus deixaram mais clara e contundente sua posição política.