4. Geolocalização como meio de obtenção de prova: O caso paradigmático do GPS
4.1. As visões e antagonismos aparentes dos Tribunais nacionais – criminais e administrativos
4.1.2 O GPS no direito laboral: perspectivas e posicionamento
A utilização de mecanismos de vigilância à distância, no mundo do trabalho, tem-se tornado uma constante, entre sistemas de videovigilância, controlos biométricos – art. 18.º do CT - nos acessos e, aquele que nos interessa, uso de GPS no controlo de frotas automóveis. Também o código do trabalho dispõe de forma conformadora, o direito fundamental à privacidade, impondo uma relação bilateral de respeito à personalidade de ambas as partes – empregador e trabalhador - e bem assim de reserva aos seus núcleos de intimidade – art. 16.º do CT. Pese embora nos movimentemos num campo de cedências e obrigações decorrentes do vínculo laboral contraído, o CT impõe necessárias limitações ao poder de controlo e vigilância exercido pelo empregador junto dos seus colaboradores, querendo, com isso, evitar ingerências desmesuradas e ilegítimas nas esferas pessoais destes últimos, mormente nos quadrantes da liberdade e privacidade por serem aqueles mais expostos.
É perfeitamente entendível que a liberdade dos trabalhadores seja, ainda, mais mitigada face às obrigações laborais que decorrem dum contrato de trabalho que “pressupõe um acordo vinculativo assumido por uma pessoa singular para prestar a sua actividade a outra ou outras pessoas (singulares ou colectivas), mediante determinada retribuição, e sob a sua autoridade” (Bastos, 2011), cabendo, pois, ao legislador laboral mitigar, ao máximo, esta relação assimétrica de supremacia por parte do empregador.
Nestes termos, e naquilo que subordina a actividade de controlo do empregador sobre as tarefas do trabalhador, existem limites legalmente impostos, como aquele que resulta do art. 20.º, 21.º e 22.º do CT, interessando, para o efeito, os primeiros dois, relacionados com os meios de controlo à distância onde, porventura, se poderia integrar o GPS.
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Desde logo o legislador não deixa ao alvedrio do empregador a possibilidade de adoptar acriteriosamente, e a seu bel-prazer, medidas de controlo sobre os trabalhadores.
As medidas previstas no n.º 1 do art. 20.º têm necessariamente que coadunar-se e subsumir-se “à protecção e segurança de pessoas e bens ou quando particulares exigências inerentes à natureza da actividade o justifiquem” – n.º 2 do art. 20.º128.
Ademais, antes da sua implementação, as medidas estão sujeitas a um escrutínio prévio de aprovação por parte da CNPD129 – art. 21.º n.º 1 e 2 – que irá aferir da adequação, necessidade e proporcionalidade da medida nos termos da Lei de Protecção de Dados Pessoais - Lei n.º 67/98, de 26 de Outubro – e, claro está, implicitamente, da CRP.
A utilização do GPS no quadro laboral já foi alvo de ponderação da CNPD que na sua deliberação 7680/2014, de 28 de Outubro, veio a julgar a sua utilização aceitável, mas pontificando algumas cautelas relacionadas com um possível desvirtuamento do seu uso para fins que não configurem causas justificativas: 1. Gestão da frota em serviço externo: nas áreas de actividade de assistência técnica externa/ao domicílio; distribuição de bens, transporte de passageiros, transportes de mercadorias e segurança privada; e 2. protecção de bens: transporte de materiais perigosos e transporte de materiais de valor
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Neste contexto também a entidade empregadora está vinculada à obediência religiosa dos princípios constitucionais da restrição mínima e subsidiariamente possível dos direitos do trabalhador. Refere a CNDP, na deliberação 7680/2014: áàe tidadeàe p egado aàdeveà e o e àaosà eiosà ueàseà evele à menos intrusivos, obedecendo aos princípios da necessidade, da proporcionalidade e da boa-fé, e, consequentemente, demonstrar que escolheu opções com menor impacto sobre os direitos fu da e taisà dosà t a alhado es ,à al eja doà u à justoà eà afiveladoà e uilí ioà e tre a privacidade e a confidencialidade dos dados pessoais dos trabalhadores e a liberdade gestionária e directiva que a lei lhes confere. O STJ subscreve igualmente esta ideia no seu Ac. de 13-11-2013 referindo que oàpode àdeà direção do empregador, enquanto realidade naturalmente inerente à prestação de trabalho e à liberdade de empresa, inclui os poderes de vigilância e controle, os quais, têm, no entanto, de se conciliar com os princípios de cariz garantístico que visam salvaguardar a individualidade dos trabalhadores e conformar o sentido da ordenação jurídica das relações de trabalho em função dos valores jurídico- o stitu io ais .
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O consentimento do trabalhador é, neste contexto, dispensado acautelando todavia, como é curial vaticinar, que muitos deles não representem uma manifestação séria, espontânea e livre, antes uma declaração coartada pela vontade imperante do empregador.
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elevado (valor superior a € 10.000,00)130. Fora destes casos o acesso aos dados do GPS
deverá estar limitado a necessidades de investigação criminal, devendo, só aí, ser possível quebrar o selo de segurança digital que permite o acesso aos seus dados, sendo os restantes acessos considerados inaceitáveis e ilegítimos.
Todas estas cautelas prendem-se com questões de intromissão na esfera da vida privada do trabalhador- art. 8.º da CEDH e art. 26.º da CRP – e, no possível, acesso indevido a dados pessoais – art. 35.º da CRP.
Nesse sentido, veda a possibilidade da entidade empregadora se socorrer deste tipo de meios num plano de eficiência – art. 20.º do CT – e a possibilidade de proceder a um controlo remoto do trabalhador que vá para além da dimensão patrimonial, objectando-se qualquer controlo directo sobre a dimensão subjectiva do trabalhador por ser grosseiramente abusivo e limitador da sua liberdade131, permitindo-lhe não só perceber tempos e locais de paragem ou desvios de rota, como todos os passos do trabalhador com uma precisão excelsa.
Ademais, veio impor a conservação destes dados a um prazo máximo de conservação de 10 dias, adensando, ainda mais, a veia garantista de acesso a dados pessoais, seguindo de perto o, já, defendido numa deliberação anterior, de 2013 especificamente sobre esta matéria – deliberação n.º 1638/2013, de 16 de Julho.
Também os Tribunais têm sido chamados a deliberar sobre esta matéria e a decisão tem sido proclamada, unanimemente, no sentido da exclusão do GPS em
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Existe pois uma densificação do conceito de protecção de bens que não pode ser interpretado de forma lata, havendo pois que confinar essa protecção a bens de valor consideravelmente avultado, daí a fi aç oàdesteàvalo àpo àpa teàdaàCNDP.à‘efe eà aàditaàdeli e aç oà ueà ua toàà finalidade de proteção de bens, e tendo em conta a sua formulação demasiadamente genérica, considera a CNPD dever ser feita uma rigorosa ponderação entre os valores aqui em conflito, no sentido de conciliar o direito à proteção do bem com o direito à proteção de dados e à privacidade; caso contrário, ficará ferida a perspetiva de excecionalidade e de singularidade que o legislador pretendeu imprimir à norma, pois ficariam automaticamente abrangidos todos os veículos automóveis .
131 Sistemas de geolocalização instalados nos telemóveis dos trabalhadores são portanto inadmissíveis
por permitem um controlo panóptico do trabalhador. Em igual sentido se veda a possibilidade do empregador ter acesso à facturação detalhada do telemóvel e a dados do computador (correio electrónico) do trabalhador por revestirem uma grosseira violação do sigilo das telecomunicações e bem assim da sua privacidade, defraudando-se as suas legítimas espectativas de confidencialidade e intimidade – vide Ac. do TCE de 170/2013, de 13 de Outubro.
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viaturas da constelação de meios de controlo à distância previstos no n.º 1 do art. 20.º do CT.
O STJ – Ac. 13-11-2013 e 22-05-2007 - tem assumido uma postura lapidar, de
rejeição do GPS, como um meio de vigilância à distância, delimitando o alcance teleológico da norma a captações de imagem, som ou ambas. Refere o mencionado aresto que, “Embora a formulação literal do n.º 1 do artigo 20.º do Código do Trabalho não permita restringir o âmbito da previsão daquela norma à videovigilância, a verdade é que a expressão adoptada pela lei, «meios de vigilância a distância no local de trabalho, mediante o emprego de equipamento tecnológico, com a finalidade de controlar o desempenho profissional do trabalhador», por considerações sistemáticas e teleológicas, remete para formas de captação à distância de imagem, som ou imagem e som que permitam identificar pessoas e detectar o que fazem, quando e durante quanto tempo, de forma tendencialmente ininterrupta, que podem afectar direitos fundamentais pessoais, tais como o direito à reserva da vida privada e o direito à imagem”.
Estranhamente, não considera a vigilância através de GPS como uma ofensa ou intrusão à privacidade do trabalhador por apenas “a localização de veículos em tempo real, referenciando-os em determinado espaço geográfico. Não se dirigindo diretamente à vigilância do campo de ação dos trabalhadores, não permite saber o que fazem os respectivos condutores, mas, tão-somente, onde se encontram e se estão parados ou em circulação”.
Somos forçados a discordar desta visão, que peca por ser bondosa de mais, ao alegar a inexistência de ingerência alguma na privacidade132. Ela existe, e só pelo facto de ser uma ingerência menor, se devidamente balizada e controlada, é que pode ser considerada admissível. Julgamos que o espectro advogado por este superior Tribunal deveria incluir o GPS, sem prejuízo de este, em tese, não fornecer tanta e tão insidiosa
132 Também o TRE, no seu Ac. de 27-10- ,àdefe deàestaàideiaàda doàaàsegui teàjustifi aç o:à não
havendo captação ou registo de imagem ou som, (...) não podemos concluir que se ponha em causa os direitos da personalidade que o A invoca, nomeadamente a reserva da intimidade da vida privada e familiar, (...), pois [o GPS] apenas permite à empresa saber pontualmente, e em certo momento, a localização aproximada [do trabalhador], ou seja apenas poderá ficar a saber que ele se encontra numa e taàlo alidade,à asà oà u aà e taà uaàouàe àdete i adoàlo al .àO a,à o oàj àvi os,àesteà o t oloà é mais do que pontual e bem mais preciso do que este Tribunal vem alegar.
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informação que e.g. o CCTV133 permite obter, havendo, neste último caso, uma observação circunstancial da acção do trabalhador.
Parece-nos razoável, chegados aqui, concluir pela natureza intrusiva do GPS na esfera privada e liberdade pessoal das pessoas que são visadas pela utilização da medida, tanto mais, quando ela, no processo penal, é utilizada de forma oculta e poder- se-á dar o caso de, não regulamentada, poder revestir carácter permanente e prolongadamente insidioso ao ponto de roçar, se complementada com outras formas de vigilância presencial, o seu núcleo de intimidade.
4.2. Os ângulos da dogmática na problematização do recurso a